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O café pode ter efeitos no organismo que vão além da sensação de alerta provocada pela cafeína. Um estudo publicado na revista científica Nutrients sugere que compostos presentes na bebida interagem com uma via biológica ligada à resposta do corpo ao estresse celular, à inflamação e ao reparo de tecidos, processos associados ao envelhecimento celular.
Estudo aponta que compostos do café interagem com via ligada ao envelhecimento celular; cafeína tem efeito baixo
Foto: Foto: Divulgação
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Texas A&M University e investigou o papel do receptor nuclear órfão NR4A1, também conhecido como Nur77. Esse receptor foi analisado por sua possível relação com a forma como o café e alguns de seus componentes atuam em células.
Na prática, a hipótese dos pesquisadores é que parte dos efeitos protetores associados ao consumo de café pode ocorrer porque algumas substâncias da bebida conseguem se ligar ao NR4A1 e influenciar sua atividade.
Para testar essa ideia, os cientistas prepararam extratos aquosos de café moído e de espresso usando água fervente por 8 a 10 minutos, em um processo pensado para imitar o preparo da bebida. Foram analisados cafés de diferentes origens, incluindo Honduras, México, Guatemala, Colômbia (descafeinado) e El Salvador.
Depois do preparo, os pesquisadores testaram os extratos e compostos isolados do café em células Rh30, uma linhagem de rabdomiossarcoma usada em laboratório por responder ao NR4A1.
O trabalho também incluiu testes de ligação direta ao receptor, análises de proliferação celular, silenciamento do NR4A1 por RNA de interferência e simulações moleculares.
Os resultados indicaram que vários componentes presentes no café preparado se ligam ao NR4A1. Entre eles estavam ácido cafeico, ácido ferúlico, ácido clorogênico, ácido p-cumárico, kahweol e cafestol.
Um dos pontos destacados pelo estudo é que a cafeína não parece ser a principal responsável pelos efeitos observados. Ela até se ligou ao NR4A1, mas apresentou atividade funcional considerada baixa e variável nos modelos usados. Já compostos como os polifenóis, além do kahweol e do cafestol, tiveram respostas mais consistentes.
Nos experimentos com células Rh30, os extratos de café reduziram a viabilidade celular. Quando os pesquisadores diminuíram a presença do NR4A1 nas células, parte desse efeito foi atenuada. Para os autores, o resultado reforça que o receptor participa da resposta provocada pelo café.
O mesmo padrão foi observado com alguns compostos isolados, como ácido cafeico, ácido ferúlico e ácido clorogênico. Em células com redução do NR4A1, essas substâncias deixaram de reduzir a viabilidade celular de forma significativa.
Apesar dos resultados, a pesquisa foi feita principalmente em modelos laboratoriais. Ela ajuda a explicar um possível mecanismo biológico, mas não prova que beber café previne doenças em humanos nem altera recomendações de consumo.
Os próprios autores apontam que os achados precisam ser confirmados em estudos futuros, especialmente em tecidos e órgãos não transformados — ou seja, fora de linhagens celulares tumorais usadas em laboratório.
Estudos anteriores já associaram o consumo de café a menor mortalidade e a menor risco de algumas doenças relacionadas ao envelhecimento. A nova pesquisa busca esclarecer parte desse “porquê”, ao indicar o NR4A1 como uma possível ponte entre compostos da bebida e efeitos celulares ligados à proteção contra inflamação e dano tecidual.