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O avanço do El Niño em 2026 acendeu alerta para a produção de alimentos no Brasil e pode pressionar os preços nos supermercados nos próximos meses. Economistas ouvidos pelo g1 avaliam que o fenômeno tende a afetar primeiro produtos mais sensíveis ao clima, como hortaliças, e pode atingir também culturas de maior peso na safra, entre elas café, milho, frutas, laranja, cana-de-açúcar, trigo e arroz.
Café é o principal produto de exportação de Varginha.
Foto: Divulgação.
O El Niño ocorre quando há aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, alterando o regime de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo. O cenário mais recente reforça a preocupação: a NOAA, agência climática dos Estados Unidos, informou que as condições do fenômeno já estão presentes e há chance relevante de um evento muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. No Brasil, boletim do Inmet aponta possibilidade de chuvas acima da média no Sul e abaixo da média no centro-norte do país, além de temperaturas mais elevadas no segundo semestre.
No café, a irregularidade das chuvas preocupa produtores porque pode provocar floradas fora de época, queda de flores e formação de grãos menores. O calor excessivo também aumenta o estresse das plantas e pode prejudicar a qualidade, especialmente no café arábica, mais sensível às variações climáticas. No conilon, chuvas em áreas produtoras já vêm sendo observadas com atenção por causa do risco de atraso na colheita, perda de qualidade e maior incidência de pragas e fungos.
O milho também é considerado vulnerável, principalmente na segunda safra brasileira. Em um cenário de chuva irregular no Centro-Oeste, o plantio da soja pode atrasar e reduzir a janela ideal para o milho safrinha. No Sul, a preocupação é o excesso de chuva, que pode comprometer produtividade e favorecer doenças nas lavouras. Se a oferta cair, o reflexo pode chegar a outros produtos, já que o milho é usado na ração de aves, suínos e bovinos em confinamento.
A pecuária pode ser pressionada de duas formas: pela alta no custo da ração e pela menor disponibilidade de pastagens em regiões afetadas por seca e calor. Esse quadro dificulta o ganho de peso dos animais destinados ao abate e pode afetar a produção de leite, dependendo da intensidade das chuvas e da condição dos pastos.
Entre frutas e hortaliças, itens como cebola, batata, tomate e cenoura tendem a reagir mais rapidamente a extremos de chuva ou calor. No Sul, o excesso de umidade pode afetar maçã, uva e outras culturas, enquanto regiões irrigadas do Nordeste podem ter desempenho melhor em algumas lavouras, como melão e melancia, desde que haja disponibilidade de água. A laranja também aparece no radar, porque calor acima da média pode prejudicar a florada e reduzir a qualidade dos frutos.
A pressão climática já entrou nas contas de inflação. Pesquisa citada pela Reuters, feita com economistas antes da decisão recente do Banco Central, apontou expectativa de impacto do El Niño sobre os preços em 2026 e 2027, com alimentos entre os itens mais sensíveis. Em maio, o Ministério da Fazenda havia revisado a projeção do IPCA de 2026 para 4,5%, e o comportamento das safras será decisivo para novas estimativas.
Apesar do risco, especialistas ressaltam que o impacto final ainda depende da intensidade do fenômeno, da distribuição das chuvas e da capacidade de adaptação dos produtores. Órgãos de monitoramento climático no Brasil informam que as previsões serão atualizadas mensalmente, com atenção especial para agricultura, reservatórios, rios e riscos de eventos extremos.