Brasil registra recorde de feminicídios em 2025 e especialista aponta omissão do Estado

No lançamento do relatório anual da Human Rights Watch em São Paulo, Samira Bueno criticou o desfinanciamento de políticas de proteção e afirmou que o feminicídio é um crime evitável

04/02/2026 às 11:23 por Redação Plox

O recorde de feminicídios registrado no Brasil em 2025 representa uma “omissão do Estado”, porque se trata de um tipo de crime evitável, afirmou a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Samira Bueno, nesta quarta-feira (4), durante a divulgação, em São Paulo, do relatório anual da organização internacional Human Rights Watch (HRW).


Samira Bueno, socióloga e diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, durante a divulgação do relatório da Human Rights Watch

Samira Bueno, socióloga e diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, durante a divulgação do relatório da Human Rights Watch

Foto: Reprodução/TV Globo

O documento analisa a situação dos direitos humanos em mais de cem países, incluindo o Brasil. Na edição deste ano, aborda temas como regime democrático, liberdade de expressão, aborto, direitos das crianças e violência de gênero, entre outros.

Em 2025, o Brasil registrou 1.518 casos de feminicídio, o equivalente a quatro mulheres assassinadas por dia, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O recorde anterior havia sido em 2024, com 1.458 registros.

Se isso está acontecendo, isso é uma omissão do Estado, porque esse é um crime evitável. Samira Bueno, diretora-executiva do FBSP

Feminicídios dentro de casa e falhas na rede de proteção

Samira Bueno destacou que a maioria das vítimas são “meninas e mulheres que morrem dentro de casa nas mãos de seus parceiros ou ex-parceiros”. Segundo ela, são crimes anunciados por uma sucessão de violências prévias, como agressões psicológicas, morais e físicas, que poderiam ter acionado a rede de proteção.

Para a diretora do FBSP, a omissão se espalha por todas as instâncias de poder, com destaque para a esfera estadual. Ela avalia que o enfrentamento à violência contra a mulher costuma ganhar visibilidade em campanhas eleitorais, mas perde espaço na definição de prioridades depois da posse.

Na crítica de Samira, no momento em que governantes assumem o cargo e passam a ter capacidade de tomar decisões concretas, o orçamento destinado às políticas de proteção não acompanha o discurso, o que impede a implementação de ações efetivas.

Na avaliação dela, há um desfinanciamento das políticas de proteção nos níveis municipal e estadual, justamente onde se concentram serviços fundamentais da rede, como assistência social, saúde e segurança pública. Esses serviços, ressalta, são os que podem de fato fazer diferença na vida das mulheres em situação de violência.

Relatório aponta infiltração de facções no Estado

Ao analisar as políticas de segurança pública brasileiras, o relatório da Human Rights Watch também alerta que o país precisa adotar novas estratégias para combater o crime organizado e sua infiltração em estruturas do Estado.

No capítulo dedicado ao Brasil, a organização defende uma ampla reformulação das políticas de segurança, com foco no enfrentamento às facções criminosas e em mecanismos para impedir que esses grupos ampliem sua presença em órgãos públicos.

Em entrevista ao g1, o diretor da entidade no Brasil, César Muñoz, relatou ter ouvido de um promotor responsável por investigar facções que policiais estavam envolvidos em todos os casos conduzidos por ele.

Segundo Muñoz, as facções cooptam agentes públicos para proteger atividades ilícitas e, em alguns casos, essa infiltração alcança também o meio político, principalmente em nível local. Essa articulação é apontada como uma das faces mais perigosas do crime organizado, por sua capacidade de corromper as instituições por dentro.

No relatório, Muñoz defende que as autoridades brasileiras conduzam investigações aprofundadas e baseadas em inteligência para identificar e desarticular vínculos entre organizações criminosas e pessoas que integram o poder público.

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