Desemprego atinge mínima histórica, mas desalento pode elevar taxa a 7,5% no Brasil
Estudo do Daycoval com dados da Pnad Contínua mostra que problemas de saúde, tarefas familiares e estudos afastam brasileiros do mercado e ajudam a explicar baixo impacto do emprego na inflação e no PIB
06/12/2025 às 08:34por Redação Plox
06/12/2025 às 08:34
— por Redação Plox
Compartilhe a notícia:
A taxa de desemprego no Brasil atingiu em outubro de 2025 o menor patamar da série histórica, chegando a 5,4%, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O dado, porém, convive com um problema crônico do mercado de trabalho: o desalento, situação em que pessoas em idade ativa, entre 15 e 64 anos, desistem de procurar emprego, com ou sem carteira assinada.
Foto ilustrativa: Pixabay
Um estudo do banco Daycoval, a partir de entrevistas da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) realizadas pelo IBGE entre 2019 e 2025, identificou os três principais motivos alegados por brasileiros para não buscar uma ocupação. As justificativas mais frequentes são problemas de saúde e incapacidade, responsabilidades com familiares e estudos. A presença desse grupo fora da busca por trabalho ajuda a explicar por que a taxa oficial de desemprego está mais baixa do que poderia.
Impacto do desalento sobre desemprego, inflação e PIB
De acordo com o Daycoval, se as pessoas que hoje não procuram emprego por razões de saúde, incapacidade, cuidado com familiares ou dedicação aos estudos passassem a buscar uma vaga formal ou informal, a taxa de desemprego brasileira subiria para um nível próximo de 7,5%.
O economista Antonio Ricciardi, do Daycoval, explicou em entrevista ao PlatôBR que o objetivo do levantamento foi entender por que o desemprego baixo não pressiona ainda mais a inflação, nem impulsiona de forma mais intensa a atividade econômica. Ele lembrou que, na mínima histórica anterior da taxa de desocupação, de 6,2% em 2013, a inflação de serviços se aproximava de 9%, acima dos cerca de 6% registrados atualmente.
As variações recentes da taxa de desocupação também sugerem, segundo o estudo, que o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) poderia ficar próximo de 4% em 2025 se esse contingente de brasileiros estivesse empregado, percentual bem acima da mediana de 2,2% estimada pelo mercado e divulgada no Boletim Focus, do Banco Central. O desalento, portanto, ajuda a conter tanto a pressão inflacionária quanto o potencial de expansão da economia.
Nosso estudo aponta que o mercado de trabalho tem um fator específico que responde essa pergunta. A taxa de desemprego diminuiu e parte desse efeito decorre do fato de que muitas pessoas não estão trabalhando pelos três motivos apresentadosAntonio Ricciardi
Desalento e programas de transferência de renda
O levantamento também mostra que a força das três principais justificativas para o desalento ganha intensidade a partir do último trimestre de 2022, o que indica, na avaliação de Ricciardi, uma mudança estrutural recente na oferta de trabalho no país.
Esse período coincide com o aumento na concessão de benefícios sociais de transferência de renda, em especial o BPC (Benefício de Prestação Continuada) e o Bolsa Família. Para o economista, há uma correlação entre o avanço do desalento e a expansão desses programas assistenciais, mas ainda não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito.
Ricciardi ressalta que, para identificar se os benefícios são responsáveis por afastar parte da população do mercado de trabalho, seria necessário realizar um novo estudo específico sobre essa possível causalidade.