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Economia
Selic deve iniciar ciclo de cortes até março de 2026, mas incerteza fiscal segue no radar
Projeções de bancos e especialistas indicam PIB abaixo de 2%, inflação acima da meta e dívida perto de 85% do PIB, em meio a debate sobre arcabouço fiscal e necessidade de novas reformas
05/01/2026 às 10:56por Redação Plox
05/01/2026 às 10:56
— por Redação Plox
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O ano de 2026 deve ser marcado, além das eleições, pelo início do ciclo de cortes na taxa básica de juros, a Selic, pelo Banco Central até março, por mais um déficit nas contas públicas, por uma inflação ainda acima da meta e por uma desaceleração da atividade econômica. Nesse cenário, a projeção é de que o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro cresça em ritmo menor que em 2025, com avanço inferior a 2%.
Fernando Haddad, ministro da Fazenda
Foto: Diogo Zacarias/MF
Juros em queda e impacto da isenção de IR
Coordenador do programa de pós-graduação em Finanças do Insper, Ricardo Rocha avalia que 2026 deve começar com sinais positivos, especialmente pela perspectiva de redução da Selic, o que tende a estimular o mercado de ações. Ele destaca ainda que será possível medir, com mais precisão, o efeito da isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil sobre a economia.
Na análise do especialista, o aumento da renda disponível deve sustentar o consumo e evitar uma queda mais acentuada da atividade econômica. Ao mesmo tempo, Rocha considera que a inflação está relativamente controlada diante do forte aperto monetário já promovido pelo Banco Central, e aponta a situação fiscal como o principal foco de incerteza, sobretudo em um ano eleitoral.
Ele avalia que, qualquer que seja o resultado das urnas, o futuro governo terá de lidar com a necessidade de reformas, num contexto em que não há mais espaço para elevação de carga tributária. Entre os pontos sensíveis, Rocha cita a discussão sobre o vínculo entre o reajuste do salário mínimo e os benefícios previdenciários como uma das mudanças consideradas essenciais.
Dívida em alta e debate sobre o arcabouço fiscal
Segundo Ricardo Rocha, as limitações do atual arcabouço fiscal não têm sido suficientes para assegurar estabilidade da dívida pública, que segue em trajetória de alta. A projeção é de que o endividamento encerre 2026 próximo de 85% do PIB, um nível visto como preocupante para a sustentabilidade das contas do país.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também tem sinalizado preocupação com a questão fiscal e se mostra favorável a aperfeiçoamentos nas regras. Em sua última entrevista coletiva de 2025, antes das férias, ele destacou que o tema exigirá atenção do governo em 2026 e nos anos seguintes, independentemente de quem estiver na Presidência.
Qualquer que seja o governo, vai continuar aprimorando o arcabouço fiscal — Fernando Haddad
No centro do debate, está a possibilidade de revisar o teto de crescimento real das despesas, hoje limitado a 2,5% ao ano acima da inflação. Haddad mencionou que a discussão sobre reduzir esse limite para 2% ou elevá-lo para 3% deve ocorrer ao longo de 2026, abrindo espaço para diferentes estratégias de política fiscal, a depender do perfil do futuro governo.
Economia em desaceleração
Do lado da atividade, o diretor de Pesquisa Econômica do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa, vê uma desaceleração em curso, fortemente condicionada pelo atual patamar de juros, de 15% ao ano. Esse quadro, avalia, tem afetado o consumo das famílias, um dos motores tradicionais do crescimento brasileiro.
Nas projeções de Barbosa, o PIB deve crescer 1,5% em 2026. Em relatório a clientes, ele observou que a economia vem mostrando perda de fôlego em linha, ou até de forma mais intensa, do que o previsto, com a demanda privada respondendo ao ambiente de política monetária restritiva.
O economista pondera, no entanto, que a desaceleração não deve ser ainda mais forte devido ao aumento do salário mínimo — que corrige também benefícios previdenciários e sociais — e aos efeitos da isenção de Imposto de Renda. Esses fatores ajudam a sustentar a renda e a conter uma queda mais brusca no consumo.
Barbosa projeta ainda que a combinação entre atividade mais moderada, expectativas mais ancoradas e menor inércia inflacionária deve contribuir para uma inflação mais baixa, em torno de 3,8% em 2026.
Rombo nas contas públicas e risco à dívida
No campo fiscal, o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mário Mesquita, projeta mais um ano de déficit nas contas do governo. A estimativa é de um rombo de cerca de 0,8% do PIB, o equivalente a aproximadamente R$ 70 bilhões.
Em relatório de cenário, Mesquita calcula que, em 2026, o governo enfrentará um desafio adicional de 0,4% do PIB para alcançar o limite inferior da meta fiscal. O aumento de receitas com royalties e tributos ligados ao mercado de trabalho, aponta, foi compensado por despesas maiores com pessoal, o que limita a melhora do resultado primário.
Para o economista, o principal risco fiscal segue sendo a eventual adoção de medidas que enfraqueçam, de forma direta ou indireta, as travas impostas pelo arcabouço fiscal. Na avaliação do Itaú, a regra atual não garante, sozinha, a geração de superávits suficientes para estabilizar a trajetória da dívida.
As projeções do banco indicam que a dívida pública pode alcançar 84% do PIB no fim de 2026, reforçando a preocupação com a sustentabilidade das contas públicas e a necessidade de disciplina fiscal combinada a reformas estruturais.