Impasse sobre piso por entrega adia relatório da regulamentação do trabalho por aplicativo

Divergências entre Planalto, plataformas e trabalhadores travam consenso e tema deve voltar à pauta após o Carnaval, com discussão na Câmara.

07/02/2026 às 08:01 por Redação Plox

O impasse sobre a regulamentação do trabalho por aplicativo tem escancarado divergências entre governo federal, plataformas digitais e representantes dos trabalhadores. Diante das resistências, o Planalto decidiu adiar a apresentação do relatório do grupo de trabalho criado para tratar do tema, coordenado pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos.

Protesto de motoristas de aplicativo em Porto Alegre se concentrou no estacionamento do estádio Beira Rio

Protesto de motoristas de aplicativo em Porto Alegre se concentrou no estacionamento do estádio Beira Rio

Foto: Simtrapli RS


O texto em elaboração será encaminhado à comissão especial da Câmara dos Deputados e deve reforçar pontos já previstos no relatório do deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE), relator do Projeto de Lei Complementar 152/2025. A proposta pretende criar um marco legal para motoristas e entregadores de aplicativos, garantindo direitos previdenciários e regras mínimas de remuneração, sem estabelecer vínculo empregatício pela CLT.

Disputa em torno do piso por entrega

Um dos temas mais sensíveis é a fixação de um valor mínimo por entrega. O relatório apresentado por Coutinho na Câmara propõe inicialmente um ticket mínimo de R$ 8,50. Já o grupo liderado por Boulos defende um valor maior, em torno de R$ 10, alinhado a reivindicações de parte dos entregadores. As empresas, por sua vez, alegam inviabilidade econômica e prometem reagir no Congresso e na Justiça, caso o texto avance sem mudanças.

Para quem vive o cotidiano nas ruas, a discussão é concreta. Motofrentista em Belo Horizonte há 15 anos, Amanda Lemos afirma que a principal demanda da categoria é a criação de uma tabela justa e previsível, com reajuste anual, valor mínimo por quilômetro rodado e um piso por entrega.

Ela relata que hoje há aplicativos oferecendo corridas por valores tão baixos que não cobrem nem os custos básicos da atividade. Segundo Amanda, o cálculo feito pelas plataformas considera apenas o combustível, deixando de fora despesas como manutenção da moto, impostos, contribuição como MEI e o próprio sustento do trabalhador. Na avaliação dela, a regulamentação não pode recair sobre quem já ganha pouco e o custo adicional deveria ser repassado ao consumidor final.

Empresas resistem e Congresso busca equilíbrio

Relator do projeto, Augusto Coutinho reconhece que o valor mínimo por entrega é o ponto mais delicado da proposta. Ele explica que a adoção de um ticket único de R$ 10, como defendido pelo grupo do Executivo, não foi aceita em razão das diferenças regionais do país. Segundo o parlamentar, o Brasil reúne realidades econômicas muito distintas, e um valor viável em grandes capitais pode inviabilizar o serviço em cidades menores.

Coutinho admite a resistência das empresas ao piso obrigatório. As plataformas argumentam que a medida alteraria o modelo de negócios e poderia até ser inconstitucional. O deputado, contudo, sustenta que o debate é inevitável para garantir um patamar mínimo de proteção aos trabalhadores e diz buscar um equilíbrio entre interesses econômicos e direitos básicos.

Autonomia, vínculo e novo modelo de relação de trabalho

Outro eixo central do projeto é a definição de uma nova forma de relação de trabalho. O relatório não prevê vínculo empregatício regido pela CLT. De acordo com Coutinho, a maior parte dos trabalhadores deseja manter a autonomia, e experiências internacionais indicam que a tentativa de enquadrar o modelo de aplicativos nas regras tradicionais pode gerar efeitos negativos, como ocorreu na Espanha, onde mudanças na legislação provocaram protestos e revisão das normas.

Mesmo sem vínculo celetista, empresas afirmam que o texto ainda deixaria brechas para interpretações jurídicas que poderiam levar ao reconhecimento de relação de emprego. O relator afirma estar disposto a ajustar a redação com o apoio de consultores jurídicos, para deixar claro que não se trata de vínculo tradicional.

Ele também admite que o projeto ainda não está pronto para ser votado. Segundo Coutinho, há concordância da maior parte dos trabalhadores com o relatório, embora a categoria pressione por avanços em alguns pontos. A expectativa no Congresso é de que o tema só volte à pauta depois do Carnaval, com a retomada da articulação política.

Previdência e proteção mínima aos trabalhadores

A inclusão de motoristas e entregadores no sistema previdenciário é apresentada pelo relator como uma proteção básica. Ele rebate o argumento das empresas de que o custo inviabilizaria o setor e sustenta que não é aceitável negar previdência a quem trabalha em aplicativos sob a justificativa de aumento de despesas, em um país em que o trabalhador formal contribui obrigatoriamente.

Para o deputado, o desafio é evitar distorções, mas assegurar um “agasalho social” mínimo a essa parcela da força de trabalho. Na visão dele, a regulamentação tende, inclusive, a ampliar a autonomia dos profissionais. Hoje, motoristas e entregadores podem ser punidos ou excluídos das plataformas sem explicações claras, o que, segundo Coutinho, revela uma relação desequilibrada: o trabalhador é tratado como autônomo, mas sofre sanções automáticas ao recusar chamadas.

Câmara promete ouvir todos os lados

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), também se manifestou sobre o tema nas redes sociais no início de fevereiro. Após se reunir com o relator, o presidente da comissão especial e representantes das plataformas, ele afirmou que a Casa seguirá ouvindo todos os lados, com o objetivo de construir uma legislação considerada equilibrada, baseada em critérios técnicos e que atenda trabalhadores, empresas e consumidores.

Judicialização e necessidade de regras claras

Do ponto de vista jurídico, a advogada e professora de Direito do Trabalho Thais Miranda avalia que a falta de regulamentação clara contribui para a judicialização do tema. Sem uma lei objetiva, conflitos entre trabalhadores e empresas acabam sendo levados ao Judiciário, em vez de serem solucionados por normas previamente definidas pelo Legislativo.

Thais destaca que a proposta em discussão não cria automaticamente uma nova categoria de empregado nos moldes tradicionais da CLT, mas também não se enquadra na figura clássica do trabalhador autônomo. Para ela, o caminho aponta para um modelo intermediário, que reconheça a atividade dos trabalhadores de plataforma e estabeleça direitos mínimos compatíveis com essa realidade.

A especialista considera improvável que as plataformas deixem o Brasil caso a regulamentação avance. Em sua avaliação, o país representa um mercado grande demais para ser abandonado, e o impacto financeiro das mudanças sugeridas seria pequeno diante do volume de lucro obtido pelas empresas no território nacional.

Governo endurece o tom com plataformas

Em nota, o ministro Guilherme Boulos afirmou que o governo não vai recuar na defesa de condições dignas para entregadores e motoristas de aplicativo. Ele acusa as plataformas de resistirem por ganância, ao não quererem abrir mão de taxas de intermediação que considera excessivas, e de recorrerem ao que chamou de “terrorismo econômico” para pressionar consumidores e o Congresso. Boulos declarou ainda que o governo tem lado e que esse lado é o dos trabalhadores.

Mais de 1,7 milhão de trabalhadores à espera de definição

Enquanto o relatório do grupo de trabalho do Executivo não é apresentado, o Projeto de Lei Complementar 152/2025 segue em discussão na Câmara. A proposta busca encerrar um limbo jurídico que, segundo o IBGE, afeta mais de 1,7 milhão de trabalhadores no país.

O desfecho das negociações vai indicar até que ponto será possível conciliar proteção social, autonomia e viabilidade econômica em um dos setores que mais cresceram na última década.

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