Estudo aponta decisões humanas como fator que ampliou tragédia climática no RS em 2024
Diagnóstico do WRI Brasil analisou as enchentes que atingiram 478 municípios e mais de 2,4 milhões de pessoas, com 185 mortes e 23 desaparecidos até hoje, e defende reforço da governança e da prevenção.
07/05/2026 às 15:03por Redação Plox
07/05/2026 às 15:03
— por Redação Plox
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Um estudo divulgado nesta quinta-feira (7) detalhou as causas que levaram à maior tragédia climática enfrentada pelo Rio Grande do Sul, em 2024. Ao todo, 478 municípios foram atingidos por enchentes e enxurradas, que alcançaram mais de 2,4 milhões de habitantes. O desastre resultou na morte de 185 pessoas e deixou outras 23 desaparecidas até hoje.
Um estudo divulgado nesta quinta-feira (7) detalhou as causas que resultaram na maior tragédia climática enfrentada pelo estado do Rio Grande do Sul, em 2024.
Foto: Divulgação/ Alexandre Pessoa
Dois anos após o episódio, pesquisadores mapearam os chamados eventos gatilho, identificaram condições inseguras, causas raiz e pressões dinâmicas em um diagnóstico sobre a cadeia de produção de risco. O documento também aponta caminhos para reduzir a exposição e a vulnerabilidade nas cidades brasileiras.
Diagnóstico busca explicar a “cadeia de produção de risco”
Intitulado Entendendo a Construção do Risco: causas raiz do desastre climático de 2024 no Rio Grande do Sul, o estudo foi desenvolvido pelo World Resources Institute Brasil (WRI), com a participação de pesquisadores de universidades gaúchas.
Buscamos entender as fragilidades que culminaram nesse desastre e propor uma discussão sobre as decisões e políticas que vão prevenir desastres futuros e promover um desenvolvimento resiliente Henrique Evers
Evento extremo foi gatilho, mas processo histórico ampliou impactos
Segundo a coordenadora de Adaptação Urbana do WRI Brasil, Lara Caccia, o trabalho dimensionou um desastre que teve como gatilho o extremo climático, mas que foi resultado de um processo histórico de construção do risco, influenciado por fatores sociais, econômicos e de governança.
Documento também aponta caminhos para reduzir a exposição e a vulnerabilidade nas cidades brasileiras.
Foto: Defesa Civil- RS
De acordo com a coordenadora, esses fatores ampliaram os impactos das chuvas intensas. O estudo classificou 11 causas raiz, distribuídas em quatro categorias, relacionadas a 20 pressões dinâmicas que, combinadas, geraram condições inseguras e ampliaram risco e vulnerabilidade.
Quatro categorias reúnem 11 causas raiz apontadas pelo estudo
Desenvolvimento urbano e rural: modelo de ocupação territorial pouco resiliente.
Condições físicas e ambientais: variabilidade do clima; condições geomorfológicas e hidrológicas favoráveis ao desastre.
Condições socioeconômicas: negacionismo climático; desigualdade socioeconômica e concentração de riqueza; falta de cultura de prevenção.
Governança: modelo de desenvolvimento que prioriza a economia sobre pautas ambientais e sociais; arcabouço legal negligenciado para gestão de riscos; falta de priorização política da agenda socioambiental; insuficiência da governança para lidar com a questão climática entre os níveis de gestão; dualidade entre público e privado.
Decisões humanas e institucionais aparecem como fator central
Na prática, o estudo aponta que uma causa raiz, como o modelo de ocupação territorial pouco resiliente, pode gerar pressões dinâmicas como expansão urbana descontrolada, especulação imobiliária e desigualdades socioespaciais.
O relatório destaca que fatores desse tipo, comuns em outros cenários de desastres climáticos, evidenciam o papel das decisões humanas e institucionais na geração e disseminação do risco ao longo do tempo.
Integração multirregional e governança são apontadas como prioridades
Para os pesquisadores, o fato de muitos riscos estarem presentes em todos os municípios afetados reforça a necessidade de articulação e integração multirregional, além das capacidades municipais, com atuação de instâncias que possam ser associadas, por exemplo, às bacias hidrográficas.
A partir do mapeamento, o estudo conclui que tornar as cidades mais resilientes exige ir além de investimentos em infraestrutura. Entre os pontos indicados estão o fortalecimento da governança em diferentes níveis de governo, a articulação e integração do planejamento, a consolidação de uma cultura de prevenção e a priorização de grupos vulnerabilizados.
Para Lara Caccia, se o risco foi construído historicamente, a resiliência também pode ser construída por meio de novas escolhas de desenvolvimento.