Política

MG tem segundo pior índice de biometria do país e ainda soma 4,3 milhões de eleitores sem cadastro

Com apenas 72,83% do eleitorado biometrizado e revisões obrigatórias proibidas pelo TSE, TRE-MG aposta em plano integrado, caravana e postos itinerantes para ampliar segurança e confiança nas eleições de 4 de outubro

07/01/2026 às 09:36 por Redação Plox

Quase três em cada dez eleitores mineiros ainda não têm a biometria cadastrada na Justiça Eleitoral. Isso significa que uma parcela expressiva do eleitorado seguirá dependendo de documentos oficiais com foto para votar nas eleições deste ano, marcadas para 4 de outubro, quando serão escolhidos presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais.

Embora a tecnologia de identificação por impressão digital esteja em uso no país há 18 anos, Minas Gerais ocupa hoje a segunda pior posição entre os estados no índice de eleitores com biometria ativa, à frente apenas do Espírito Santo. Atualmente, 72,83% do eleitorado mineiro têm a biometria registrada, o equivalente a 11.719.122 pessoas de um total de 16.091.970. Na prática, mais de 4,3 milhões de eleitores – 27,17% do total – estão aptos a votar, mas ainda não fizeram o cadastro digital.

Foto: Agência Brasil


Os dados da Justiça Eleitoral, referentes a dezembro de 2025, mostram que Minas só supera o Espírito Santo, onde 67,57% do eleitorado têm biometria cadastrada. Nos demais estados, a cobertura mínima é de 80%, e a maior parte das unidades da Federação já ultrapassou 90% dos eleitores com digitais coletadas. Em todo o país, 87,66% dos votantes contam com biometria registrada.

Extensão territorial e estrutura desafiam avanço da biometria

Segundo o Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG), fatores geográficos e estruturais ajudam a explicar o atraso no cadastramento. O estado tem 853 municípios, dos quais 254 são sedes de zona eleitoral e outros 599 não contam com cartórios eleitorais. Em número de eleitores, Minas é o segundo maior colégio do país, atrás apenas de São Paulo.

De acordo com o tribunal, o cadastramento biométrico começou em Minas em 2009, com implementação gradual e grupos de municípios incorporados ano a ano. Até o início de 2020, o procedimento era feito por meio de revisão do eleitorado: o comparecimento dentro de um prazo definido era obrigatório, sob pena de cancelamento do título.

A estratégia previa deixar Belo Horizonte, maior cidade do estado, para a etapa final, permitindo um fluxo mais distribuído de atendimento. A programação, porém, foi interrompida em março de 2020, com a suspensão do cadastramento biométrico em razão da pandemia de Covid-19. O serviço só seria retomado em junho de 2023, em todo o país. Nesse intervalo, todos os alistamentos, transferências e revisões de títulos ocorreram sem coleta de biometria.

Obrigatoriedade suspensa e voto garantido com documento

Após a fase mais aguda da pandemia, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mudou o entendimento sobre o tema e proibiu a retomada das revisões biométricas. A decisão impede os tribunais regionais de tornar o procedimento obrigatório. Assim, para votar neste ano, o eleitor não será obrigado a ter biometria cadastrada: basta que o título esteja regular e que seja apresentado um documento oficial com foto no dia da votação, como RG, CNH ou passaporte.

A biometria é um sistema de identificação que utiliza impressões digitais, assinatura e fotografia para confirmar a identidade do eleitor no momento em que ele registra o voto. O principal objetivo é dificultar fraudes, evitar que uma pessoa vote no lugar de outra e reduzir falhas na conferência de identidade.

Segundo o TSE, a biometria funciona como um elemento adicional de segurança e contribui para aumentar a confiança no processo eleitoral ao diminuir a interferência humana na identificação dos eleitores nas seções.

Plano integrado tenta acelerar novos cadastros

O baixo índice de cadastramento em Minas levou o TRE-MG a intensificar ações para ampliar a cobertura. A principal aposta foi em serviços itinerantes, voltados sobretudo a regiões sem cartórios eleitorais. Desde a retomada do atendimento biométrico, em junho de 2023, o tribunal passou a levar equipes para bairros de Belo Horizonte, distritos e municípios que não dispõem de estrutura própria da Justiça Eleitoral.

Essas iniciativas ganharam reforço a partir de julho de 2025, com a criação do Plano Integrado da Biometria. Entre as medidas, foram organizados atendimentos itinerantes em diferentes pontos da capital e do interior e lançada a Caravana da Biometria, um ônibus que percorreu dez cidades mineiras sem cartório eleitoral e realizou mais de 28 mil atendimentos em menos de cinco meses.

O esforço rendeu resultados: ao longo de 2025, cerca de 730 mil novas biometrias foram registradas no estado, sendo aproximadamente 500 mil apenas no segundo semestre, após a implementação do plano. Outra frente de atuação foi a ampliação do horário de atendimento. Até junho de 2025, as unidades eleitorais funcionavam, em geral, das 12h às 17h. Em Belo Horizonte, o expediente passou a ser das 9h às 17h, e diversas zonas eleitorais do interior também estenderam o horário.

Especialista vê redução de fraudes com uso da biometria

Para o advogado Paulo Henrique Studart, especialista em direito público, o avanço da biometria é um elemento relevante de proteção do sistema de votação. Sem o recurso, a identificação do eleitor fica restrita à checagem do documento e à comparação da foto pelo mesário, o que abre margem a falhas na conferência da identidade de quem comparece à urna.

Quando você não tem o sistema de biometria, você fica sujeito à aferição da identidade da pessoa com base na apresentação do documento de identificação e com a aferição da foto pelo mesário. O sistema biométrico diminui esse risco humano na constatação de que a pessoa que está votando realmente é aquela mesmaPaulo Henrique Studart

Na avaliação do especialista, a expansão do cadastramento ajuda a blindar o processo eleitoral contra tentativas de fraude e reforça a segurança das urnas, mesmo em um cenário em que o voto continua garantido a quem ainda não registrou a biometria.

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