Política

Captura de Maduro por operação dos EUA na Venezuela acirra disputa eleitoral no Brasil

Lula volta a Brasília sob pressão para se posicionar sobre a crise venezuelana enquanto governo e oposição usam o episódio para fortalecer narrativas na corrida de outubro

05/01/2026 às 14:17 por Redação Plox

BRASÍLIA – A operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, que levou à captura de Nicolás Maduro, rapidamente transbordou das fronteiras do país vizinho e passou a alimentar o embate entre lideranças de esquerda e direita no Brasil. A crise internacional foi incorporada ao discurso de governo e oposição em um cenário já marcado pela disputa eleitoral de outubro.

Ao retornar a Brasília depois de alguns dias de descanso na Restinga da Marambaia, base da Marinha no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encontra uma agenda carregada. Além da necessidade de posicionar o Brasil diante da crise venezuelana, o Planalto trabalha para avançar na indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) e definir eventuais mudanças na Esplanada dos Ministérios, entre elas a substituição do ministro Ricardo Lewandowski.

Da esquerda para direita: Flávio Bolsonaro (PL), Tarcísio (Republicanos), Lula (PT) e Gleisi (PT)

Da esquerda para direita: Flávio Bolsonaro (PL), Tarcísio (Republicanos), Lula (PT) e Gleisi (PT)

Foto: Senado/Agência Brasil/ Presidência


Direita celebra ação e mira desgaste do governo

Na oposição, o movimento foi imediato. Pré-candidatos de direita passaram a celebrar a captura de Maduro, enquanto Lula condenou a ação dos Estados Unidos. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) classificou o episódio como o “início da libertação do povo venezuelano”, alinhando o discurso à narrativa de parte da direita, que vê no caso uma oportunidade de reforçar o antagonismo com o petismo.

Governadores como Romeu Zema (MG), Ratinho Júnior (PR) e Ronaldo Caiado (GO) também reagiram positivamente à operação, em sintonia com o campo oposicionista. Já o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (RS), adotou tom distinto, destoando em algum grau do coro de elogios ao desfecho provisório da crise em Caracas.

Tarcísio amplia exposição nacional e vira alvo do PT

Entre os governadores, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) foi um dos que mais procuraram capitalizar politicamente a crise venezuelana. Ao chamar Maduro de “ditador cruel e corrupto”, o paulista buscou se projetar nacionalmente e ainda lançou uma crítica velada a Lula, ao dizer que “tudo isso só foi possível ao longo do tempo por causa da conivência, omissão e até apoio de quem insistiu em chamar um ditador de companheiro”.

No campo governista, o recado teve endereço certo. A presidente do PT e ministra da articulação política, Gleisi Hoffmann, reagiu diretamente a Tarcísio, acusando-o de “cinismo” e intensificando a ofensiva contra o governador de São Paulo. Ao escolher Tarcísio como principal alvo, o PT deixa em segundo plano Flávio Bolsonaro, apontado por Jair Bolsonaro (PL) como herdeiro de seu capital político.

Crise externa se mistura à pré-campanha

Analistas de política eleitoral avaliam que o episódio venezuelano reforça a tendência de entrelaçamento entre crises externas e a corrida presidencial brasileira. Com cerca de 150 milhões de eleitores convocados às urnas em 4 de outubro, cada fato da política internacional passa a ser medido pelo potencial de impacto em estratégias, alianças e no discurso de campanha.

Na avaliação do advogado especialista em direito eleitoral Guilherme Barcelos, o caso deve influenciar o pleito sobretudo na forma como os candidatos moldam suas narrativas. Para ele, os temas da defesa da soberania e do combate a regimes ditatoriais tendem a se consolidar como eixos centrais de posicionamento público.

Disputa de narrativas e cálculo por votos

Barcelos projeta um acirramento do confronto retórico, com troca de acusações entre os dois principais campos políticos. Embora as falas sejam marcadas por diferenças ideológicas, ele aponta um fator comum que orienta ambos os lados: o objetivo de transformar cada movimento em ganho eleitoral.

O horizonte é a capitalização política, ou seja, a busca por votos

Guilherme Barcelos

Nesse ambiente, a crise na Venezuela deixa de ser apenas um tema de política externa e passa a operar como insumo para a disputa interna, ajudando a delinear a pré-campanha e a reforçar a polarização em torno de figuras como Lula, Tarcísio e integrantes do clã Bolsonaro, que disputam espaço no campo conservador.

Compartilhar a notícia

V e j a A g o r a