Uso de “bombinhas de resgate” como tratamento único é associado a pior função pulmonar em pacientes com asma

Levantamento com cerca de 400 atendidos em Unidades Básicas de Saúde aponta uso de medicações não recomendadas na Atenção Primária e cita risco maior de crises graves, mortalidade e danos pulmonares potencialmente irreversíveis.

06/05/2026 às 16:36 por Redação Plox

Um levantamento com cerca de 400 pacientes atendidos em Unidades Básicas de Saúde (UBS) identificou que 60% dos adultos com asma apresentaram função pulmonar reduzida associada ao uso de tratamentos considerados defasados, como as bombinhas de resgate. Entre crianças, o índice observado foi de 33%


60% dos adultos com asma apresentaram função pulmonar reduzida associada ao uso de tratamentos considerados defasados, como as bombinhas de resgate.

Foto: Reprodução/Agência Brasil


Os dados são de uma pesquisa do Projeto CuidAR, conduzida pelo Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre (RS), em parceria com o Ministério da Saúde. O estudo aponta que a maioria dos pacientes acompanhados na Atenção Primária à Saúde (APS) recebe medicações não recomendadas, o que pode expor essas pessoas a danos pulmonares significativos.

Uso de “bombinhas de resgate” como tratamento único preocupa

Os broncodilatadores de curta ação (SABA), conhecidos como “bombinhas de resgate”, foram usados como único medicamento para tratar asma por mais da metade dos pacientes consultados. De acordo com diretrizes mundiais da Iniciativa Global para Asma (GINA), o problema é a falta de eficácia a longo prazo: os SABA podem mascarar a inflamação, elevando o risco de exacerbações graves e de mortalidade.

Espirometria indica que parte do dano pode não reverter

Segundo o estudo do Projeto CuidAR, adultos com função pulmonar reduzida não tiveram o quadro revertido com a aplicação de broncodilatadores durante a espirometria, exame usado para avaliar a capacidade pulmonar. O responsável técnico do estudo, pneumologista pediátrico Paulo Pitrez, confirma o cenário:

Nosso estudo mostra que tanto crianças quanto adultos começaram o teste de função pulmonar com o pulmão funcionando abaixo do esperado antes de usar a bombinha. Após o remédio, um terço das crianças e a maioria dos adultos não conseguiram normalizar a função pulmonar, o que sugere que, em muitos casos, o dano ao pulmão já pode ser irreversível devido à falta de tratamento adequado ao longo dos anos,

Paulo Pitrez

Atualmente, o tratamento recomendado para pessoas com asma prevê o uso de um broncodilatador de longa ação (LABA) combinado com anti-inflamatórios de inalação. Ainda assim, de acordo com Pitrez, muitas UBSs mantêm abordagens voltadas ao alívio imediato dos sintomas.

Impactos na rotina: faltas e crises frequentes

A pesquisa também quantifica efeitos do tratamento inadequado na vida de quem convive com asma. No Brasil, a população com a doença soma aproximadamente 20 milhões de pessoas, segundo a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

Ao longo dos últimos 12 meses, em média, 60% dos pacientes analisados relataram ter perdido dias de estudo ou trabalho devido à asma. O absenteísmo superou 80% entre crianças e adolescentes e ficou em 50% entre adultos, com impactos no aprendizado e na produtividade.

Em relação ao estado de saúde, quase 70% dos participantes disseram ter tido três ou mais crises recentes. Quase metade precisou buscar pronto-socorro e, entre esses, 10% foram hospitalizados. O texto também cita um estudo publicado no Jornal Brasileiro de Pneumologia segundo o qual a mortalidade pela doença tem crescido, com uma média de seis mortes diárias no país.

Projeto avalia exame alternativo no SUS e formação continuada

O levantamento propõe medidas para reduzir internações e discute a implementação de um novo tipo de exame em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS). A pesquisa avalia o uso de um dispositivo que mede o pico de fluxo expiratório, chamado Peak Flow, apresentado como alternativa à espirometria tradicional.

Segundo os pesquisadores, o equipamento é de fácil manuseio e custa cerca de R$ 200 — valor inferior ao do exame tradicional completo, que pode chegar a R$ 15 mil. O Projeto CuidAR também busca reverter o quadro de atendimento inadequado nas UBSs por meio de educação continuada para profissionais de saúde.

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