Ibovespa sobe 1,57% e fecha em recorde histórico com otimismo sobre cortes da Selic

Ata do Copom reforça disposição do BC em iniciar o ciclo de cortes em março, enquanto entrada de capital estrangeiro e cenário externo ajudam a sustentar o avanço

04/02/2026 às 08:31 por Redação Plox

A Bolsa brasileira encerrou o pregão desta terça-feira (3) em alta de 1,57%, aos 185.674 pontos, e renovou o recorde histórico de fechamento. O avanço foi sustentado pelo maior apetite ao risco e pela entrada de capital estrangeiro, em um dia marcado pela leitura positiva do mercado em relação à política monetária.

Ibovespa renovou recorde mais uma vez

Ibovespa renovou recorde mais uma vez

Foto: Pixabay


O novo rali ocorreu após a divulgação da ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), que reforçou a disposição do Banco Central em iniciar o ciclo de cortes da taxa Selic já em março. A perspectiva de juros mais baixos intensificou o otimismo na renda variável e atraiu investidores para a Bolsa.

Ibovespa supera marca histórica e dólar recua

É a primeira vez que o Ibovespa, principal índice da B3, fecha acima dos 185 mil pontos. Na máxima do dia, o indicador bateu 187.333 pontos, estabelecendo um novo recorde intradiário e superando, pela primeira vez, o patamar dos 187 mil pontos.

O dólar comercial recuou 0,17%, encerrando cotado a R$ 5,247, em um movimento que refletiu o fortalecimento do real ao longo das negociações e o ambiente mais favorável a ativos de risco no país.

Copom prepara corte de juros e mira meta de inflação

De acordo com a ata, a sinalização de corte da Selic em março vem após a melhora do quadro inflacionário e a maior proximidade das expectativas em relação à meta central de 3%. O objetivo do Banco Central é de 3%, com uma banda de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

O documento destacou que o comitê se aprofundou na discussão sobre a calibração da política monetária diante do ambiente de desaceleração dos preços e de expectativas mais alinhadas ao alvo. Apesar disso, o colegiado avaliou que a taxa básica precisa permanecer em nível elevado até que o processo de desinflação e a convergência das expectativas estejam consolidados.

Analistas veem ciclo de cortes ainda em aberto

Para Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, a ata indica que ainda não há definição sobre o ritmo e a intensidade do afrouxamento monetário. Ela avalia que a necessidade de manter a Selic em campo contracionista limita o espaço para uma queda mais acelerada dos juros, embora o fluxo de dados econômicos possa favorecer cortes mais intensos em algum momento do ciclo.

Na mesma linha, Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, observa que o tom do documento é semelhante ao comunicado divulgado logo após a decisão do Copom e reforça uma trajetória de queda gradual da Selic. Para ela, esse movimento sustenta o desempenho da Bolsa, enquanto o diferencial de juros em relação aos Estados Unidos continua elevado.

Carry trade e entrada de capital estrangeiro

Zogbi ressalta que o “carry trade” brasileiro segue atrativo. A estratégia consiste em tomar recursos em países com juros mais baixos, como os EUA, e aplicá-los em ativos de maior retorno, como a renda fixa doméstica. Quanto mais vantajoso o carregamento de juros no Brasil, maior tende a ser o fluxo de dólares para o país, o que beneficia tanto o câmbio quanto a Bolsa.

Segundo Davi Lelis, especialista e sócio da Valor Investimentos, a forte alta do Ibovespa retoma o padrão observado nas últimas semanas, marcado por uma migração relevante de investidores estrangeiros para fora das bolsas norte-americanas e em direção a mercados emergentes, incluindo o Brasil.

Levantamento da consultoria Elos Ayta mostra que, em janeiro deste ano, o volume investido por estrangeiros na B3 já superou todo o montante aportado ao longo de 2025, sinalizando um forte reposicionamento de portfólio em favor do mercado brasileiro.

Mudanças no Fed e impacto sobre o Brasil

O cenário internacional também entrou no radar dos investidores. Kevin Warsh foi indicado ao Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) na sexta-feira (30) por Donald Trump, em meio às críticas recorrentes do ex-presidente americano a Jerome Powell. Powell havia sido escolhido pelo próprio Trump em 2017 e reconduzido ao cargo em 2021.

Warsh deve assumir em maio, quando se encerra o mandato de Powell, caso sua indicação seja aprovada pelo Senado até o dia 15 daquele mês. Ele é visto como defensor de uma postura mais “hawkish”, ou seja, tolerante a juros altos para combater a inflação, em contraste com a pressão de Trump por reduções mais fortes — o republicano já defendeu cortes até 1%, ante o atual intervalo de 3,5% a 3,75%.

Declarações de integrantes da Casa Branca, porém, indicam que Warsh pode adotar posição mais flexível do que a precificada inicialmente pelo mercado, abrindo espaço para uma eventual trajetória de juros menos restritiva nos EUA, o que tende a favorecer países emergentes como o Brasil.

Para Gabriel Cecco, especialista da Valor Investimentos, a expectativa é de que Warsh tenha abordagem mais sensível ao crescimento econômico e menos voltada à manutenção de juros elevados por período prolongado, o que poderia aliviar a pressão sobre ativos de risco.

Indicação para o Banco Central entra no radar

No front doméstico, as discussões em torno da possível indicação de Guilherme Melo, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, para um cargo na diretoria do Banco Central também movimentaram o mercado. Na véspera (2), a circulação do nome de Melo contribuiu para a alta dos contratos de juros futuros.

Segundo avaliação de analistas, a perspectiva de mudança na composição da diretoria do BC gerou desconforto e cautela entre investidores, que passaram a exigir prêmios maiores para papéis de prazo mais longo, como forma de se proteger de incertezas sobre a condução da política monetária.

Mello tem ligação próxima com o PT e participou da formulação do plano econômico do atual governo. Sua indicação é vista como um sinal de maior influência não apenas do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, mas também do partido e do próprio governo nas decisões do Banco Central.

Nesta terça-feira, Haddad confirmou, em entrevista, que encaminhou a Lula o nome do secretário para a diretoria da autoridade monetária, mantendo o tema no centro das atenções dos agentes financeiros.

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