'Matei minha irmã com um disparo acidental', conta Sean Smith

05/07/2019 12:00

Atirei nela; não foi minha intenção", diz a voz infantil e angustiada na gravação do 911, o serviço de emergência dos Estados Unidos

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Em 1989, no dia 5 de junho, em um subúrbio de Fort Lauderdadel, na Flórida (EUA), a vida de Sean Smith e de sua família mudariam para sempre.

"Atirei nela; não foi minha intenção", diz a voz infantil e angustiada na gravação do 911, o serviço de emergência dos Estados Unidos.

"Minha irmã está sufocada", acrescenta a criança.

Operador: "ela está sufocada?"

"Está morta”.

"Está morta?"

"Sim, por favor, chame minha mãe e meu pai. Oh, meu Deus!"

Sean e sua irmã tinham 10 e 8 anos na época. Eles chegaram da escola alguns minutos antes da mãe. Sean foi procurar seus videogames e, por algum motivo, as gavetas do quarto de seus pais pareciam mais interessantes. Ele encontrou o que pensou ser uma arma de brinquedo e decidiu brincar com ela.

(Foto: BBC NEWS BRASIL)

(Foto: BBC NEWS BRASIL)
 

Em entrevista à BBC, Sean relembra: "mesmo tendo acontecido 30 anos atrás, lembro como se fosse ontem".

Na noite do dia anterior houve um assalto no bairro, lembra Lee Smith, mãe de Sean. "A área ficou cheia de policiais, os cães latiam agitados".

Com receio, o pai de Sean tirou a arma da gaveta e carregou-a. "Foi a arma do meu sogro ou da minha sogra, de alguns dos dois. Eles a deram ao meu marido para livrar-se dela", informa Lee.

Cerca de 3h da manhã o pai foi dormir e deixou a arma carregada na gaveta. No dia seguinte, Sean a encontrou. Ele pegou a arma com a mão esquerda - ele é canhoto - e apontou para a janela. De acordo ele, sua irmã não queria entrar em apuros e correu. Mas, no momento em que Sean fez um disparo acidental, a bala atravessou o coração de Erin. 

Sean conta que: "a última imagem que tenho é da minha irmã morrendo no meu colo", e acrescenta: "é uma imagem que definitivamente nunca vou apagar da minha cabeça."

Quando sua mãe chegou em casa, viu que a polícia estava por toda parte. "Aconteceu tão rápido, os acidentes acontecem rapidamente", diz.

De acordo com Lee, no começo as pessoas os apoiavam, mas depois: "éramos o centro das atenções, sem dúvida, mas não era como se elas se importassem conosco; queriam tomar partido".

Sean conta que havia pessoas que perguntavam se ele havia feito de propósito."Essa foi a parte mais difícil, as pessoas emitiram suas opiniões sobre coisas que não sabiam", diz.

Roubo e drogas
"Me lembro de querer voltar para a escola só para me sentir normal de novo", explica. Mas, posteriormente, ele descobriu que estavam mais interessados em saber o que ele havia feito.

Na adolescência as coisas pioraram, Sean confessa que muitos anos passaram sem ele falar com seu pai, ou porque todos se culpavam pelo que aconteceu ou culpavam um ao outro. 

"Estava carregando toda essa culpa, me tornei autodestrutivo, perdendo todas as oportunidades que conseguia", então Sean conta que as drogas entraram em sua vida.

(Foto: BBC NEWS BRASIL)

30 anos depois, Sean Smith lembra da morte da irmã como "se fosse ontem". (Foto: BBC NEWS BRASIL)

Entretanto, as coisas mudaram quando ele descobriu que seria pai. "Tinha que ser responsável, não só por mim ... mas porque eu tinha responsabilidade sobre outra pessoa", relata.

Sean deu entrada em uma clínica para dependentes químicos e iniciou um processo de recuperação. "Tive o prazer de ver o sol nascer várias vezes e isso definitivamente me conectou com ela (minha irmã)", conta.

"Aconteceu em um milésimo de segundo e muda a sua vida para sempre", finaliza.

Atualizada às 13h35.



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