Anvisa quer fechar brechas que impulsionaram produção de “canetas emagrecedoras” em farmácias de manipulação
Agência discute regras mais rígidas para importação de tirzepatida e mecanismos para garantir fabricação apenas com prescrição médica, após inspeções e apreensões em 2026
07/04/2026 às 07:25por Redação Plox
07/04/2026 às 07:25
— por Redação Plox
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A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) iniciou um movimento para corrigir brechas que, segundo a própria agência, contribuíram para a explosão da fabricação de canetas emagrecedoras em farmácias de manipulação no Brasil.
Os diretores do órgão anunciaram nesta segunda-feira (6) que devem avaliar cobranças mais rígidas sobre o insumo farmacêutico importado usado na fabricação dessas canetas, além de medidas para assegurar que as doses só sejam produzidas após a apresentação de prescrições médicas.
Canetas emagrecedoras
Foto: Divulgação
Regras mais rígidas miram importação de tirzepatida
As propostas ainda serão levadas à votação nas reuniões da Anvisa e têm como alvo um mercado que importou ao menos 100 kg de tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro) entre novembro de 2025 e abril de 2026. O medicamento é indicado para obesidade e diabetes tipo 2.
De acordo com dados apresentados pela Anvisa, esse volume permitiria fabricar cerca de 20 milhões de canetas de 5 mg. Em nota, a agência afirmou que a importação é “incompatível com o mercado nacional”, mas diretores disseram à imprensa não saber quantas unidades teriam sido fabricadas de forma irregular.
Venda não é ilegal, mas produção tem limite
As canetas manipuladas costumam ser comercializadas em clínicas médicas, com preços inferiores aos medicamentos registrados pela Anvisa. Entre as principais marcas registradas estão as compostas por semaglutida (Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk) e tirzepatida (Mounjaro, da Lilly). As versões industrializadas, porém, passam por controles mais rígidos, e entidades médicas manifestam preocupação com o uso disseminado de canetas feitas em farmácias.
A venda por farmácias de manipulação não é ilegal, mas esses estabelecimentos só podem produzir em pequena escala e para atender prescrições individualizadas. Assim, é proibido formar estoque ou operar como uma espécie de fornecimento no atacado para clínicas médicas.
Operação da PF e fiscalização reforçada
A reação da Anvisa ocorre em meio a investigações da Polícia Federal sobre farmácias que, segundo as apurações, estariam fabricando em larga escala e sem controle de qualidade adequado. Em novembro, a PF deflagrou a Operação Slim, contra um grupo que mantinha estrutura de produção fora dos padrões sanitários.
Após a ação, a Anvisa reforçou a fiscalização. Em 2026, o órgão realizou 11 inspeções relacionadas à manipulação dessas canetas, fechou oito empresas e apreendeu mais de 1,3 milhão de produtos irregulares.
Certificado de boas práticas pode virar exigência
Diretores da Anvisa também reconhecem que farmácias de manipulação operam com regras mais brandas do que a indústria farmacêutica. Um exemplo é a dispensa do CBPF (Certificado de Boas Práticas de Fabricação) para locais que produzem o insumo farmacêutico importado destinado às farmácias.
O certificado, obtido após inspeção da Anvisa ou de outras agências nas fábricas, é exigido das indústrias que produzem medicamentos registrados. Agora, os diretores devem propor que o CBPF passe a ser requisito para a manipulação.
Controle de receita: CPF do paciente e CRM do médico
A Anvisa também busca mecanismos para garantir que as farmácias fabriquem apenas o que está prescrito. Embora essa exigência já conste na legislação do setor, o órgão afirma ter identificado, em inspeções, produção em larga escala sem vínculo com prescrições ou baseada em receitas genéricas destinadas a clínicas.
Entre as medidas em análise está a exigência de apresentação do CPF do paciente e do CRM do médico no processo de manipulação.
Brecha após veto à semaglutida manipulada
Em agosto do ano passado, a Anvisa aprovou uma nota técnica que barrou a produção de canetas manipuladas com semaglutida, sob o argumento de que os insumos usados são biológicos. Ao mesmo tempo, permaneceu a possibilidade de fabricação de versões de tirzepatida em farmácias, já que a base do medicamento é obtida de forma sintética.
Riscos apontados nas inspeções
Segundo o presidente da Anvisa, Leandro Safatle, as ações de fiscalização localizaram empresas sem aval de funcionamento, além de risco de contaminação microbiológica das canetas e problemas na cadeia de armazenamento e transporte.
A questão não é sobre o uso em farmácia de manipulação ou de produto registrado [como os vendidos pela indústria]. A questão é restrição do uso de produtos inadequados que estão sendo formulados com más práticas de manipulação ou fabricação
Leandro Safatle, presidente da Anvisa
O que são as canetas emagrecedoras
As chamadas canetas emagrecedoras são medicamentos agonistas de GLP-1, hormônio produzido naturalmente pelo corpo humano, associado ao controle da glicose no sangue e aos mecanismos de saciedade.
Pressão por mais oferta e disputa no mercado
O avanço desse mercado ocorre sob pressão de consumidores, de parte da indústria e do mundo político para ampliar a oferta e reduzir custos. No ano passado, a disputa ganhou novo rumo com atuação direta do governo Lula (PT): a Anvisa atendeu a um pedido do Ministério da Saúde e antecipou na fila de análise 20 pedidos de remédios emagrecedores com liraglutida ou semaglutida.
A semaglutida perdeu a patente no Brasil no fim de março, mas ainda não há concorrentes dos produtos da Novo Nordisk registrados no país. A EMS, que lançou as primeiras canetas de produção nacional, mas de geração anterior, e outras empresas ainda aguardam aval da Anvisa para comercialização.