Escola em antigo curral reúne eleitores e memórias em Águas Lindas de Goiás, GO

Unidade criada em 1992 recebeu moradores que relacionaram o voto à educação, à melhoria de vida e à esperança por novas gerações.

04/10/2026 às 14:32 por Redação Plox

Uma escola municipal de Águas Lindas de Goiás, instalada onde antes funcionava um curral de uma fazenda, reuniu neste domingo histórias de moradores que retornaram ao local para votar. Entre eles estava Pedro Pereira, de 56 anos, que chegou às 5h50 e foi o primeiro da fila quando a Escola Municipal Domingos Simão de Oliveira abriu os portões, às 8h.

Escola municipal de Águas Lindas de Goiás, instalada onde antes funcionava um curral de uma fazenda, reuniu neste domingo histórias de moradores que retornaram ao local para votar

Foto: Foto: Valter Campanato/Agência Brasil


Natural do Piauí e residente na cidade goiana, Pedro trabalha há 25 anos como porteiro em Brasília. O trajeto até o emprego, a cerca de 50 quilômetros de casa, pode consumir duas horas de ônibus. Por isso, ele afirmou esperar o fim da escala 6x1 e uma melhora em sua qualidade de vida.

Pedro Pereira votou na Escola Municipal Domingos Simão de Oliveira, construída em local que foi um curral

Foto: Foto Valter Campanato/Agência Brasil


Pedro deixou os estudos ainda no 4º ano, quando vivia em Campo Maior, a 90 quilômetros de Teresina. Naquele período, o trabalho na roça ao lado da família veio antes da escola. Ele contou recordar pouco do que aprendeu, mas disse que entrar em uma unidade de ensino ainda desperta emoções e que fez questão de incentivar os seis filhos a estudarem.

Para tentar a vida no Centro-Oeste, vendeu uma cabra e usou o dinheiro para comprar a passagem rumo à capital federal. Sem formação escolar, também trabalhou como auxiliar de pedreiro. Hoje, alimenta o desejo de voltar a estudar algum dia.

De curral improvisado a referência na comunidade

Ex-diretora da escola, Maria do Socorro Pereira diz que existência da escola é resultado da luta da comunidade

Foto: Foto Valter Campanato/Agência Brasil


A unidade onde Pedro votou começou a ser estruturada nos anos 1990, em uma área que servia como curral de vacas. A psicopedagoga Maria do Socorro Pereira, de 69 anos, professora e ex-diretora da escola, reuniu em 1992 as primeiras 60 crianças, filhas de trabalhadores rurais, para iniciar as aulas no local.

Segundo ela, não havia alternativa de ensino para aquelas famílias. O funcionamento começou de forma precária, com contêineres e adaptações feitas pela comunidade. Maria do Socorro relatou que chegou a cavar uma cisterna para ajudar a transformar o espaço em escola.

Inicialmente, a instituição recebeu o nome de Ayrton Senna da Silva, sugestão da professora após a morte do piloto, em 1994. Com o tempo, município e estado passaram a ofertar o ensino fundamental e, posteriormente, o ensino médio. Atualmente, são 1.350 alunos matriculados.


Desde que Águas Lindas de Goiás se tornou município autônomo, em 1995, a escola passou a discutir participação social e política, apesar das limitações de infraestrutura. Para Maria do Socorro, sua consolidação é resultado da mobilização dos moradores. O nome Ayrton Senna permaneceu em um prédio da mesma rua destinado ao ensino médio, enquanto a unidade Domingos Simões atende a educação infantil e o ensino fundamental.

Voto antes do trabalho na roça

O agricultor Divino Evangelista era o segundo na fila de votação neste domingo na Escola Municipal Domingos Simões, em Águas Lindas

Foto: Foto: Valter Campanato/Agência Brasil


O agricultor Divino Evangelista dos Santos, de 53 anos, ocupava a segunda posição na fila. Ele estudou até o 4º ano e se considera analfabeto. Pai de 11 filhos e morando sozinho atualmente, afirmou ter orgulho de nenhum deles ter abandonado os estudos. A ida antecipada à votação tinha um motivo prático: ele precisava voltar à roça no restante do dia.

Perto dele estava o pedreiro Dorival Batista, de 62 anos, natural de Rio do Sono, no Tocantins. Morador de Águas Lindas desde 2002, ele também se declarou analfabeto e disse esperar ter mais tranquilidade para dormir quando chegar a aposentadoria.


A enfermeira Géssica Matos diz que votar alimenta seus sonhos

Foto: Foto Valter Campanato/Agência Brasil


Para Géssica Matos, de 33 anos, votar na escola onde estudou durante toda a vida representou o reencontro com a própria trajetória. Ao lado do marido, o marceneiro Jeremias Azevedo, de 30 anos, ela levou o filho do casal, Oliver Darwin, de 9 meses, e associou o voto à expectativa de um futuro democrático e com ensino de qualidade para a criança.

Géssica trabalha no Hospital de Base, em Brasília, e precisa acordar antes das 4h para pegar o ônibus e chegar ao serviço. Ela afirmou que retornar à escola reaviva os sonhos construídos ali e que a participação nas eleições fortalece essa esperança.

Ex-alunos retornam como eleitores

O advogado Adenilson dos Santos Filho, de 36 anos, recordou a chegada à escola aos 7 anos de idade. Filho de caminhoneiro e de professora primária, ele disse que as docentes insistiam para que continuasse estudando — embora, no começo, a merenda fosse um dos motivos para frequentar as aulas.

Sem condições de custear uma graduação, Adenilson conseguiu entrar no ensino superior pelo Programa Universidade para Todos, o Prouni. Para ele, a faculdade teve importância decisiva, mas a escola de Águas Lindas segue como uma referência para a comunidade.

Também ex-aluno da unidade, o balconista Adriano Silva, de 20 anos, relatou nostalgia ao voltar ao prédio para votar. Recém-formado na escola, ele cursa gestão pública no ensino superior e espera pela abertura de concursos. Entre as lembranças, citou a quadra de esportes.

Diretora da escola, Zélia Vaz, diz que unidade de ensino é referência na comunidade

Foto: Foto Valter Campanato/Agência Brasil


Lídia da Conceição, de 31 anos, estudou no local por toda a vida e atualmente trabalha como monitora de estudantes com neurodivergência. Cursando pedagogia, ela disse que pretende se tornar professora da própria escola.

A diretora Zélia Vaz, de 58 anos, afirmou que a instituição acompanha, há três décadas, alunos e famílias em diferentes situações de vulnerabilidade social. Para ela, rever antigos estudantes como eleitores reforça a importância do trabalho pedagógico e da orientação oferecida diariamente. Na avaliação da gestora, a experiência em sala de aula ajuda a ampliar o significado de cada voto depositado na urna.

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