Prefeitura de BH convoca hotéis a receber população de favelas e nenhum adere

Governo municipal abriu edital para rede hoteleira da cidade abrigar pessoas de aglomerados subnormais que tivessem sintomas de contaminação pelo coronavírus e estabelecimentos não manifestaram interesse

Por Plox

21/11/2020 09h29 - Atualizado há 4 dias

Na medida em que a pandemia de Covid-19 se alastrou por Belo Horizonte, bairros da periferia concentraram a incidência de casos graves na capital — em alguns deles, ela foi o dobro da média da cidade, mostrou levantamento de O Tempo realizado em setembro. No final daquele mês, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) abriu um edital para hotéis receberem pessoas com sintomas leves de Covid-19 que vivem em aglomerados subnormais e que precisassem se isolar da família. Mesmo após uma prorrogação que manteve o edital aberto por um mês, o governo municipal afirma que nenhum hotel declarou interesse, o que, por ora, interrompeu o projeto. 

A iniciativa partiu do governo do Estado, que, em meados de agosto, anunciou o repasse de quase R$ 3 milhões para 17 municípios mineiros realizarem o empreendimento. Só Belo Horizonte receberia cerca de R$ 954 mil para implementar a medida. Agora, o governo municipal afirma que fará um estudo para entender por que não houve interesse do empresariado pela proposta. 

Região do Cabana do Pai Tomás, na região Oeste de BHFoto: Flávio Tavares/O TEMPO

Para Pollyana de Sousa, diretora da regional mineira da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH-MG), houve pouca divulgação do edital. “Vários hotéis estavam fechados no momento do lançamento do edital. E acredito que muitos hotéis estavam com orientação de evitar receber hóspedes com suspeita de Covid-19 até para proteger a própria equipe, acho que por isso esse edital não foi muito para a frente”, completa. 

A Prefeitura de Montes Claros, no Norte de Minas, que receberia aproximadamente R$ 155,5 mil do governo do Estado, também relata que nenhum hotel aderiu à iniciativa no município e nem enviou orçamentos, após convocação. Já a gestão de Patos de Minas, no Alto Paranaíba, afirma que os quase R$ 58 mil que seriam destinados a ela não cobririam os custos da operação e que, por isso, não aderiu ao projeto.

Uberaba, no Triângulo Mineiro, não aderiu ao programa porque, segundo a prefeitura, porque os números de contaminações na cidade não justificariam a medida. 

Ibirité, na região metropolitana de BH, não aderiu ao projeto “por não ter a estrutura necessária e não conseguir atender a todos os requisitos exigidos pelo programa”, segundo a prefeitura. Também na região metropolitana, a prefeitura de Santa Luzia afirma que não chegou a assinar o termo de adesão ao projeto e a de Betim declara não ter recebido a verba do governo estadual.

A gestão de Contagem também diz não ter recebido recursos e que depende dele para levar o projeto adiante, enquanto a de Ribeirão das Neves mantém o processo licitatório aberto. As demais prefeituras também foram procuradas pela reportagem, mas não deram retorno até o encerramento desta edição. 

A Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) afirma que apenas Belo Horizonte, Patos de Minas e Uberlândia não assinaram o termo de adesão ao projeto e que a verba só será liberada após a assinatura. Ela ficará disponível até o final deste ano. 

Utilização de hotéis de BH para população vulnerável é demandada desde março

Meses antes do ápice dos casos de Covid-19 em BH, que ocorreu entre julho e agosto, um movimento pedia que a prefeitura direcionasse pessoas que vivem em locais de aglomeração para hotéis com quartos disponíveis. O projeto “Quartos da quarentena” surgiu em consonância com iniciativas em outras capitais brasileiras e disponibilizava um formulário para qualquer cidadão enviar um email diretamente ao gabinete do prefeito Alexandre Kalil (PSD). Até o fechamento desta edição, 2.210 pessoas haviam enviado a mensagem. 

“O projeto não foi para a frente porque não teve aderência (do poder público). Tentamos um contato com a prefeitura, mas não conseguimos, já que tudo estava caótico em abril e maio”, diz o vice-presidente da regional mineira do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-MG), Alexandre Alexandre Nagazawa, um dos participantes da iniciativa. 

Outra participante, a diretora de escola e líder comunitária do Aglomerado da Serra Floricena da Silva, conta que o encaminhamento dos moradores da região para hotéis fez falta nos últimos meses. “Tivemos casos de Covid-19 e mortes, porque aqui não existem casas de casal ou de uma pessoa, são casas para cinco, seis”. Ela destaca a dificuldade de moradores realizarem testes de Covid-19, já que não têm fácil acesso aos privados, o que poderia ocultar a real dimensão da pandemia no local.

Por fim, o professor de arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Roberto Andrés, lembra que a prefeitura de BH encaminhou ao menos pessoas em situação de rua para espaços mais seguros na pandemia, mas que já não é hora de o movimento “Quartos da quarentena” ressurgir. O momento, ele diz, é de o próprio poder público insistir em alternativas para a população dos aglomerados. “Com um novo crescimento da pandemia, já sabemos quem vai ser mais afetado”, conclui. 

Fonte: https://www.otempo.com.br/cidades/prefeitura-de-bh-convoca-hoteis-a-receber-populacao-de-favelas-e-nenhum-adere-1.2414677
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