Alta de câncer colorretal em jovens faz Inca discutir novos critérios de detecção, diz diretor

Aumento de diagnósticos em adultos mais jovens, especialmente de câncer colorretal, reacende debate sobre antecipar a idade de início do rastreamento no SUS.

05/02/2026 às 08:45 por Redação Plox

O Brasil atualizou o retrato do câncer no país. A nova estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca) projeta cerca de 781 mil novos casos por ano entre 2026 e 2028 e reforça que a doença ocupa um lugar central entre os desafios de saúde pública nacionais.


Câncer colorretal cresce entre jovens e leva Inca a discutir mudança no rastreamento, diz diretor

Câncer colorretal cresce entre jovens e leva Inca a discutir mudança no rastreamento, diz diretor

Foto: Freepik

Por trás desse número, médicos relatam um movimento que, até pouco tempo atrás, parecia distante da realidade brasileira: o aumento de casos de câncer em adultos mais jovens, especialmente entre 18 e 50 anos. O fenômeno já preocupa países como Estados Unidos e nações europeias e, embora ainda não apareça com a mesma força nas estatísticas nacionais, vem sendo observado na prática clínica — sobretudo em tumores como o colorretal.

Em entrevista ao portal de notícias g1, o diretor-geral do Inca, Roberto de Almeida Gil, detalha por que esses casos têm surgido mais cedo, quais são os limites dos dados disponíveis no Brasil e quais pontos estão em debate quando se fala em rastreamento, gargalos do Sistema Único de Saúde (SUS) e o desafio de transformar leis em cuidado efetivo.

Crescimento de casos em adultos jovens

Segundo o diretor do Inca, há uma percepção clara de aumento da incidência de câncer em pacientes mais jovens, em linha com os dados disponíveis hoje. Embora as estimativas não representem números absolutos, a tendência de alta é considerada real, ainda que possa não ter a mesma dimensão do que aparece em parte do debate público.

Uma das explicações envolve a melhora da sobrevida em cânceres hereditários e em câncer infantil. Pessoas que antes não sobreviviam à doença passam a chegar à vida adulta, constituir família e ter filhos, o que mantém essas mutações genéticas em circulação ao longo do tempo. Esse fator, porém, não é suficiente para justificar sozinho o aumento de tumores em idades mais precoces.

O ponto central, afirma Gil, é que entre 30% e 50% dos cânceres estão associados a fatores de risco conhecidos, e as pessoas estão sendo expostas a esses fatores cada vez mais cedo na vida.

Tabagismo, ultraprocessados e obesidade em foco

O tabagismo continua sendo o fator de risco mais conhecido. A avaliação é de que a indústria tem estratégias deliberadas para atrair jovens, seja pelo cigarro tradicional, seja por vapes, narguilé e outros dispositivos, com design e comunicação voltados à sedução desse público. Quando alguém começa a fumar mais cedo, o processo de carcinogênese, que leva em torno de 20 anos, tende a se completar mais rapidamente, antecipando o surgimento do câncer.

A alimentação também exerce papel importante. A obesidade e o consumo de ultraprocessados são apontados como fatores de risco bem estabelecidos. Hoje, mais de 60% da população brasileira está acima do peso, e crianças são expostas a esses produtos desde muito cedo. Quanto mais precoce esse contato, mais cedo aumenta a chance de o câncer se manifestar. Esse padrão tem sido particularmente evidente no caso do câncer colorretal.

Câncer colorretal acende alerta e pressiona rastreamento

O câncer colorretal é hoje um dos principais sinais de alerta na população jovem. Ao contrário de outros tumores, a incidência nesse grupo não se mantém estável: há um aumento observado em faixas etárias mais novas, o que obriga especialistas a repensar as estratégias de rastreamento.

Entre as mudanças em discussão está a redução da idade de início do rastreamento, hoje recomendada a partir dos 50 anos, para 45 ou até 40 anos. Trata-se de um debate técnico em andamento, ainda em avaliação, e que envolve a definição do melhor limite etário para equilibrar benefício, custo e capacidade do sistema.

Gil ressalta que rastreamento populacional não significa colonoscopia para toda a população. O processo começa com o teste imunológico de sangue oculto nas fezes; a colonoscopia é indicada como exame confirmatório quando esse teste apresenta resultado positivo.

Essa mudança ainda não está em vigor no SUS. A proposta está sendo submetida à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec). Só após essa etapa poderá ser transformada em política pública pelo Ministério da Saúde.

HPV, álcool e outros tumores associados

Outros tipos de câncer também ajudam a compor o cenário de diagnóstico precoce. Um exemplo é o câncer de colo do útero, que ainda apresenta incidência alta no Brasil e está fortemente associado ao HPV. O vírus pode infectar muito cedo, inclusive por contato manual. Quando essa infecção ocorre na infância ou adolescência, o câncer pode surgir cerca de 20 anos depois, ainda em idade jovem.

O álcool também entra nessa equação. A literatura científica indica que não existe dose segura de álcool em relação ao câncer: mesmo pequenas quantidades elevam o risco. Embora o consumo seja proibido para menores de 18 anos, a realidade é que ele começa cedo em alguns grupos.

A obesidade, por sua vez, está ligada a outros tumores além do colorretal. No câncer de mama, por exemplo, o excesso de peso está relacionado a alterações do metabolismo e do perfil hormonal, o que pode contribuir para o surgimento da doença, inclusive em mulheres mais jovens.

Câncer de mama em jovens e estabilidade dos índices

No caso do câncer de mama, cerca de 20% dos diagnósticos ocorrem em mulheres com menos de 50 anos. Esse percentual chama a atenção por afetar mulheres em plena fase produtiva e em momentos-chave da vida pessoal e profissional.

Apesar do impacto, a proporção de casos em faixas etárias mais jovens tem se mantido relativamente estável ao longo do tempo, diferentemente do câncer colorretal, em que se observa crescimento entre adultos mais novos.

Lei dos 60 dias e gargalos antes do tratamento

A chamada “lei dos 60 dias” é considerada um marco importante por estabelecer prazo para início do tratamento após o diagnóstico. No entanto, o cuidado oncológico depende de uma rede organizada de atenção. Antes de chegar ao tratamento em si, o paciente passa por etapas como a suspeita clínica, a realização de exames, a confirmação diagnóstica e o estadiamento da doença.

Se essa rede não funciona de forma integrada, cumprir uma exigência legal não garante, necessariamente, cuidado oportuno. Na avaliação do diretor do Inca, a lei atua em apenas uma etapa do processo e, sozinha, não resolve os gargalos principais, que se concentram justamente nas fases iniciais de acesso ao diagnóstico e à confirmação da doença.

Limitações dos dados e notificação ainda incompleta

As limitações dos dados de câncer no Brasil estão ligadas, em parte, à distância entre o que a legislação prevê e o que é efetivamente cumprido na rotina dos serviços. A notificação compulsória de casos é um avanço, mas ainda não é plenamente observada em todo o país.

Para enfrentar esse cenário, o Inca e outras instâncias do sistema têm investido em capacitação, fortalecimento dos registros hospitalares e ampliação dos registros de base populacional. O objetivo é produzir informações mais completas e confiáveis, capazes de orientar políticas públicas e a distribuição de recursos.

Estimativas do Inca e papel da saúde digital

As estimativas produzidas pelo Inca são validadas por organismos internacionais e são consideradas muito próximas da realidade, embora não representem números absolutos. Esses dados são fundamentais para planejar ações de prevenção, diagnóstico, tratamento e organização da rede de atenção oncológica.

A digitalização da saúde é vista como um caminho inevitável. Prontuários eletrônicos integrados tendem a melhorar a qualidade e a agilidade das informações, permitindo planejamento mais preciso e respostas mais rápidas aos problemas identificados nos serviços.

Entre populações vulneráveis, como indígenas e grupos de difícil acesso, a melhoria ainda é limitada, mas a expectativa é que sistemas mais integrados ajudem a reduzir a invisibilidade desses grupos nas estatísticas de câncer e em outros indicadores de saúde.

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