Sob pressão e sem reconhecimento: estudo mostra impacto emocional do trabalho nos brasileiros

Levantamento global indica avanço da Zona Crítica no Brasil, com alta das exigências, pressão por flexibilidade e uso crescente de IA no dia a dia profissional

03/02/2026 às 08:12 por Redação Plox

A relação da maior parte dos trabalhadores brasileiros com o trabalho está longe de ser equilibrada. Em um ambiente marcado por pressão constante, altas demandas e sensação de pouco reconhecimento, cresce o desgaste emocional nas empresas, aponta a pesquisa global Work Relationship Index, da HP.


brasileiros relatam desgaste com o trabalho

brasileiros relatam desgaste com o trabalho

Foto: Freepik

De acordo com o levantamento, apenas 29% dos profissionais no país estão na chamada “Zona Saudável” — grupo que mantém uma relação mais positiva com a rotina profissional. Mesmo assim, o Brasil ainda supera a média global nesse indicador.

Na outra ponta, a “Zona Crítica” já reúne 34% dos trabalhadores, um avanço de 9 pontos percentuais em relação a 2024, o que indica um aumento significativo dos sinais de exaustão e desgaste.

Entre esses dois extremos está a “Zona de Atenção”, que corresponde a um estágio intermediário, no qual começam a aparecer alertas de sobrecarga e insatisfação.

As três categorias funcionam como uma espécie de autoavaliação, baseada em como os próprios profissionais percebem sua relação com o trabalho.

Para chegar aos resultados, a HP ouviu 18.200 trabalhadores de escritório — entre trabalhadores do conhecimento, tomadores de decisão de TI e líderes empresariais — em 14 países. No Brasil, participaram da pesquisa 1,3 mil pessoas.

Pressão maior, pouca recompensa

Os dados mostram que a pressão do dia a dia se tornou parte central da experiência de trabalho para muitos brasileiros.

Para 71% dos entrevistados no país, as exigências e expectativas das empresas aumentaram no último ano. A percepção predominante é de que o trabalho cobra mais, sem oferecer recompensas na mesma proporção.

Esse descompasso afeta diretamente a forma como os profissionais se sentem dentro das organizações: 39% afirmam perceber que as companhias priorizam o lucro em detrimento das pessoas.

A insatisfação também passa pelo modelo de presença no escritório. Segundo a pesquisa, 68% dos profissionais gostariam de passar menos dias no trabalho presencial, o que evidencia um choque entre o desejo por mais flexibilidade e as políticas adotadas por muitas empresas.

Tecnologia e IA aliviam, mas de forma desigual

Em meio ao avanço do desgaste, a tecnologia aparece como uma possível aliada para melhorar a rotina. Para a maioria dos profissionais, ferramentas digitais ajudam a ganhar tempo, organizar tarefas e equilibrar melhor as demandas do dia a dia.

No Brasil, 88% dos entrevistados afirmam que a tecnologia contribui para um equilíbrio maior entre vida profissional e pessoal.

A inteligência artificial já faz parte da rotina de trabalho de muitos deles. De acordo com o estudo, 90% dos profissionais brasileiros dizem utilizar algum tipo de IA em suas atividades, o que reforça o papel central da tecnologia no ambiente corporativo.

Os benefícios, porém, não chegam a todos de maneira uniforme. O acesso cotidiano à IA é mais comum entre posições de liderança: 49% dos tomadores de decisão de TI utilizam essas ferramentas diariamente, enquanto entre trabalhadores de escritório esse percentual cai para 25%.

A pesquisa também evidencia uma piora na oferta de capacitação. Em 2025, 67% dos profissionais dizem que suas empresas oferecem treinamento adequado para o uso de IA. Na edição anterior, esse índice era de 79%, sinalizando um recuo no investimento em preparo tecnológico.

Mesmo com essas limitações, o relatório identifica uma relação direta entre o uso de IA e uma experiência mais saudável com o trabalho. Entre os profissionais que estão na “Zona Saudável”, 44% utilizam inteligência artificial todos os dias. Já entre os que se encontram na “Zona Crítica”, o uso é significativamente menor.

Geração Z lidera pressão por mudança

O desgaste aparece com ainda mais força entre os mais jovens. A Geração Z puxa a busca por novos modelos de trabalho e coloca flexibilidade, autonomia e acesso à tecnologia à frente do salário.

Segundo o estudo, 90% desses profissionais aceitariam ganhar menos em troca de maior flexibilidade, autonomia e recursos tecnológicos, o que sinaliza uma mudança clara de valores em relação às gerações anteriores.

Ao mesmo tempo, 57% dos jovens já têm uma fonte de renda extra. A estratégia ajuda a complementar os ganhos e dá a eles maior controle sobre o próprio tempo.

Esse movimento reflete tanto a pressão financeira quanto a tentativa de escapar de um modelo visto como rígido e pouco recompensador, em que o retorno emocional e material não acompanha o esforço despendido.

O levantamento também aponta que a convivência entre gerações pode atuar como fator de equilíbrio. Profissionais das gerações X e Baby Boomers reconhecem o valor da troca intergeracional, especialmente no aprendizado de novas ferramentas digitais e em formas mais colaborativas de trabalhar, o que pode contribuir para relações mais saudáveis com o trabalho.

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