Criando roupas acessíveis com braille, mineira lucra R$ 97 mil em 12 meses
Cíntia Caroline desenvolveu peças com informações como cor e tamanho em relevo no tecido e validou protótipos com pessoas cegas para garantir legibilidade.
05/02/2026 às 06:59por Redação Plox
05/02/2026 às 06:59
— por Redação Plox
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Escolher o que vestir é simples para muita gente, mas pode ser um desafio diário para pessoas com deficiência visual. Em Belo Horizonte (MG), essa dificuldade se transformou em oportunidade de negócio com propósito: a empreendedora Cíntia Caroline criou peças de roupa com estampas em braille, pensadas para ampliar a autonomia na hora de se vestir.
A ideia surgiu enquanto ela fazia um curso de braille e ouvia amigos descreverem o esforço necessário para memorizar o guarda-roupa, associando cada peça a detalhes de cor, gola, manga ou botões. Vinda de uma família com tradição em confecção, Cíntia percebeu que poderia unir esse conhecimento à demanda que escutava.
Determinada a tirar o projeto do papel, decidiu buscar uma forma de aplicar o braille diretamente no tecido, mesmo sem saber ao certo como fazer isso no início. A partir daí, começou uma fase intensa de pesquisa.
Empreendedora cria roupas com braile e fatura R$ 90 mil reais em um ano
Foto: Instagram/ Reprodução
Do teste ao primeiro protótipo funcional
Cíntia passou a testar diferentes tipos de tecido e tinta, ajustando textura e relevo para que a leitura tátil fosse possível. A cada tentativa, recorria a amigos com deficiência visual, que avaliavam o resultado na prática. A experiência mostrou que ler no tecido é muito mais complexo do que no papel, exigindo padronização rigorosa e acabamento preciso.
Depois de vários ajustes, um dos protótipos finalmente funcionou. A partir desse ponto, a empreendedora decidiu que dedicaria sua trajetória profissional ao desenvolvimento de roupas acessíveis com braille.
As peças são produzidas por serigrafia, com um volume específico de tinta calculado para garantir legibilidade ao toque. A precisão é fundamental: qualquer alteração na distância entre os pontos pode mudar completamente o significado das palavras. Por isso, cada item passa por conferência manual para checar o relevo antes de seguir para a venda.
Roupas que comunicam cor, tamanho e mensagem
A loja oferece roupas em diferentes cores e tamanhos, com informações escritas em braille diretamente nas peças. Além de dados práticos, como numeração e tonalidade, o produto traz um elemento pensado para estimular conexões: uma frase aplicada nas costas, na altura dos ombros, para ser lida durante o abraço. A intenção é que esse contato desencadeie conversas sobre inclusão e acessibilidade a partir de situações cotidianas.
Para Cíntia, esse gesto simbólico é um ponto de partida para diálogos mais amplos sobre a presença e o reconhecimento das pessoas com deficiência nos espaços públicos, na moda e no consumo.
Impacto direto na rotina de quem perdeu a visão
As frases escritas nas peças são autorais e refletem o repertório pessoal da empreendedora. Essa dimensão afetiva do produto tem impacto concreto na vida de clientes como Renata Mara e Thereza Rosso, que perderam a visão ainda jovens.
Renata relata que, em grandes lojas, é raro encontrar atendimento realmente disposto a ajudar. O contato com roupas em braille foi marcante para ela, unindo acesso à informação, estética e sentido simbólico em uma mesma peça, a ponto de definir o próprio corpo como um espaço de poesia.
Thereza chama atenção para o fato de que a barreira não está apenas na deficiência visual, mas também na forma como a sociedade enxerga — ou não — essas pessoas no dia a dia. Para ela, encontrar uma marca atenta à textura, à organização das informações e ao reconhecimento do consumidor é decisivo, pois reforça a ideia de pertencimento e visibilidade.
Negócio familiar com propósito social
A produção das roupas é terceirizada, mas a modelagem das peças fica a cargo da mãe de Cíntia, Maria Cristina, que acompanha de perto a evolução do negócio. Esse envolvimento familiar reforça a ligação afetiva com o projeto e com o público atendido.
O empreendimento passou recentemente de MEI para o regime Simples e registra faturamento anual de R$ 97 mil, buscando agora estabilidade para crescer de forma sustentável. A empreendedora destaca que empreender exige esforço contínuo, especialmente em um negócio que alia inovação, adaptação e impacto social.
Público diverso e adaptação para diferentes deficiências
Segundo Cíntia, o público da marca é formado tanto por pessoas com deficiência visual quanto por consumidores que enxergam e se interessam por moda inclusiva. A proporção aproximada é de 70% de clientes sem deficiência visual e 30% de pessoas com deficiência visual.
A empresa também adapta peças para outros tipos de deficiência, ampliando o alcance da proposta e reforçando o caráter inclusivo da marca.
Expansão digital e presença em outros estados
As vendas ocorrem na loja física, em feiras e, principalmente, no ambiente online, que concentra a maior parte dos pedidos. Com isso, a empreendedora planeja fortalecer a presença da marca no Rio de Janeiro e em São Paulo, estados que concentram um público significativo com deficiência visual e contam com forte cena de moda e design.
Mais do que a expansão geográfica e o aumento do faturamento, Cíntia valoriza o retorno social do negócio. Seu objetivo declarado é inserir, de forma permanente, a pauta da acessibilidade e da inclusão na vida cotidiana, usando a roupa como meio de comunicação.
Planos: formação em braille e equipe inclusiva
Entre os próximos passos desejados está transformar a loja em um espaço de educação em braille, oferecendo vivências e conhecimento ao público em geral. A empreendedora também pretende formar uma equipe com pessoas com deficiência visual, fortalecendo o compromisso com a inclusão em toda a cadeia do negócio.
Para ela, acompanhar de perto as mudanças geradas pelos produtos na vida dos clientes compensa cada dificuldade do caminho e reforça a decisão de seguir investindo em um modelo de negócio que combina moda, autonomia e impacto social.