Canetas emagrecedoras devem pressionar inflação médica; planos empresariais podem subir até 11% em 2026

Pesquisa da WTW aponta que remédios modernos para obesidade e diabetes elevam os custos e que seguradoras já projetam aumento nas despesas com medicamentos à base de GLP-1 nos próximos anos.

05/05/2026 às 11:27 por Redação Plox

A “febre” das canetas emagrecedoras e a maior demanda por terapias avançadas, com medicamentos de alto custo, devem pressionar a inflação médica e podem levar a reajustes mais altos nos planos de saúde empresariais. A expectativa, segundo especialistas consultados pelo g1, é que os custos médicos subam entre 8% e 11% em 2026.


Caneta emagrecedora

Caneta emagrecedora

Foto: Reprodução/TV Globo


Medicamentos modernos entram no centro da pressão por custos

Uma pesquisa da consultoria Willis Towers Watson (WTW) aponta que os gastos com medicamentos estão entre os principais fatores que puxam os custos de saúde nas Américas — com destaque para remédios mais modernos voltados à obesidade e ao diabetes.

Embora os planos de saúde no Brasil ainda não contemplem medicamentos para emagrecimento, como as canetas injetáveis, o rol de procedimentos ampliou a cobertura ambulatorial para alguns tratamentos oncológicos, além de medicamentos voltados a doenças raras e autoimunes

Walderez Fogarolli, diretora de saúde e benefícios da Willis Towers Watson (WTW)

Ao mesmo tempo, entidades de saúde no Brasil e no mundo seguem discutindo como tratar a obesidade no longo prazo. No fim do ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou as primeiras diretrizes sobre o uso de canetas emagrecedoras no combate à doença, classificando esses medicamentos como uma ferramenta potencialmente essencial para ajudar milhões de pessoas a superar a obesidade e reduzir os danos associados.

No Brasil, projetos de lei apresentados no Congresso no ano passado passaram a tratar do uso de medicamentos contra a obesidade no Sistema Único de Saúde (SUS).

Nesse cenário, a avaliação do setor é que, embora os planos ainda não sejam obrigados a cobrir as canetas emagrecedoras, a obesidade vem sendo cada vez mais reconhecida como doença crônica — o que pode influenciar decisões judiciais contra as operadoras, dependendo do caso.

Segundo a pesquisa da WTW, 67% das seguradoras acreditam que medicamentos à base de GLP-1 vão elevar os custos médicos nos próximos três anos. Na prática, esse movimento também pode pressionar novos reajustes dos planos de saúde.

Esses medicamentos imitam a ação do hormônio GLP-1, produzido pelo próprio corpo. Ele ajuda a controlar o apetite, aumenta a sensação de saciedade e regula a liberação de insulina.

Regulação, judicialização e tecnologia também pesam na inflação médica

Especialistas apontam que, apesar do peso dos medicamentos, outros fatores influenciam os custos da saúde, como regulação e judicialização no Brasil, tecnologias mais caras (muitas ligadas ao dólar), comportamento dos usuários, além de desperdícios e fraudes.

No contexto da saúde, judicialização é quando pacientes recorrem à Justiça para obrigar planos a cobrir tratamentos, exames ou medicamentos que não foram autorizados.

O superintendente técnico e atuarial da Mercer Marsh Benefícios, Thomás Ishizuka, afirma que a frequência de uso do plano e o custo médio dos atendimentos — chamado de “severidade” no jargão do setor — entram diretamente na conta dos reajustes.

Para 2026, a Mercer Marsh estima inflação médica entre 8% e 9%, enquanto os reajustes dos planos empresariais devem variar de 8% a 10%. Já a WTW projeta alta de 11% neste ano, mas não detalhou os reajustes dos planos.

Desaceleração após o pico do pós-pandemia

Apesar da alta projetada para 2026, a avaliação é que a inflação médica deve desacelerar em relação ao ano passado, refletindo um esforço maior das operadoras para combater fraudes e controlar custos após o aumento das despesas no pós-pandemia.

Dados do Relatório de Tendências Globais de Custos Médicos da Aon indicam alta de 9,7% nos custos médicos corporativos no Brasil — queda de 3,2 pontos percentuais em relação aos 12,9% projetados para 2025.

Segundo o diretor executivo da Mercer Marsh Benefícios, Marcelo Borges, os esforços se concentraram em duas frentes: mudanças na coparticipação e maior controle sobre reembolsos e rede credenciada.

De um lado, o aumento da coparticipação ajudou a reduzir o uso indevido dos planos, como idas frequentes ao pronto-socorro sem urgência, excesso de exames e repetição de consultas sem necessidade. Do outro, regras mais rígidas para reembolsos foram adotadas após a identificação de casos de fraude, em que beneficiários tentavam obter ressarcimentos indevidos.

Por fim, Borges afirma que, nos últimos anos, houve renegociação das operadoras com hospitais e clínicas da rede credenciada. Na prática, isso envolveu revisão de contratos e adoção de medidas para segurar custos, como pacotes fechados de procedimentos e regras mais claras para diárias hospitalares.

O diretor de Health & Talent da Aon no Brasil, Fabio Martinez, ressalta que, mesmo com a desaceleração, o setor ainda enfrenta o desafio de incentivar o uso mais eficiente dos planos de saúde.

Para ele, a gestão de custos precisa equilibrar o acesso a tratamentos mais eficazes — e mais caros — com a inclusão frequente de novas tecnologias e medicamentos no rol da ANS.

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