Cigarrinha-do-milho gera prejuízo anual de US$ 6,5 bilhões e derruba produtividade no Brasil, aponta Embrapa
Levantamento com dados da Conab desde 1976 indica que a praga e os enfezamentos foram centrais na queda de produtividade em cerca de 80% das localidades analisadas
07/04/2026 às 18:22por Redação Plox
07/04/2026 às 18:22
— por Redação Plox
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A cigarrinha-do-milho, considerada o principal problema sanitário para produtores do grão no país, provoca um prejuízo anual estimado em US$ 6,5 bilhões (R$ 33,6 bilhões), com base no câmbio atual. Nas quatro safras de 2020 a 2024, as perdas acumuladas chegaram a US$ 25,8 bilhões, o equivalente a mais de R$ 134,16 bilhões.
O impacto se traduz em uma perda média de 22,7% na produção entre 2020 e 2024 — cerca de 31,8 milhões de toneladas por ano. No período, aproximadamente 2 bilhões de sacas de 60 quilos deixaram de ser produzidas.
Além da queda na colheita, o controle do inseto elevou os custos de aplicação de inseticidas. Entre 2020 e 2024, esse gasto aumentou 19%, superando US$ 9 (R$ 46) por hectare, segundo o estudo.
Cigarrinha-do-milho é considerada o principal responsavél pelos prejuizos causados aos produtores de milho do país.
Foto: Reprodução
Estudo da Embrapa estima impacto e aponta avanço dos enfezamentos
As estimativas fazem parte de um levantamento divulgado nesta terça-feira (7) pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária.
O estudo foi publicado na edição de abril da revista científica internacional Crop Protection, voltada à proteção de cultivos agrícolas. Para chegar aos números, os pesquisadores utilizaram dados desde 1976 da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), ligada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, e calcularam os danos associados aos enfezamentos do milho — doença causada por bactérias transmitidas pela cigarrinha.
Também participaram do trabalho especialistas da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Segundo a Embrapa, a praga é “o maior desafio sanitário do sistema produtivo de milho no Brasil das últimas décadas”. O levantamento foi conduzido em 34 municípios representativos das principais regiões produtoras.
em cerca de 80% das localidades avaliadas, a cigarrinha ou os enfezamentos foram apontados como fator central para a queda de produtividade
Charles Oliveira
Como a cigarrinha-do-milho provoca a doença
A cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis) adquire os patógenos causadores do enfezamento ao se alimentar de plantas infectadas e, depois, passa a transmiti-los para plantas sadias.
A doença se desenvolve no milho em duas formas, a pálida e a vermelha. Ela altera a coloração da planta, pode provocar o aparecimento de estrias e, principalmente, compromete a produção de grãos.
Charles Oliveira alerta que não há tratamento preventivo contra o enfezamento causado pela praga, o que pode resultar em perda total de lavouras. Ele contextualiza que a doença é conhecida desde a década de 70, mas os surtos epidêmicos passaram a ser frequentes a partir de 2015.
“Mudanças no sistema de produção ocorridas nas últimas décadas, como a expansão da safrinha [segunda safra de milho no mesmo ano agrícola] e o cultivo de milho durante quase todo o ano, criou um cenário favorável para a sobrevivência da cigarrinha e dos microrganismos”, descreve.
Risco para um dos maiores produtores e exportadores do grão
O Brasil é o terceiro maior produtor mundial de milho e está entre os principais exportadores. A Conab estima, para a safra 2025/2026, uma produção de 138,4 milhões de toneladas e um valor de produção de cerca de US$ 30 bilhões (quase R$ 155 bilhões).
O assessor técnico da CNA Tiago Pereira afirma que a praga representa “perdas que impactam diretamente a renda do produtor, a estabilidade produtiva e a competitividade do país”.
A pesquisadora da Epagri Maria Cristina Canale chama atenção para efeitos que vão além das propriedades rurais. “Como o milho é base para a produção de proteína animal (aves, suínos e leite) e biocombustíveis, as quebras de safra elevam os preços para o consumidor e afetam a balança comercial brasileira”, diz.
Para ela, estudos que mensuram os prejuízos ajudam a “orientar a destinação de recursos financeiros, orientar o setor de seguro agrícola, definir janelas de plantio, planejar estratégias para mitigar os danos e avaliar a eficácia das práticas adotadas”.
Recomendações para reduzir o alcance da praga
Com alta capacidade de reprodução e dispersão e sem tratamento preventivo, a Embrapa lista medidas para reduzir o impacto da cigarrinha-do-milho. A instituição também informa que há uma cartilha online voltada à orientação de agricultores.
Eliminação do milho tiguera (plantas voluntárias que surgem na entressafra pela perda de grãos na colheita e no transporte): quebra o ciclo de vida do vetor e do patógeno.
Sincronização do plantio: evita janelas de semeadura longas que favorecem a dispersão da cigarrinha entre lavouras.
Uso de cultivares resistentes ou tolerantes: mantém níveis elevados de produtividade mesmo sob pressão das doenças.
Manejo inicial com aplicação de controle químico e biológico nos estádios iniciais da planta: reduz o risco de que a infecção provoque danos mais severos.
Monitoramento: exige vigilância constante e coordenada entre produtores vizinhos.
O estudo também aponta a tentativa de adoção de controle biológico com fungos entomopatogênicos, inimigos naturais da praga, já que algumas populações de cigarrinha-do-milho apresentam resistência a determinados grupos de inseticidas.