Marcas de sangue são achadas no box do banheiro e caso de morte de PM pode ter reviravolta

Vestígio foi identificado com luminol no apartamento; caso, inicialmente registrado como suicídio, agora é tratado como morte suspeita e aguarda laudos complementares.

03/03/2026 às 06:58 por Redação Plox

Peritos localizaram marcas de sangue no box do banheiro do apartamento onde a policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi encontrada morta com um tiro na cabeça, no Brás, região central de São Paulo. O achado, identificado com uso de luminol pelo Instituto de Criminalística, pode ajudar a Polícia Civil de São Paulo a esclarecer o caso, inicialmente registrado como suicídio e posteriormente tratado como morte suspeita.

Gisele foi achada na manhã de 18 de fevereiro, no imóvel em que morava com o marido, o tenente-coronel da Polícia Militar do Estado de São Paulo Geraldo Neto. Eles viviam juntos desde 2024. A filha da soldado, de sete anos, também residia no local, mas não estava em casa no momento da ocorrência.

A PM Gisele Santana e o marido Geraldo Leite Rosa Neto, tenente-coronal da Polícia Militar.

A PM Gisele Santana e o marido Geraldo Leite Rosa Neto, tenente-coronal da Polícia Militar.

Foto: Reprodução/TV Globo

Vestígios, perícia e mudança na linha de investigação

De acordo com os investigadores, a perícia identificou vestígios de sangue dentro do box do banheiro, espaço em que o tenente-coronel afirmou estar tomando banho na hora do disparo. Já a análise residuográfica deu negativo tanto para as mãos de Gisele quanto para as do marido.

Antes da divulgação desses resultados preliminares, os investigadores retornaram à delegacia responsável pelo caso e refizeram questionamentos aos socorristas e ao tenente-coronel, que estava no apartamento no momento da morte.

A Polícia Civil agora aguarda laudos complementares, entre eles o necroscópico, que deve detalhar a trajetória da bala. A partir da marca do ferimento, peritos pretendem indicar a distância em que o disparo foi efetuado e verificar a existência de outras lesões no corpo, como arranhões.


Gisele Alves Santana era policial militar e deixa uma filha de sete anos.

Gisele Alves Santana era policial militar e deixa uma filha de sete anos.

Foto: Montagem/g1/Arquivo pessoal

Relato do marido no boletim de ocorrência

No boletim de ocorrência, o tenente-coronel declarou que, pouco antes da morte, comunicou à esposa que desejava a separação porque o relacionamento não estaria funcionando e, em seguida, foi tomar banho. Segundo o relato, cerca de um minuto depois de entrar no chuveiro, ele ouviu um barulho e, ao abrir a porta, diz ter encontrado Gisele caída no chão, com intenso sangramento na cabeça e segurando uma arma de fogo.

Familiares contestam essa versão e afirmam que a policial vivia um relacionamento conturbado e era vítima de violência psicológica.

Relatos da família sobre controle e perseguição

Parentes descrevem um cenário de controle rígido sobre a rotina da soldado, incluindo a forma de se vestir e se comportar em público, e afirmam que Gisele se afastou gradualmente do convívio com amigos e familiares após o casamento.

“Ele proibia ela de usar salto, usar roupa, ir à academia só com ele, usar batom. Tanto que os perfumes dela eram guardados no quartel, ela não tinha perfume nem em casa. Ninguém podia olhar para ela, ela tinha que andar de cabeça baixa, ela não podia olhar para o lado”

Maria de Lourdes Huber

A mãe da policial, Marinalva Vieira Alves Santana, também relatou episódios que, segundo ela, demonstrariam perseguição constante no ambiente de trabalho e fora dele, com presença frequente do tenente-coronel em locais onde Gisele circulava, mesmo quando não estavam de serviço juntos.

Segundo os familiares, a soldado vivia sob pressão psicológica constante e a filha, de 7 anos, teria presenciado discussões e situações de conflito dentro de casa. Eles afirmam ainda que, dias antes da morte, Gisele pediu ajuda ao pai para deixar o imóvel, dizendo que não suportava mais a situação, mas acabou permanecendo após dizer que tentaria conversar novamente com o marido.

Disputa entre hipótese de suicídio e feminicídio

O caso foi registrado em 18 de fevereiro, no apartamento do casal na Rua Domigos Paiva, no Brás. Segundo a versão do tenente-coronel, após uma discussão, a policial teria atirado contra a própria cabeça enquanto ele tomava banho. Ela chegou a ser socorrida ao Hospital das Clínicas, mas não resistiu ao ferimento.

Os relatos da família sobre um relacionamento abusivo foram apresentados à polícia e contribuíram para a mudança de enquadramento do caso, que passou de suicídio para morte suspeita. Parentes afirmam que Gisele planejava pedir o divórcio e enfrentava resistência do companheiro. A família contesta a hipótese de suicídio e defende que a morte seja investigada como feminicídio.

De acordo com os familiares, o controle exercido sobre a policial incluía restrições ao uso de salto alto, batom e roupas de academia desacompanhada do marido. Eles dizem que ela se isolou socialmente após o casamento e que relatava sofrimento emocional recorrente.

Investigação policial e atuação da Corregedoria

A investigação é conduzida pela Polícia Civil de São Paulo e acompanhada pela Corregedoria da Polícia Militar. O caso está sob responsabilidade do 8º Distrito Policial do Brás. Até o momento, o tenente-coronel não é formalmente considerado suspeito.

Em depoimento, ele afirmou que o relacionamento do casal era conturbado e que, na manhã da morte, foi ao quarto da esposa para propor a separação. Disse também que era alvo de boatos entre colegas sobre um suposto relacionamento extraconjugal, o que, segundo seu relato, teria provocado crises de ciúmes em Gisele. As discussões teriam se tornado frequentes, levando o casal a dormir em quartos separados.

Na versão do oficial, após mais uma discussão, ele entrou no banheiro e, cerca de um minuto depois, ouviu um barulho que inicialmente interpretou como o de uma porta batendo. Ao sair, afirmou ter encontrado a policial ferida no quarto. Ele declarou ainda que mantém uma arma de fogo sobre o armário do cômodo onde dorme e que essa arma foi usada no disparo.

Memória da vítima e próximos passos

Gisele Alves Santana era soldado da Polícia Militar e deixa uma filha de sete anos. A família descreve uma mulher amorosa, ligada à filha e com projetos de vida, reforçando a rejeição à hipótese de que ela teria tirado a própria vida.

A Polícia Civil aguarda o resultado de laudos periciais, incluindo a análise da trajetória do disparo e a avaliação de possíveis lesões adicionais no corpo, para esclarecer as circunstâncias da morte e definir os próximos passos da investigação.

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