Biometria facial avança nos estádios, promete reduzir fraudes e reacende debate sobre privacidade

Obrigatória em arenas acima de 20 mil lugares, tecnologia é apontada como mais rápida e eficiente, mas relatório alerta para riscos de erros e impactos na LGPD e no ECA

03/04/2026 às 17:40 por Redação Plox

A tradição de guardar ingressos físicos como lembrança dos jogos está perto do fim. Há quase um ano, estádios com capacidade para mais de 20 mil pessoas passaram a adotar, de forma obrigatória, o acesso por biometria facial. Sem a necessidade de apresentar tíquete na entrada, o torcedor libera a catraca com o reconhecimento do rosto, cadastrado no momento da compra do ingresso.

A obrigatoriedade está prevista no artigo 148 da Lei Geral do Esporte, de 14 de junho de 2023. A legislação estabeleceu prazo de dois anos para a adoção do sistema nas arenas enquadradas na regra.


Biometria facial já é uma realidade.

Foto: Divulgação / Bepass


Ingresso personalizado e combate a fraudes

O objetivo principal da biometria é fazer com que o ingresso seja personalizado. Com isso, você elimina a possibilidade de esse ingresso ficar circulando entre várias pessoas, de poder emprestar, trocar, enfim. Elimina a fraude também, porque você não tem como copiar a face

Fernando Melchert, diretor de Tecnologia da Bepass

Segundo Melchert, a personalização do ingresso reduz práticas como empréstimo, troca e circulação irregular de entradas, além de dificultar fraudes. A Bepass é uma das empresas que desenvolvem o sistema no país.

Allianz Parque e o aumento de público

O Allianz Parque, em São Paulo, foi o primeiro estádio do mundo a operar a tecnologia em todos os acessos, ainda em 2023. De acordo com a Bepass, que implantou o reconhecimento facial na arena do Palmeiras, a velocidade de entrada do público aumentou quase três vezes. O clube também registrou crescimento de pelo menos 30% no número de sócios-torcedores.

Antes de cruzar a catraca da Arena Barueri para o clássico entre Palmeiras e Corinthians, pelo Campeonato Brasileiro Feminino, o motoboy Marcos Antônio de Oliveira Saturnino relatou a praticidade do novo modelo para quem compra ingresso on-line e faz o cadastro uma única vez.

Para Melchert, a mudança também tem impacto no perfil de quem frequenta as arquibancadas. Ele apontou aumento de famílias nos estádios, especialmente de mulheres (32%) e crianças (26%) entre 2023, antes da Lei Geral do Esporte, e 2025.

O público geral nas arenas também cresceu. A média de torcedores no Brasileirão Masculino do ano passado foi de 25.531 por jogo. Considerando apenas as 269 partidas após a biometria facial se tornar obrigatória, a média foi de 26.513 pessoas, cerca de 4% a mais.

Clubes fora da exigência legal também adotam a tecnologia

Mesmo sem atingir a capacidade mínima exigida pela lei, alguns clubes passaram a usar a biometria facial. Na Vila Belmiro, do Santos, com cerca de 15 mil lugares, o sistema começou a operar em 2024.

O clube estima economia de R$ 100 mil mensais (ou R$ 1,2 milhão anuais) ao deixar de confeccionar carteirinhas. O presidente do Santos, Marcelo Teixeira, associou a adoção do reconhecimento facial a conforto, segurança e à possibilidade de reduzir problemas com ingressos falsos e cambistas.

Integração com mandados de prisão e projetos de segurança

Um dos principais argumentos a favor do sistema é o reforço na segurança, a partir da conexão entre a biometria e o Banco Nacional de Mandados de Prisão. Com o cruzamento de dados, se houver pendência jurídica, a Polícia é acionada.

No clássico entre Santos e Corinthians, na Vila Belmiro, em 15 de março, pelo Brasileirão Masculino, três homens foram detidos. Um deles era procurado por roubo, e os outros dois pelo não pagamento de pensão alimentícia.

Em nível nacional, um acordo de cooperação firmado em 2023 entre Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e os ministérios do Esporte e da Justiça e Segurança Pública deu origem ao projeto “Estádio Seguro”. Em São Paulo, uma parceria entre clubes e a Secretaria de Segurança Pública (SSP) integra os equipamentos a um sistema estadual de monitoramento por câmeras. No programa “Muralha Paulista”, mais de 280 foragidos foram identificados e detidos ao tentar acessar arenas.

Privacidade, dados e risco de erros

Apesar do avanço, persistem dúvidas sobre o destino e o uso dos dados coletados. O relatório “Esporte, Dados e Direitos” questiona a adoção da tecnologia nos estádios e defende o banimento do reconhecimento facial, afirmando ser a mesma posição de “instituições e organizações civis nacionais e internacionais”.

Desenvolvida pelo projeto “O Panóptico”, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), a análise aponta preocupações com a privacidade de torcedores, a vulnerabilização de crianças e adolescentes e o racismo algorítmico. Entre os alertas está a datificação — a transformação de ações do público em dados monitoráveis —, prática considerada relevante para grandes empresas.

O relatório também critica a vinculação entre compra de ingresso e coleta biométrica, ao argumentar que o público seria imposto à datificação, inclusive menores, com possíveis impactos relacionados à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Outro ponto abordado são os riscos de identificações equivocadas, com possibilidade de prisões injustas.

O CESeC cita o caso de 2024 em que um homem negro, torcedor do Confiança, foi retirado da Arena Batistão, em Aracaju, durante a final do Campeonato Sergipano. O cruzamento de dados do reconhecimento facial o apontou como foragido, o que depois se mostrou incorreto, deixando o constrangimento.

O relatório recorre ainda a um artigo de 2018 das pesquisadoras Joy Buolamwini e Timnit Gebru, segundo o qual a acurácia de algoritmos de biometria facial varia conforme raça e gênero. O estudo apontou taxas de erro de 34,7% na identificação de mulheres negras, contra 0,8% para homens brancos.

Como a empresa responde às críticas

Questionado sobre os argumentos contrários à tecnologia, Melchert disse que o armazenamento e o tráfego da biometria captada ocorrem de forma vetorizada, e que não é a foto do usuário que circula no sistema. Ele também reconheceu que nenhum sistema é totalmente livre de falhas e que o erro mais comum seria o não reconhecimento da face. Para ele, seria muito difícil ocorrer um falso positivo.

Melchert afirmou não enxergar recuo na ampliação do reconhecimento facial, inclusive fora do ambiente esportivo. Segundo ele, shows e eventos tendem a incorporar o acesso por biometria facial, com a promessa de ganhos em segurança, fluidez, combate ao cambismo e impacto financeiro para produtores e organizadores.

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