Além da cegonha: crianças buscam ajuda dos pais para aprender sobre sexualidade

Hoje, mais do que saber como são feitos os bebês, a criançada tem perguntado também sobre temas relacionados a gênero e orientação sexual

Por Plox

04/11/2020 11h57 - Atualizado há 27 dias

Por muito tempo e em muitos lares, ainda que de forma insuficiente, a educação sexual para crianças se resumiu à “história da sementinha”: ao recorrerem a essa narrativa lúdica, que tenta explicar para meninos e meninas o sexo apenas da perspectiva da reprodução, dizendo que o papai havia colocado uma semente na barriga da mamãe e que é assim que os bebês são feitos, os tutores até poderiam acreditar que tinham feito a sua parte na formação dos rebentos – mesmo que, depois, suassem frio quando seus filhos faziam outras tantas perguntas que só reforçavam a sensação de que aquela fantasia não bastava. E, se pais e mães já se viam assombrados diante de dúvidas sobre o que era a “camisinha” que aquele comercial tantas vezes falava ser importante usar, hoje, questões ainda mais abrangentes são levantadas pelos pequenos, deixando os adultos até mesmo intimidados. 

Expressão de gênero, orientação sexual e estereótipos de papéis sociais são algumas das matérias que têm deixado os pais embaraçados, sem saber como responder àquelas inquirições. Por um lado, afinal, acreditam que os assuntos são sofisticados demais e, por isso, seriam incompreensíveis para as crianças. Por outro, os próprios tutores, muitas vezes, não têm conhecimento suficiente para satisfazer a curiosidade dos pequenos. 

 

Crianças e jovens valorizam informações sobre sexualidade de emissores tradicionais, como a família, mas, ao mesmo tempo, são estes os que menos falam sobre o assunto e, por isso, recorrem a seus pares e à internet, aponta pesquisador uruguaioFoto: Pixabay

Em março deste ano, a bióloga Patrícia Calil passou por um episódio assim. Ela estava em um shopping com o filho, que tem 11 anos. Ao ver uma mulher transexual, o menino perguntou se ela era “um homem vestido de mulher” e depois quis saber como deveria se referir àquela pessoa de forma respeitosa. A mãe se viu surpreendida e sem uma resposta satisfatória. Mais tarde, ela recorreu, por meio das redes sociais, à pedagoga Ana Flor, que se identifica como travesti e que se propõe a pensar em outras formas de educação, política e gênero. “Me ajuda a ensinar direito?”, pediu. “Se quem estava no shopping era uma mulher trans, você pode falar para ele que ela é uma mulher trans. Que nós, mulheres, somos diferentes umas das outras. Toda mulher trans e travesti deve ser tratada no feminino”, explicou a estudiosa.

A experiência de Patrícia, que buscou ajuda para conduzir, da melhor maneira, a conversa com seu filho, parece um bom modelo de como pais podem proceder diante de uma pergunta para a qual não têm uma explicação satisfatória. “É saudável para adultos e crianças a busca conjunta dessas respostas. Costumamos partir do pressuposto de que adultos devem responder a todos os questionamentos. A nossa ideia de comunicação com as crianças se pauta nisso, em sermos um farol e tirarmos todas as dúvidas delas. Mas, na verdade, podemos descobrir o mundo juntos. Eu penso que, nessa perspectiva do diálogo, o adulto tem possibilidade de aprender junto com a criança, tornando-se também cada vez melhor do ponto de vista do respeito”, assinala Sandro Vinicius Sales dos Santos, especialista em docência na educação infantil e pedagogo. 

A consultora em sexualidade Aline Bicalho concorda. “Não tem problema nenhum falar com o filho que não entende muito sobre o assunto, que vai pesquisar e depois responder. Se as crianças entenderem que estamos caminhando juntos, vão desenvolver empatia, e a ponte do diálogo será mantida. Isso é o mais importante”, situa. Além disso, a exemplo da resposta sugerida por Ana Flor, os tutores devem apostar na simplicidade ao falar com seus filhos sobre temas relacionados à sexualidade para que a conversa não pareça algo muito distante e complexo ou “coisa de outro mundo”. “Não devemos deixar de dizer a verdade para nossos filhos, mas não precisamos nos alongar demais quando uma resposta simples seria suficiente”, diz a consultora. 

Para saber como responder à dúvida de uma criança, a dica de Aline é que os pais tentem identificar o contexto daquela conversa respondendo à pergunta com outro questionamento. “Assim podemos entender a amplitude do que a criança quer saber”, diz. Ela conta que, a sua filha Vitória, quando tinha 5 anos, perguntou o que era sexo. “Eu devolvi tentando entender por que ela queria saber isso, e a menina me disse que era porque os meninos da escola tinham dito que ela era do ‘sexo frágil’. Então, naquele momento, ela não estava falando sobre o ato sexual, mas sobre gênero – portanto, foi sobre isso que nós conversamos”, relata. 

TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO FACILITAM ACESSO DAS CRIANÇAS AO CONHECIMENTO, MAS TAMBÉM A INFORMAÇÕES EQUIVOCADAS 

Os pais já podem ir se acostumando, pois perguntas mais amplas sobre sexo, expressão de gênero e orientação sexual devem se tornar cada vez mais comuns. Na opinião do pedagogo Sandro Vinicius dos Santos, o fenômeno está ligado ao avanço das tecnologias da informação, que ampliam o acesso ao conhecimento. Além disso, “há um grito por liberdade das populações minorizadas, de forma que estamos convivendo cada vez mais com pessoas que rompem com padrões de gênero ou com arranjos familiares muito tradicionais, o que vai despertar a curiosidade das crianças, que, naturalmente, vão tentar compreender o mundo que as rodeia”, observa. 

Além do mais, Aline Bicalho lembra que as fábulas de cegonhas e sementinhas, que buscam restringir a sexualidade à reprodução, não satisfazem mais porque há uma mudança cultural em relação à compreensão dos encontros amorosos: “Se hoje sexo não é apenas sobre ter filhos, por que as crianças se convenceriam de que é só isso? O que precisamos é demonstrar para elas que aquela dinâmica pertence apenas ao mundo adulto”, diz. 

Essas analogias reducionistas oferecidas como resposta para as crianças, aliás, “não colam há muito tempo”, critica Santos, que se recorda de um episódio que ocorreu há 17 anos para examinar como esse recurso já é datado. Ele conta que estava conversando com sua esposa sobre métodos contraceptivos enquanto a filha, com cerca de 2 anos à época, brincava no tapete. “Minha mulher estava dizendo que o anticoncepcional estava trazendo reações hormonais indesejadas e sugeriu que eu voltasse a usar camisinha. Pensamos que a Maria Vitória não estava entendendo. Meses depois, ela me chamou e disse: ‘Papai, precisamos conversar. Eu não quero que você tome mais ‘blusinha’ porque quero ter um irmãozinho’”, recorda.

Para o pedagogo, o caso é emblemático de um conjunto de preconceitos que os adultos têm em relação às crianças. “Falar sobre sexualidade com os filhos pequenos é um tabu porque achamos que é algo muito melindroso que não pode ser dito ou que é tão sofisticado que as crianças não vão entender. Mas nos esquecemos de que elas não estão em uma bolha, em uma redoma. Pelo contrário. Elas são parte de uma cultura, assistem a programas televisivos que falam sobre sexualidade e têm acesso a uma vastidão de informações na internet. Então, a partir desse conjunto de informações, as crianças constroem repertório para compreender o mundo”, observa. Daí que, embora não entendesse bem, a menina já sabia aos 2 anos que a função dos contraceptivos era evitar uma gestação.  

E, se os pais se recusam a ter um diálogo honesto com seus filhos, “muitas dessas questões vão ser aprendidas na interação com seus pares ou por outros meios”, diz. Afinal, com ou sem o auxílio dos tutores, as crianças vão recorrer a usos interpretativos dessas informações para compreender o mundo e se relacionar com ele.

Armadilhas. A consultora Aline Bicalho ainda lembra que, por vezes, os pequenos podem já saber as respostas, mas fazem as perguntas para ver se seus pais vão dizer a eles a verdade. “Eles podem criar essa armadilha para ver se serão enganados. E, se notarem que os pais estão mentindo, esse elo de confiança pode ficar ameaçado, e então a criança vai buscar conhecimento em outras fontes, que nem sempre serão seguras”, alerta. Vale lembrar que, de acordo com a pesquisa TIC Kids Online, de 2018, 24,7 milhões de brasileiros entre 9 e 17 anos têm acesso à web. Trata-se de um contingente que corresponde a 85% da população nessa faixa etária que está permanentemente a um clique de encontrar uma vastidão de informações sobre a sexualidade na internet – o que inclui farta oferta de material pornográfico, o que pode levar a um entendimento distorcido sobre o tema. 

Internet como aliada. Mas a web pode ser também fonte de material educativo e se tornar uma aliada dos pais, fornecendo ferramentas para intermediar conversas sobre sexo, expressão de gênero e orientação sexual. É o caso da série “Que Corpo É Esse?”, produzido pelo Canal Futura em parceria com a Childhood Brasil, organização que faz parte da World Childhood Foundation. Em 12 episódios, o programa alerta educadores, crianças, adolescentes e famílias sobre o conhecimento do próprio corpo e a importância de se respeitar o direito à sexualidade.

 

Livros podem ajudar. Fora das redes, a exemplo do recém-lançado livro “Maya”, escrito por Xuxa Meneghel, publicações trazem com naturalidade a temática LGBTI+ para o universo das crianças e podem ajudar pais a responder perguntas de seus filhos sobre o assunto. Na obra, uma anjinha vem à Terra com a missão de espalhar afeto junto às duas mães que possui. Já o livro “Pipo e Fifi”, da autora Caroline Arcari, se propõe a ser uma plataforma contra a violência sexual na infância ajudando crianças a partir de 4 anos a compreender seu corpo e a identificar situações que elas não devem aceitar.

 

Fonte: https://www.otempo.com.br/interessa/alem-da-cegonha-criancas-buscam-ajuda-dos-pais-para-aprender-sobre-sexualidade-1.2407705
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