Maus-tratos a animais crescem 1.400% no Brasil desde 2021, aponta CNJ

Somente em 2025, foram 4.919 novas denúncias — média de 13 por dia — em meio a casos recentes de violência contra cães em diferentes estados e críticas à legislação

04/02/2026 às 12:01 por Redação Plox

Casos de violência contra animais explodiram no Brasil nos últimos quatro anos. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam que as ocorrências de maus-tratos cresceram 1.400% desde 2021. Só em 2025, foram registradas 4.919 novas denúncias — média de 13 por dia, um aumento de 21% em relação ao ano anterior.

Os crimes vão de espancamentos a enforcamentos e disparos de arma de fogo, em episódios que revelam um cenário de violência crescente contra animais em diferentes regiões do país.


Adote um cachorro de rua, mude o destino de um animal com todo o amor do mundo.

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Foto: Reprodução

Casos recentes expõem brutalidade das agressões

Em vários estados, casos recentes chamaram a atenção pela violência.

No Rio Grande do Sul, um pitbull foi enforcado por um homem que afirmou à polícia ter recebido R$ 20 para matar o animal. No Distrito Federal, um cachorro foi morto a tiros pelo próprio vizinho do tutor. Na zona leste de São Paulo, um cão comunitário morreu após ser atingido por diversos disparos; o suspeito ainda não foi encontrado.

Em Curitiba, um cão comunitário chamado Jack foi espancado a pauladas. A agressão foi registrada por câmeras de segurança. O responsável foi identificado, e a polícia pediu a prisão, mas a Justiça negou. O animal sobreviveu após três meses de tratamento e cirurgia para tratar um traumatismo cranioencefálico.

Uma veterinária que atendeu o cão relatou a gravidade do quadro:

Ele chegou em estado extremamente crítico, com lesões pelo corpo e trauma na cabeça.

veterinária responsável pelo atendimento

Cães comunitários sob risco constante

Casos como o de Jack refletem uma realidade comum para cães comunitários em muitas cidades brasileiras. Esses animais, cuidados por moradores e comerciantes da região, costumam ter abrigos improvisados destruídos, sofrem envenenamentos e são alvos frequentes de agressões.

Um protetor animal resume a rotina de violência enfrentada por esses cães:

São mortos todos os dias, têm a comida envenenada e os abrigos destruídos, em um ciclo de maus-tratos que muitas vezes sequer chega ao conhecimento das autoridades.

No Paraná, a Delegacia do Meio Ambiente resgatou mais de 5 mil animais em situação de maus-tratos nos últimos quatro anos, mostrando a dimensão do problema no estado.

Lei é considerada branda diante da escalada de crimes

Especialistas ouvidos apontam que o aumento da violência não é acompanhado por punições à altura. A legislação brasileira que trata de maus-tratos a animais foi criada em 1998 e prevê pena de detenção de três meses a um ano, além de multa. Em caso de morte do animal, a pena pode ser aumentada de um sexto a um terço.

Em 2020, após o caso de Sansão — um pitbull que teve as patas traseiras amputadas em Minas Gerais —, a lei foi alterada para prever pena maior, de dois a cinco anos de reclusão, quando o crime é cometido contra cães e gatos.

Na prática, porém, os agressores raramente cumprem pena em regime fechado. Segundo um delegado da área ambiental, as condenações costumam ser substituídas por medidas alternativas, como prestação de serviços ou pagamento de multa, o que impede que os responsáveis passem tempo na prisão.

Grande parte dos processos termina em acordo de não persecução penal, mecanismo que permite penas alternativas. Além disso, a lei não diferencia o tipo de agressão: a mesma punição vale para abandono, espancamento ou morte do animal, o que, para especialistas, não reflete a gravidade dos casos mais extremos.

Delegados e operadores do direito apontam ainda lacunas na legislação que podem facilitar absolvições e dificultar a responsabilização efetiva dos agressores.

Pressão por mudanças e ações de acolhimento

Na Câmara dos Deputados, uma frente parlamentar em defesa dos animais atua para endurecer a legislação e fazer com que os crimes de maus-tratos resultem em prisão em regime fechado, especialmente em situações de maior gravidade.

Enquanto mudanças não avançam, universidades e organizações da sociedade civil tentam reduzir os impactos da violência. Na Universidade Federal do Ceará, estudantes cuidam de cerca de 120 animais, entre cães e gatos, oferecendo vacinação, castração e abrigo temporário até que sejam adotados.

Para protetores e ativistas, o aumento dos registros não se explica apenas pelo crescimento das denúncias, mas também por uma escalada real na brutalidade dos crimes. Eles avaliam que, enquanto a agressão a animais seguir sendo tratada como um delito de menor gravidade, casos como os registrados nos últimos anos tendem a continuar se multiplicando em todo o país.

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