Mãe relata emoção ao ver filho autista iniciar faculdade e estudo aponta desafios das cuidadoras
História de Anaiara Ribeiro, que se matriculou para acompanhar o filho João em Brasília, dialoga com dados do Mapa do Autismo e com anúncio de R$ 83 milhões para ampliar serviços no SUS
02/04/2026 às 17:42por Redação Plox
02/04/2026 às 17:42
— por Redação Plox
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Os olhos da advogada Anaiara Ribeiro, de 43 anos, se enchem de emoção ao ver o filho, João, de 18, chegar a uma faculdade em Brasília, no Distrito Federal. O ingresso na universidade marcou uma conquista aguardada por anos — e motivou a mãe a também se matricular para dividir com ele a experiência da sala de aula.
O apoio cotidiano a João sempre foi o centro da vida de Anaiara, muito antes de o filho receber o diagnóstico de autismo (de leve a moderado). O laudo veio apenas aos 8 anos, mas ela já identificava no dia a dia sinais e necessidades do menino. Desde os 2 anos de idade dele, a rotina passou a incluir consultas com diferentes especialistas.
Para ampliar o suporte ao filho, Anaiara pediu demissão do trabalho e passou a atuar como autônoma. Hoje, trabalha à noite, em feriados e aos fins de semana para dar conta das despesas e dos cuidados. A jornada ficou ainda mais desafiadora após o divórcio do pai de João.
Mãe passa a dividir a mesma sala com filho autista que chegou a faculdade.
Foto: Anaiara Ribeiro / Arquivo Pessoal
Era o sonho dele fazer o curso de jornalismo.
Anaiara Ribeiro
Mapa aponta mulheres como principais cuidadoras
Histórias como a de Anaiara refletem um padrão observado no Mapa do Autismo no Brasil, levantamento que reuniu respostas de 23.632 pessoas de todos os estados. Entre os resultados antecipados, está o dado de que a pessoa cuidadora de alguém com autismo, em geral, é uma mulher — e que muitas delas estão fora do mercado de trabalho.
O mapeamento é uma iniciativa do Instituto Autismos, uma organização não governamental. Os dados detalhados, segundo a pesquisa, serão publicados oficialmente na próxima quinta-feira, dia 9, uma semana após o dia de conscientização sobre o autismo, celebrado hoje (2).
Do total de respostas, 18.175 são de pessoas responsáveis por uma pessoa autista. Outras 2.221 respostas são de pessoas que são responsáveis e também estão dentro do espectro. A pesquisa inclui ainda 4.604 respostas de pessoas autistas com mais de 18 anos.
Diagnóstico ocorre mais cedo e se aproxima de padrões internacionais
Entre os pontos destacados no levantamento, um avanço aparece como contraste em relação ao caso de João, que só foi diagnosticado aos 8 anos. De acordo com a presidente do Instituto Autismos, Ana Carolina Steinkopf, a média da idade do diagnóstico está em torno de 4 anos, alinhada a padrões internacionais.
Segundo ela, quanto mais jovem a pessoa for diagnosticada, melhor tende a ser o caminho para tratamentos e cuidados de estímulo. O mapeamento também indica um alerta: famílias gastam mais de R$ 1 mil com terapias necessárias, e a maior parte recorre a planos de saúde para conseguir acesso aos atendimentos.
Outro recorte apontado é regional: famílias do Norte e Nordeste, segundo Ana Carolina, utilizam mais a estrutura do sistema público de saúde do que as demais regiões.
Governo anuncia ampliação de serviços no SUS
Em nota, o governo federal informou que ampliou a assistência a pessoas com transtorno do espectro autista com investimento de R$ 83 milhões. O Ministério da Saúde anunciou que vai habilitar 59 novos serviços, incluindo Centros Especializados em Reabilitação (CER), oficinas ortopédicas e transporte adaptado. As portarias, segundo o anúncio, serão assinadas nesta quinta-feira.
O mapeamento também deve embasar recomendações de melhoria no atendimento, que serão encaminhadas ao poder público federal e aos estados. Para a pesquisadora, a sensibilização e a conscientização sobre o autismo têm aumentado ano a ano, e não invisibilizar a condição é fundamental para ampliar pesquisas e formar mais especialistas.
No Brasil, a estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de que 2,4 milhões de pessoas sejam autistas. O diagnóstico precoce, aponta o texto, amplia a possibilidade de que as famílias procurem direitos, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e ações de inclusão em educação, saúde e bem-estar.
Direitos e inclusão na rotina das famílias
Anaiara cita conquistas que passaram a fazer parte da vida dela e do filho. Entre elas, menciona a inclusão em espaços de lazer, com gratuidade de ingresso para a pessoa com autismo e desconto para a acompanhante.
Após o divórcio, ela reconstruiu a família: casou-se novamente e teve uma filha do novo relacionamento. No relato, afirma que considera sua situação uma exceção, ao dizer que muitas mães que conhece continuam solteiras ou separadas e que, em diversos casos, os pais se afastaram. Para ela, a diferença foi ter encontrado um parceiro que assumiu a paternidade de João — e, segundo diz, a família vive um momento de felicidade.