Saúde

Doença do beijo: especialista alerta para riscos e complicações da mononucleose em períodos de festas

Transmissão da mononucleose infecciosa aumenta com a maior troca de saliva em férias e eventos; infectologista explica sintomas, formas de contágio, possíveis complicações graves e orienta sobre prevenção e sinais de alerta

05/01/2026 às 09:23 por Redação Plox

O início do ano costuma ser sinônimo de férias, altas temperaturas, viagens para destinos paradisíacos e muita descontração. Nesse clima de festas, encontros e a famosa “pegação”, os beijos se tornam mais frequentes — e, com eles, aumenta também a circulação da mononucleose infecciosa, conhecida como “doença do beijo”.

Estação traz promessa de altas temperaturas, viagens, festas e dias descontraídos, mas também acende o alerta para aumento das infecções da enfermidade.

Estação traz promessa de altas temperaturas, viagens, festas e dias descontraídos, mas também acende o alerta para aumento das infecções da enfermidade.

Foto: Reprodução / iStockphoto.



Transmitida principalmente pela saliva, a enfermidade é causada pelo vírus Epstein-Barr e se espalha com facilidade em ambientes de contato próximo e momentos de intimidade. Os sintomas podem demorar de 4 a 8 semanas para surgir após a exposição ao vírus, período conhecido como incubação. Quando febre alta, dor de garganta e cansaço extremo aparecem, muitas vezes a pessoa já nem lembra em que situação pode ter se infectado. Nesse intervalo, mesmo sem sinais evidentes, o vírus já pode ser transmitido. A mononucleose costuma ser confundida com amigdalite bacteriana porque também provoca dor intensa na garganta e ínguas no pescoço.

Diferença para outras infecções de garganta

O infectologista Estevão Urbano ressalta que os sintomas se assemelham bastante aos de outras infecções na garganta, o que dificulta o diagnóstico apenas pela avaliação clínica. Para ele, o exame sorológico é a forma mais segura de confirmar ou descartar a mononucleose e orientar o tratamento adequado.


Segundo o especialista, a transmissão ocorre sobretudo enquanto o paciente ainda apresenta sintomas, normalmente por um período entre duas e quatro semanas. Em alguns casos, porém, a capacidade de transmitir o vírus pode se estender mesmo após a melhora, durando meses. Esse prolongamento da fase de contágio contribui para a disseminação silenciosa da doença em círculos de amigos, festas e viagens.

Quando a “doença do beijo” fica mais grave

Na maior parte dos casos, a mononucleose evolui de maneira favorável e se resolve com repouso e acompanhamento médico. Mas, quando não é reconhecida ou manejada corretamente, pode levar a complicações importantes, como ruptura do baço, meningite, encefalite e síndrome de Guillain-Barré, em que o sistema imunológico ataca os nervos periféricos, causando dormência, formigamento e fraqueza muscular progressiva, com risco até de paralisia.


Estevão destaca que, nos pacientes que apresentam aumento do baço, o que não ocorre na maioria dos casos, é preciso atenção especial ao risco de traumas durante atividades físicas ou de impacto. Nessas situações, cresce a chance de ruptura do órgão e de hemorragia interna, tornando fundamental evitar esportes de choque até que o baço retorne ao tamanho normal.


Mesmo depois da melhora da dor de garganta e da febre, é comum que o cansaço e a fadiga se prolonguem por dias, semanas ou até meses. Esse quadro, embora desconfortável e capaz de reduzir temporariamente a qualidade de vida, é considerado esperado após o fim dos sintomas mais agudos.

Reativação e segundo episódio: o que se sabe

A reativação do vírus da mononucleose infecciosa é descrita como uma condição rara e, em geral, ligada a situações de baixa imunidade. O infectologista cita, por exemplo, pessoas que tiveram quadros graves de Covid-19 ou pacientes com doenças que comprometem o sistema imunológico.


Em cenários de queda de anticorpos e de defesa do organismo, é possível tanto a reativação do vírus já presente no corpo quanto a aquisição de um novo episódio de mononucleose a partir de outro contágio, embora ambas as possibilidades sejam incomuns. Na prática, um segundo quadro da “doença do beijo” não é impossível, mas está longe de ser frequente.

Sinais de alerta que exigem atendimento imediato

Embora seja, em geral, uma infecção benigna, a mononucleose pode evoluir para quadros graves que exigem cuidado redobrado. Entre eles, alterações neurológicas, como encefalite e meningite, que podem se manifestar por mudanças de comportamento.


Em pessoas mais jovens, o aumento acentuado das amígdalas pode dificultar a passagem do ar, levando a falta de ar, esforço para respirar e chiado mais intenso. Já a ruptura do baço costuma causar dor abdominal forte, que deve motivar a busca imediata por atendimento médico.


Quadros de hepatite severa também podem surgir, com inflamação do fígado, olhos e pele amarelados (icterícia) e dor na região do órgão. Nessa fase, é necessário ajustar a alimentação, evitando frituras e alimentos gordurosos. Reduções de plaquetas podem aumentar o risco de sangramentos, especialmente após traumas, o que torna importante evitar o uso de anti-inflamatórios.

Como se prevenir e mitos sobre a transmissão

Encontros, festas e aglomerações que facilitam a troca de saliva pelo beijo são apontados como a principal via de contágio da mononucleose. A transmissão indireta também pode ocorrer por meio de copos, talheres e outros objetos que entram em contato com a saliva, contribuindo para a circulação do vírus em ambientes compartilhados.


Ao mesmo tempo, o infectologista reforça que essas infecções não são transmitidas pelo suor. Isso derruba um mito antigo relacionado à doença e ajuda a diferenciar os fluidos que, de fato, podem carregar o vírus.

Objetos relacionados ao suor, como toalhas e aparelhos de academia não transmitem a mononucleose, a não ser que hajam ali gotículas de saliva através da tosse ou do espirro. Ou no caso de esses instrumentos serem levados à boca. A transmissão se dá através de gotículas respiratórias apenas na fase da doença, e muito mais raramente depois que a pessoa se cura. Então é muito improvável que uma pessoa que já se curou, já está sem sintomas, possa transmitir a doença, embora essa não seja uma equação 100% exata. Existem casos raros onde isso pode acontecer.Estevão Urbano

Nesse contexto, a prevenção passa por cuidados básicos, como evitar compartilhar objetos que entram em contato com a boca, redobrar a atenção em festas, viagens e situações de maior proximidade física e, diante de sintomas persistentes de febre, dor de garganta intensa e cansaço prolongado, procurar avaliação médica para investigação da mononucleose e de outras infecções.

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