Inca inicia estudo para avaliar rastreamento de câncer de pulmão no SUS com tomografia de baixa dose

Pesquisa inédita, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde do Rio e financiamento da AstraZeneca, vai acompanhar ao menos 397 pacientes por dois anos e pode embasar diretriz nacional de detecção precoce

01/04/2026 às 15:01 por Redação Plox

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) anunciou nesta quarta-feira (1º) o início de um estudo inédito para avaliar a viabilidade de implementar um programa de rastreamento de câncer de pulmão no Sistema Único de Saúde (SUS). A meta é criar evidências científicas que possam embasar a construção de uma diretriz nacional voltada à detecção precoce da doença e à redução da mortalidade.

A pesquisa será feita em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro e terá financiamento da biofarmacêutica AstraZeneca. O estudo será conduzido pelo Inca por dois anos, com participação mínima de 397 pacientes, podendo ser ampliado.


Lançamento de estudo do INCA para implementação de programa nacional de rastreamento de câncer de pulmão no SUS.

Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil


Seleção de pacientes será feita com apoio de programa de cessação do tabagismo

A seleção dos participantes ocorrerá de forma colaborativa com a Secretaria Municipal de Saúde, a partir do Programa de Cessação de Tabagismo, que reúne cerca de 50 mil participantes. Segundo o texto do Inca, aproximadamente 85% dos casos de câncer de pulmão estão associados ao consumo de derivados de tabaco.

O rastreamento será feito com tomografia computadorizada de baixa dose (TCBD). De acordo com o Jornal Brasileiro de Pneumologia, essa estratégia reduz a mortalidade por câncer de pulmão em 20% e, quando combinada com a cessação do tabagismo, a redução chega a 38%.

O Inca também informa que evidências internacionais indicam que o rastreamento com TCBD, quando direcionado a populações de alto risco, pode reduzir de forma significativa a proporção de diagnósticos em estágios avançados — de cerca de 90% para 30% dos casos. No Brasil, a estratégia ainda não integra diretrizes nacionais de rastreamento, o que reforça a importância de iniciativas voltadas à produção de evidências para orientar recomendações em saúde pública.

Critérios de elegibilidade seguem consenso de sociedades médicas

Os critérios para participação seguirão o Consenso Médico da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem. O documento recomenda o rastreamento com TCBD em pessoas entre 50 e 80 anos, fumantes ou ex-fumantes (que tenham parado de fumar nos últimos 15 anos), e com consumo equivalente a 20 cigarros por dia, todos os dias, ao longo de 20 anos.

Em caso de diagnóstico positivo, os pacientes serão acompanhados e tratados pelo Hospital do Câncer I (HC I), uma das unidades do Inca e centro de referência para o tratamento do câncer no Rio de Janeiro, integrante da rede de alta complexidade do SUS.

Estudo será liderado por epidemiologista do Inca

A pesquisa será liderada pelo médico epidemiologista do Inca, Arn Migowski.

A gente vai tentar detectar cedo, antes de ter sintomas, um câncer de pulmão, e que a pessoa pare de fumar

Arn Migowski

Durante cerimônia no auditório do Hospital Municipal Souza Aguiar, no centro do Rio de Janeiro, Migowski também afirmou que a proposta é testar um protocolo já sustentado por evidências robustas e avaliar seu funcionamento na prática do SUS, considerando adesão e riscos, com possibilidade de ampliação futura.

Parceria público-privada e alerta sobre dispositivos eletrônicos

Para Danilo Lopes, diretor médico da AstraZeneca, parcerias público-privadas podem contribuir em diferentes frentes, incluindo a pesquisa. Ele defendeu que o fortalecimento do SUS passa pela aproximação entre os setores público e privado e afirmou que a companhia busca ir além da entrega de medicamentos, com a intenção de contribuir para mudar a história da doença no país.

Já o presidente da Aliança Brasileira de Combate ao Câncer de Pulmão, Gustavo Prado, apontou um desafio recente relacionado ao tabagismo: segundo ele, pela primeira vez em mais de 15 anos houve aumento e mudança na prevalência, com a introdução de dispositivos eletrônicos, como os vapes. Prado também afirmou que mais pessoas estão fumando hoje, especialmente entre jovens de 18 a 24 anos, e defendeu a intensificação de estratégias de prevenção com linguagem que alcance esse público.

Câncer de pulmão lidera mortes por câncer no Brasil

O câncer de pulmão é a principal causa de morte por câncer no Brasil. De acordo com o Atlas de Mortalidade do Inca, em 2024 foram registrados 32.465 óbitos por câncer de brônquios e pulmão no país. O número supera a soma das mortes por câncer de próstata (17.826) e de mama (20.849) no mesmo ano.

As estimativas do Inca indicam que o Brasil terá cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2026–2028, consolidando a doença como um dos maiores desafios de saúde pública. A alta mortalidade do câncer de pulmão, segundo o texto, está diretamente ligada ao diagnóstico tardio: cerca de 84% dos casos são identificados em estágios avançados, com taxa de sobrevida em cinco anos de aproximadamente 5,2%.

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