Alcolumbre amplia força no Congresso e impõe derrotas a Lula em temas do STF e penas do golpe

Reportagem aponta perfil pouco ideológico do senador, baseado em articulação, nomeações e controle de verbas, e relembra sua ascensão desde a presidência do Senado em 2019

03/05/2026 às 10:38 por Redação Plox

Não se deve esperar de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) uma defesa ideológica, seja à direita ou à esquerda. O material político do presidente do Senado e do Congresso está ancorado na cordialidade do trato, na atenção às movimentações do poder, na ocupação de espaços, nas nomeações para cargos públicos, no controle de verbas e na costura de acordos, transparentes ou não.

  • Na semana passada, Alcolumbre deu uma demonstração de força ao impor uma dupla derrota ao presidente Lula, com a rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga aberta no STF, e com a derrubada do veto sobre a dosimetria das penas dos condenados pela tentativa de golpe de Estado. O episódio é apontado como o ápice, até aqui, de uma trajetória marcada por rápida ascensão na hierarquia do Congresso.
    A construção do poder de Davi Alcolumbre

    A construção do poder de Davi Alcolumbre

    Foto: crédito: Foto: Andressa Anholete/Agência Senado


Ascensão relâmpago ao comando do Senado

Em fevereiro de 2019, Alcolumbre surpreendeu o mundo político ao se eleger presidente do Senado contra o veterano Renan Calheiros (MDB-AL), que tentava chegar ao cargo pela quinta vez. Senador de primeiro mandato, tinha 42 anos e era filiado ao DEM. Para vencer a disputa, contou com o apoio do então presidente Jair Bolsonaro, que havia assumido o Planalto um mês antes.

A vitória no plenário encerrou a hegemonia do MDB no comando do Senado desde o início da nova República. Depois do fim da ditadura, antes de Alcolumbre, o único senador de outro partido a presidir a Casa havia sido Antônio Carlos Magalhães, no fim da década de 1990, então no PFL, antigo nome do DEM.

Domínio do Centrão e avanço do poder do Congresso

A chegada de Alcolumbre inaugurou um período de domínio do Centrão no Senado e de aumento dos poderes do Congresso, especialmente sobre as emendas parlamentares. Com dificuldade para formar base, Bolsonaro cedeu espaço no controle do orçamento. Esse domínio sobre as verbas se ampliou com a eleição, em fevereiro de 2021, do deputado Arthur Lira (PP-AL) para a presidência da Câmara.

A parceria Alcolumbre-Lira passou a definir os rumos do Parlamento. Sob o comando dos dois, surgiu o orçamento secreto, modelo de aplicação de recursos que ocultava autores e destinação das emendas. Após dois mandatos na presidência do Senado, Alcolumbre voltou a demonstrar força ao eleger Rodrigo Pacheco (MG), então no PSD, como sucessor, em 2021. Em fevereiro de 2025, retornou ao posto com amplo apoio do plenário e também de Lula.

Da boa relação com Lula ao confronto por uma vaga no STF

No início do governo petista, a relação entre os dois foi descrita como positiva. Alcolumbre influenciou a nomeação de três ministros e de diretores de agências. De volta à presidência do Senado, contribuiu para aprovar propostas relevantes para o Planalto na área econômica, como a reforma tributária.

O vínculo se deteriorou após o anúncio, em novembro do ano passado, do nome de Messias para o STF. Alcolumbre queria Rodrigo Pacheco na vaga e não aceitou a escolha de Lula. As pressões pela presença de um aliado na Corte coincidiram com investigações no STF sobre desvios de verbas do orçamento secreto e com revelações sobre envolvimento de parlamentares do Centrão com o escândalo do banco Master.

Lula sustentou que a indicação de ministros do Supremo é prerrogativa do presidente da República. Alcolumbre, segundo o texto, dissimulou o trabalho contra Messias ao prometer que não interferiria na votação. Na prática, interferiu e liderou uma decisão descrita como histórica: foi a primeira vez que um nome ao STF foi recusado desde o final do século XIX.

Origem, carreira e ruptura com Sarney

Nascido em Macapá em 19 de junho de 1977, Alcolumbre cursou economia no Centro de Ensino Superior do Amapá (Ceap), mas não concluiu a formação. Comerciante, pertence a uma família judia que migrou do Marrocos para o atual estado do Amapá no final do século XIX e construiu patrimônio principalmente no comércio, além de outras áreas, como a mineração.

No estado, a família era aliada do ex-presidente José Sarney (MDB). Davi Alcolumbre construiu a carreira à sombra de Sarney e, antes do rompimento, viveram um período de harmonia, no qual Sarney usava influência para nomear parentes de Alcolumbre para cargos públicos no Amapá.

Alcolumbre entrou na política em 2000, quando se candidatou a vereador de Macapá pelo PDT. Em 2006, foi eleito deputado federal e se reelegeu duas vezes. A rivalidade com Sarney começou em 2014, quando Alcolumbre se lançou candidato ao Senado. Ao pressentir que não o venceria, Sarney desistiu da disputa e apoiou Gilvam Borges, que perdeu para Alcolumbre.

No Senado, sua característica mais extrovertida, brincalhona e engraçada ajudou a atrair aliados. Foi assim que se consolidou como homem-forte do Congresso, exercendo influência sobre a pauta e o orçamento.

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