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    Ortorexia: quando a rotina alimentar se torna uma perigosa obsessão

    Atitudes restritivas quanto à nutrição podem desencadear disfunções e adoecimento

    Por Plox

    02/12/2021 11h46 - Atualizado há cerca de 2 meses

    “Eu era um vegetariano que só comia legumes frescos e de qualidade, que tivessem sido plantados por mim. Mastigava cada colherada mais de 50 vezes, comia sempre sozinho, em local sossegado, e deixava o meu estômago parcialmente vazio no final de cada refeição”, lembra o médico norte-americano Steven Bratman em um testemunho pessoal sobre a ortorexia nervosa – um termo criado por ele em 1997 para descrever um tipo de comportamento alimentar em que, ambicionando um ideal de saúde, passa-se a ter atitudes altamente restritivas e disfuncionais, que podem, inclusive, levar ao adoecimento. 

    Em um primeiro momento, esse conceito chega a causar certo estranhamento. Ora, como pode ser problemático que alguém demonstre grande desejo e disposição de viver uma rotina saudável? A verdade é que estamos tão habituados a falar sobre a importância do autocuidado que, talvez, ao ler a parte inicial do relato de Bratman, possamos até sentir admiração por ele, que, por um ano, conseguiu se manter fiel a uma dieta rigorosa. Mas o próprio médico, nas linhas seguintes do depoimento, vai demolindo qualquer ímpeto de romantização de padrões alimentares tão limitados e limitantes. 

     

    Se alimentar com saúde é uma boa ideia, mas reduzir a escolha dos alimentos a seus componentes nutricionais é um erro Foto Foto: Divulgação
    Se alimentar com saúde é uma boa ideia, mas reduzir a escolha dos alimentos a seus componentes nutricionais é um erroFoto: Divulgação

    Ele lembra que aquele comportamento alimentar aparentemente saudável vinha trazendo prejuízos para si próprio, repercutindo, por exemplo, em atitudes que levavam ao isolamento social. Bratman diz que chegava a sentir desprezo por aqueles que comiam batatas fritas e chocolates, enxergando essas pessoas como “meros animais reduzidos à satisfação dos seus desejos”. “Tornei-me um presunçoso que desdenhava qualquer fruto colhido da árvore há mais de 15 minutos”, acrescenta, lembrando que essa ideia de superioridade por conseguir manter-se fiel a hábitos alimentares tão restritivos não significava nenhum tipo de satisfação e bem-estar. “Sentia-me sozinho e obcecado. Evitava a prática social das refeições e me obrigava a esclarecer familiares e amigos acerca dos alimentos”, garante. 

    Sabe-se hoje que a ortorexia causa danos para além do que expõe o depoimento de Bratman. “O problema mais visível associado a esse comportamento é o enfraquecimento de vínculos sociais causado pela recusa de participar de eventos e reuniões por causa da preocupação excessiva com a alimentação. Mas há outros desdobramentos. A pessoa sujeita a crenças tão rígidas torna-se cronicamente ansiosa e tende a se sentir frustrada, uma vez que seria impossível cumprir todas as normas impostas para atingir aquele ideal utópico”, observa a psicóloga Michelle Verneque, especialista em comportamento alimentar. Ela ainda cita que essa disfunção pode vir acompanhada de comorbidades, como a ocorrência de quadros depressivos. 

    A nutricionista comportamental Ruth Egg acrescenta que o paciente ortoréxico, embora acredite ter hábitos saudáveis, pode sofrer com a falta de nutrientes no corpo. “Muitas vezes, as dietas restritivas são criadas a partir de crenças que podem ser equivocadas. Além disso, aquele regime alimentar pode simplesmente não ser o mais adequado para aquele sujeito”, informa. 

    Comportamento transtornado 

    Michelle Verneque lembra que – diferentemente da bulimia e da anorexia, por exemplo – a ortorexia nervosa ainda não é considerada um transtorno alimentar, mas sim um comportamento transtornado. Apesar dessa diferenciação, o artigo “Ortorexia nervosa: reflexões sobre um novo conceito” lembra que há similaridades entre essas diferentes disfunções.  

    Publicado em 2011 pela “Revista de Nutrição”, o documento, que revisa 20 estudos conduzidos em países europeus sobre o tema, indica que, “à semelhança das pessoas com TA (transtornos alimentares), aquelas com ortorexia nervosa também demonstram sentimentos, crenças, pensamentos e comportamentos para com os alimentos que podem ser considerados obsessivos, extremistas e restritivos. Entre eles estão: ansiedade, necessidade de controle e de seguir regras rígidas, desejo de sentir-se puro e tendência ao perfeccionismo transferidos para o ato de comer”. 

    Por outro lado, o artigo aponta que algumas características distinguem esses dois grupos de pacientes. Por exemplo, aqueles com anorexia e bulimia costumam ter como motivação a perda de peso, enquanto indivíduos com ortorexia são orientados pelo objetivo de alcançar a “dieta saudável perfeita”. “Ademais, os primeiros raramente formam comunidades, enquanto os indivíduos obcecados por uma dieta perfeita procuram formar grupos com a mesma ideologia”, apontam os autores. 

    Fatores de risco. Ainda não há muitas evidências sobre o que estaria por trás da ortorexia nervosa. Mesmo assim, alguns estudos já indicam que alguns perfis estão mais suscetíveis ao desenvolvimento desse tipo de comportamento transtornado. Entre eles estão estudantes e profissionais da medicina e da nutrição e pessoas adeptas de modismos alimentares. 

    Tratamento. A principal dificuldade para se tratar essa disfunção alimentar está relacionada à resistência em reconhecer que há um problema. 

    “Ao ouvir falar sobre isso, as pessoas ficam surpresas, porque socialmente esses comportamentos são reforçados. São pessoas vistas como determinadas, com foco, força de vontade, e não como um comportamento obsessivo, que traz prejuízos”, indica Michelle Verneque, salientando que tanto critério ao se comer se torna uma disfunção quando o valor nutricional de um alimento passa a ser o elemento central da vida daquele sujeito, que começa a pensar o tempo todo no que vai comer, desenvolvendo obsessão sobre a origem dos alimentos, a forma de preparo e até os recipientes usados. 

    O acompanhamento psicológico é essencial no tratamento do distúrbio. A fim de se alcançarem melhores resultados, é indicado que nutricionistas participem desse processo terapêutico. “Muitos pacientes relatam alívio quando recebem orientação profissional, de forma que vão compreender que eventualmente sair da dieta não os colocará em risco”, observa Ruth Egg.  

    Comer com saúde  

    “A discussão sobre ortorexia nervosa é interessante para se pensar sobre o conceito de alimentação saudável com um enfoque biopsicossocial”, avaliam os autores da revisão literária citada nesta reportagem. No artigo, eles lembram que, “tradicionalmente, o conceito de ‘alimentação saudável’ tem sido relacionado apenas ao foco biológico e à adequação nutricional resultante de uma alimentação variada”. 

    “O ser humano, no entanto, não tem necessidades apenas biológicas, por isso é preciso que se amplie a definição de alimentação saudável além do biológico. Dessa forma, o comportamento alimentar deve envolver todas as formas de convívio com o alimento”, prosseguem, argumentando que “uma atitude alimentar saudável em relação ao alimento envolveria, portanto, um entendimento do seu papel fisiológico, emocional e social, e não apenas a ausência de comportamentos alimentares inadequados”. 

    Portanto, “o comer adequadamente não está relacionado apenas com a manutenção da saúde, mas também com um comportamento socialmente aceitável, flexibilidade e satisfação”.

    Fonte: https://www.otempo.com.br/interessa/ortorexia-quando-a-rotina-alimentar-se-torna-uma-perigosa-obsessao-1.2577745
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