Erros graves em cirurgias no Brasil levam a mais de 500 operações para retirar objetos esquecidos

De 2022 a 2025, pacientes precisaram voltar ao centro cirúrgico após pinças, compressas e gazes serem deixadas no corpo; um caso em Minas Gerais terminou em morte

02/02/2026 às 11:06 por Redação Plox

Uma pinça de 14 centímetros esquecida no abdômen de um idoso. Uma compressa que permaneceu cinco anos dentro do corpo de uma mulher. Uma gaze que “circulou” silenciosamente pelo organismo de um homem durante um ano.


Veja casos de itens esquecidos dentro do corpo de pacientes no Brasil

Veja casos de itens esquecidos dentro do corpo de pacientes no Brasil

Foto: Reprodução/TV Globo

Casos como esses, mostrados pelo Fantástico, expõem uma realidade preocupante: materiais cirúrgicos esquecidos dentro de pacientes em hospitais brasileiros. Dados oficiais indicam que, entre 2022 e 2025, mais de 500 cirurgias foram realizadas no país apenas para retirar objetos deixados para trás em outros procedimentos.

Pinça de 14 centímetros esquecida no abdômen

No interior de Minas Gerais, Manuel Cardoso passou por uma cirurgia de emergência para tratar uma úlcera gástrica. Dias depois, ainda muito debilitado, foi submetido a uma tomografia para investigar a suspeita de um AVC.

O exame revelou algo inesperado: dentro do abdômen de Manuel havia uma pinça inteira, com cerca de 14 centímetros, do tamanho de um pequeno controle remoto.

O instrumento havia “sumido” na contagem do centro cirúrgico. Manuel precisou ser operado novamente, mas não resistiu. Três dias após completar 68 anos, morreu.

Compressa “escondida” por cinco anos após cesárea

A cabelereira Tatiane Freiras viveu uma sequência de dor, frustração e descrédito. Depois de uma cesárea em 2020, ela passou a relatar dores intensas, que só pioravam com o tempo. A cada consulta, um diagnóstico diferente: inflamação, aderência, desconforto pós-parto.

Nada explicava de fato o que ela sentia — até que, em 2024, uma ressonância magnética revelou o impensável: uma compressa cirúrgica havia sido esquecida no abdômen de Tatiane por cinco anos.

O material, que deveria ser facilmente identificado em exames de imagem — tem um fio azul justamente para aparecer em raio-x —, permaneceu ali por meia década, enquanto ela tentava “conviver com a dor”.

Gaze esquecida por um ano após cirurgia simples

Depois de uma cirurgia considerada simples, para corrigir uma hérnia umbilical, Diogo voltou para casa acreditando que o pior já tinha passado. Mas a dor não cessava, o inchaço não diminuía e, mesmo assim, os médicos insistiam que tudo era “normal”.

Um ano depois, em 2024, um ultrassom revelou o verdadeiro problema: uma gaze cirúrgica estava alojada na região operada, provocando inflamações constantes e sangramentos.

Diogo teve de passar por uma nova cirurgia — dessa vez, apenas para retirar o que nunca deveria ter permanecido dentro do corpo.

Levantamentos apontam que 73% dos cirurgiões já operaram algum paciente para retirada de um corpo estranho, segundo estudo da Universidade de São Paulo.

Objetos mais esquecidos e o risco invisível

Se uma pinça inteira pode ser esquecida dentro de um paciente, o que dizer de itens menores? Um levantamento da Universidade de São Paulo mostrou que gazes e compressas estão entre os materiais mais frequentemente esquecidos em cirurgias.

Por isso, os itens usados em centros cirúrgicos são produzidos com um detalhe importante: um fio que aparece no raio-x, o que permite localizá-los com mais facilidade em exames de imagem, caso haja suspeita de erro.

Você consegue chamar um raio-x na sala e isso aqui você consegue identificar no paciente Fabiana Makdissi, cirurgiã oncológica do A.C. Camargo

Como funciona o protocolo de segurança cirúrgica

Para reduzir esse tipo de falha, existe um protocolo específico para procedimentos cirúrgicos. Todo o material utilizado deve chegar ao centro cirúrgico em uma caixa lacrada. Os itens são contados antes do início da operação, novamente antes de o cirurgião começar a sutura e, por fim, ao término do procedimento.

O princípio é simples e rigoroso: o número de itens que entra na sala precisa ser exatamente igual ao que sai.

O chamado protocolo de cirurgia segura foi criado pela Organização Mundial da Saúde em 2009 e serviu de base para o modelo adotado no Brasil a partir de 2013. Muitas das práticas recomendadas foram inspiradas em outra área em que a checagem de informações é crucial para evitar erros: a aviação.

Começou a se estudar o que foi feito na aviação para chegar no grau de segurança que eles têm hoje. Uma das coisas que mais se fazia era aplicação de checklists, com itens para você checar para não ter que depender da memória e da atenção Lucas Zambon, diretor do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente

Além da contagem rigorosa de materiais, os protocolos preveem etapas de preparação e treinamento contínuo das equipes para que o trabalho seja mais seguro do começo ao fim.

O mais importante de tudo isso são todas as etapas que antecedem esse processo. Todo esse treinamento para que as coisas aconteçam da melhor forma possível Fabiana Makdissi

Alerta dos cirurgiões sobre falhas em sala de operação

O levantamento da USP sobre objetos esquecidos em cirurgias, feito com 2.872 cirurgiões de todo o país, acendeu um sinal de alerta sobre a segurança em centros cirúrgicos brasileiros.


73% dos cirurgiões dizem que já operaram algum paciente para retirada de um corpo estranho, aponta levantamento da USP

73% dos cirurgiões dizem que já operaram algum paciente para retirada de um corpo estranho, aponta levantamento da USP

Foto: Fantástico/ Reprodução

Entre os profissionais ouvidos:

– 43% afirmaram que já esqueceram algum objeto em uma cirurgia;
– 73% disseram que já operaram ao menos um paciente para retirada de um corpo estranho.

É uma falha que não pode acontecer sob hipótese alguma Mauro de Britto Ribeiro, diretor do Conselho Federal de Medicina

Os casos de pacientes que convivem por meses ou anos com materiais cirúrgicos dentro do corpo escancaram a importância de protocolos rígidos, supervisão constante e cultura de segurança nas salas de operação.

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