Polilaminina da UFRJ viraliza como “cura” para lesão na medula, mas especialistas pedem cautela

Proteína ainda não tem eficácia comprovada nem aprovação como remédio; Anvisa autorizou fase 1 para avaliar segurança, enquanto ações judiciais por acesso se multiplicam

02/03/2026 às 13:37 por Redação Plox

O nome de um composto biotecnológico ganhou destaque e dominou as discussões na última semana: a polilaminina. Produzida em laboratório na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), essa proteína foi associada à recuperação de conexões nervosas na medula espinhal, o que pode levar à retomada da função motora em pacientes paraplégicos ou tetraplégicos.

A descoberta, considerada promissora, despertou expectativas. Nas redes sociais, a polilaminina vem sendo apontada como possível cura para lesões na medula e apelidada de "molécula de Deus", em referência ao seu formato de cruz. Perfis também passaram a celebrar a bióloga Tatiana Sampaio, líder da pesquisa com a proteína. Esse movimento acabou estimulando ações judiciais de pacientes em busca de acesso às doses desse potencial medicamento.

Apesar do entusiasmo, os estudos com a polilaminina ainda estão em estágio inicial. Foram feitos apenas testes preliminares, e não há comprovação de eficácia nem evidências suficientes para relacionar diretamente a recuperação de pacientes ao uso da substância. Especialistas recomendam cautela, já que a polilaminina ainda não é um remédio aprovado nem um tratamento estabelecido.

em áreas como a neurodegeneração, o percurso entre descoberta científica, validação pré-clínica, ensaios clínicos e eventual incorporação tecnológica é necessariamente longo, complexo e depende de evidências cumulativasSociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e Academia Brasileira de Ciência

Imagens divulgadas mostram o grupo de pesquisadores da polilaminina em laboratório na UFRJ.


Antes do início dos testes com a polilaminina, pacientes estão acionando a Justiça em busca do tratamento

Antes do início dos testes com a polilaminina, pacientes estão acionando a Justiça em busca do tratamento

Foto: Reprodução/TV Globo

Como age a proteína estudada pelos pesquisadores

A laminina é uma proteína naturalmente presente no organismo, especialmente em maior quantidade na fase embrionária, e tem papel importante no estabelecimento de conexões entre neurônios.

Ao longo de anos de pesquisa, o grupo liderado por Tatiana Sampaio desenvolveu uma forma sintética do composto, extraída da placenta. Os estudos indicaram que essa versão, a polilaminina, facilitou a comunicação entre os nervos.

Diante desse resultado, os pesquisadores passaram a investigar se a polilaminina poderia induzir a regeneração de axônios — a parte dos neurônios responsável por conduzir informações entre as células — e funcionar como uma ponte para a passagem de comandos e sinais elétricos. O passo seguinte foi testar a resposta de animais com lesões medulares ao composto experimental.

Em um artigo de 2010, os autores descrevem que, após o uso da polilaminina em ratos com lesão medular, foram observadas melhora da locomoção e ação anti-inflamatória do composto.

Entre 2016 e 2021, em um estudo piloto, oito pacientes receberam injeções de polilaminina em até três dias após sofrerem lesão na coluna. Dois deles morreram depois da aplicação, por causas que não foram relacionadas ao tratamento. Os demais recuperaram parte dos movimentos.

Posteriormente, em 2025, o grupo publicou um estudo com seis cães paraplégicos. Mesmo em um contexto de lesão crônica, em que se forma uma cicatriz que dificulta a regeneração neuronal, houve melhora na função motora.

Os resultados com cães foram publicados em um periódico veterinário. Já os dados referentes aos testes em humanos estão em um pré-print, ainda sem revisão por outros cientistas — etapa considerada essencial para validação de estudos. Os próprios autores ressaltam que, por isso, o material não deve servir de base para tratamentos.

Limitações e fragilidades das evidências

O pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e especialista em fisioterapia, Leonardo Costa, pondera que, embora haja resultados positivos em células neuronais e em animais, a resposta no corpo humano pode ser diferente, devido à complexidade dos sistemas do organismo. Por isso, os relatos de melhora são considerados controversos.

Costa destaca que o número de pacientes avaliados até agora é muito pequeno. Segundo ele, o entusiasmo gerado em torno da substância é desproporcional ao volume de evidências disponíveis. O pesquisador lembra ainda que a evolução motora é esperada em cerca de 30% dos casos de lesão medular e que mesmo pacientes graves podem recuperar movimentos ao longo do tempo, desde que sigam o protocolo padrão, que inclui cirurgia para reposicionamento da coluna, medicação e fisioterapia.

Sem a existência de um grupo controle, não é possível determinar se a recuperação de uma lesão completa se deve à regressão de fatores como edema ou choque espinhal, que podem restabelecer a conexão neuronal, ou se decorre de fato da ação da polilaminina.

Em ensaios clínicos, ao menos dois grupos são acompanhados: o grupo experimental, que recebe o tratamento investigado, e o grupo controle. No caso da polilaminina, isso significa que parte dos voluntários selecionados receberia a injeção, enquanto outros seguiriam apenas o protocolo já estabelecido, com cirurgia e reabilitação. A comparação entre os desfechos dos dois grupos é o que permite avaliar se a polilaminina tem efeito adicional.

Próximas etapas: dos testes de segurança ao possível registro

A comparação entre grupos só poderá ser feita após a conclusão dos testes clínicos de fase 1, que verificam se o composto é seguro para uso em humanos. Em janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou essa etapa inicial.

No total, cinco voluntários, entre 18 e 72 anos, deverão receber uma dose de polilaminina ao darem entrada em hospitais para cirurgias na medula espinhal em decorrência de lesões. A partir daí, os dados vão embasar os ensaios clínicos de fase 2 e 3.

Na fase 2, centenas de pessoas com lesão medular recebem o tratamento para avaliação de eficácia, e uma parte é sorteada para o grupo controle. Já na fase 3, o número de participantes aumenta para compor uma amostra mais representativa da população.

Se os resultados forem positivos, o laboratório Cristália, parceiro da UFRJ na produção da polilaminina, poderá submeter os dados à Anvisa para solicitar o registro do medicamento. Esse processo, que inclui todas as etapas clínicas e regulatórias, pode levar de cinco a dez anos. Até a conclusão e aprovação, o produto não pode ser comercializado.

A explosão de ações judiciais e seus impactos na pesquisa

A comoção em torno da polilaminina e a difusão da ideia de que a proteína promove melhora em quadros de lesão medular levaram pacientes de vários estados a ingressar na Justiça para obter acesso compassivo ao composto. Uma norma da Anvisa permite, em situações sem alternativas terapêuticas disponíveis, o uso de medicamentos em fase experimental ou ainda sem registro.

Até a sexta-feira (27/02), 56 pedidos desse tipo haviam sido levados ao Judiciário, e 33 pacientes já tinham autorização para receber as doses, segundo a agência reguladora.

Leonardo Costa avalia que esse cenário pode incentivar pacientes a preferirem ações judiciais em vez de participação em ensaios clínicos, por temerem ser sorteados para o grupo controle, que não recebe a substância experimental. Isso tende a atrasar o desenvolvimento do medicamento, ao tornar mais difícil o recrutamento de voluntários.

O pesquisador também aponta que, quando decisões judiciais direcionam o uso de um tratamento ainda em estudo para pessoas fora dos critérios científicos, há desvio de recursos da pesquisa e perda de padronização em procedimentos, como as cirurgias, o que pode comprometer a qualidade dos dados.

A presidente da SBPC, Francilene Procópio, alerta para o risco de repetição de episódios como o da cloroquina, usada para tratar a infecção por coronavírus sem comprovação robusta de eficácia, ou o da fosfoetanolamina, conhecida como “pílula do câncer”, que depois se mostrou ineficaz em estudos mais amplos, apesar de resultados preliminares animadores.

Ela defende que não haja precipitação diante da pressão social em torno de terapias experimentais e ressalta a necessidade de que toda a trajetória da polilaminina siga critérios de transparência e rigor metodológico antes de qualquer uso amplo em pacientes.

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