Indígenas ocupam Esplanada e marcham ao Congresso contra Marco Temporal e por demarcações
Ato do Acampamento Terra Livre 2026 reuniu milhares em Brasília e criticou propostas no Legislativo consideradas contrárias aos direitos constitucionais dos povos originários
07/04/2026 às 15:01por Redação Plox
07/04/2026 às 15:01
— por Redação Plox
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Milhares de indígenas de todo o Brasil ocuparam, nesta terça-feira (7), a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, em uma marcha em defesa de seus direitos. O ato integra a 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL 2026), iniciado no domingo (5) e apontado como a maior mobilização do movimento indígena no país.
Por volta das 9h30, representantes de diferentes etnias — entre elas tikuna, kokama, makuxí, tupinambá, pataxó, krahô, apinajé, guajajara, krikati e gavião — deixaram o palco principal do evento, no Eixo Cultural Ibero-Americano, e seguiram rumo ao Congresso Nacional.
Indígenas ocuparam Esplanada dos Minstérios, nesta terça-feira, em Brasília.
Foto: Reprodução
Congresso concentra críticas do movimento
Sob sol forte, o grupo percorreu cerca de 6 quilômetros até o Congresso, apontado como principal alvo das críticas do ATL. Os manifestantes acusam a maioria de deputados federais e senadores de propor e aprovar leis que consideram contrárias aos direitos constitucionais dos povos originários, com risco a seus territórios e modos de vida.
O movimento também critica parlamentares e os governos federal e estaduais por, segundo a mobilização, cederem à pressão do agronegócio, da mineração e de grandes empreendimentos, permitindo a exploração econômica de territórios tradicionais por não indígenas.
Pintados e com adereços característicos de suas etnias, os participantes carregavam faixas com mensagens como Congresso Inimigo Dos Povos, Nosso Território Não Está À Venda, O Futuro É Indígena, Marco Temporal É Golpe, Demarcação É Futuro e Marco Temporal Não.
Para cumprir um acordo com os órgãos de segurança do Distrito Federal, os indígenas deixaram no acampamento itens como arcos, flechas, bordunas, lanças e zarabatanas. Durante a marcha, ocuparam três das seis faixas e parte do gramado do Eixo Monumental.
Nossa marcha é pacífica, rumo a um Congresso que não é pacífico, é inimigo dos povos indígenas
membro da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib)
Viemos pintar Brasília do vermelho do urucum e da resistência do jenipapo, trazendo a força, a resistência e a ressurgência indígena
representante da Apib
Marco Temporal volta ao centro do protesto
Outro alvo recorrente das críticas é o Marco Temporal, tese jurídica segundo a qual os indígenas só teriam direito aos territórios que ocupavam em outubro de 1988, quando a Constituição Federal foi promulgada.
Em 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou o Marco Temporal inconstitucional. Mesmo assim, em 2025, o Senado aprovou uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que impõe o limite temporal às reivindicações indígenas por demarcações.
Como os senadores modificaram o texto que a Câmara dos Deputados havia aprovado em 2023, a PEC foi devolvida aos deputados federais para reanálise — o que, segundo o texto, ainda não ocorreu.
Movimento cobra novas demarcações e mais estrutura
Os manifestantes também reivindicam o reconhecimento de mais terras indígenas pelo governo federal. De acordo com as lideranças do movimento, após um período de quatro anos (2019 a 2022) sem homologações de novas áreas de ocupação tradicional, o governo federal validou, entre janeiro de 2023 e novembro de 2025, 20 novos territórios.
Segundo a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), esses territórios equivalem a cerca de 2,5 milhões de hectares de terras protegidas, distribuídas em 11 unidades federativas.
À Agência Brasil, no domingo (5), o coordenador executivo da Apib, Dinamam Tuxá, afirmou que a mobilização segue pressionando por garantias territoriais e relatou um cenário de violência e vulnerabilidade em terras indígenas.
Segundo ele, há cerca de 110 novas áreas em análise, reivindicadas como terras da União de usufruto indígena.
Convidada a falar no caminhão de som, a ex-presidente da Funai e primeira mulher indígena eleita deputada federal, Joenia Wapichana, destacou a importância de os indígenas ampliarem sua presença na política, como defendem as lideranças do movimento, e disse que é necessário mais orçamento para órgãos de proteção indígena, como a Funai e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde.