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Marcada por séculos de preconceito e desinformação, a epilepsia ainda provoca isolamento social e sofrimento psicológico em milhões de pessoas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 50 milhões de indivíduos no mundo vivem com a doença, sendo cerca de 3 milhões no Brasil. A conscientização e o acesso a informações confiáveis são decisivos para combater o estigma, favorecer o diagnóstico precoce e garantir tratamento adequado.
A epilepsia é uma doença neurológica caracterizada por descargas elétricas anormais e excessivas no cérebro, que se repetem ao longo do tempo e provocam as chamadas crises epilépticas. Essas crises podem surgir de diferentes formas: alterações de consciência, movimentos involuntários, mudanças sensitivas ou sensoriais, manifestações autonômicas, como suor excessivo e queda de pressão, e até sintomas psíquicos, percebidos pelo próprio paciente ou por quem está ao redor.
A epilepsia é uma doença neurológica caracterizada por descargas elétricas anormais e excessivas no cérebro
Foto: Freepik/imagem ilustrativa
Apesar dos avanços na medicina, muitos equívocos persistem. De acordo com a Liga Brasileira de Epilepsia (LBE), ainda são comuns ideias incorretas, como acreditar que a epilepsia seja contagiosa ou que toda convulsão esteja ligada à doença. Outro mito frequente é considerar a epilepsia uma doença mental, o que reforça o estigma e afasta pacientes de ambientes sociais, escolares e de trabalho.
Também não é verdade que pessoas com epilepsia sejam incapazes de dirigir em qualquer circunstância ou que apresentem, necessariamente, dificuldades mentais. Entre as práticas equivocadas durante uma crise estão tentar segurar os braços da pessoa, forçar a boca ou a língua, impedir que ela supostamente “engula a língua”, oferecer doses extras de remédio por conta própria ou acreditar que a saliva possa transmitir a doença.
A LBE também ressalta que convulsão e ataque epiléptico não são sinônimos em todos os casos, que nem toda convulsão é epilepsia e que a ideia de que a doença só teria tratamento, mas nunca cura, é uma generalização que não se aplica a todos os pacientes.
Entre as informações corretas reforçadas por especialistas está o fato de que a pessoa pode, sim, manter a consciência durante uma crise de epilepsia. O estresse é reconhecido como um fator desencadeador importante, e há medicamentos capazes de controlar completamente a ocorrência de crises em muitos casos.
A epilepsia pode acometer pessoas de todas as idades, mas isso não impede que o paciente tenha uma vida normal, estudando, trabalhando e mantendo relações sociais. As crises, quando bem acompanhadas, podem ser controladas com o uso adequado de fármacos e com seguimento médico regular.
O Dia Internacional da Epilepsia é celebrado na segunda segunda-feira de fevereiro e, neste ano, será lembrado no dia 9. A data busca ampliar a conscientização, combater preconceitos e estimular o acesso a informação de qualidade. De acordo com a OMS, cerca de 2% da população brasileira convive com a doença, o que reforça a necessidade de campanhas permanentes de esclarecimento.
Segundo o Ministério da Saúde, a epilepsia é uma alteração temporária e reversível do funcionamento do cérebro, que não está relacionada a febre, uso de drogas ou distúrbios metabólicos. Por alguns segundos ou minutos, uma parte do cérebro emite sinais incorretos, que podem ficar localizados ou se espalhar para áreas maiores.
Quando as descargas ficam restritas, a crise é chamada de parcial; quando envolvem os dois hemisférios cerebrais, é classificada como generalizada. A intensidade aparente dos sintomas nem sempre corresponde à gravidade: crises menos evidentes não significam, obrigatoriamente, um quadro menos sério.
Na maior parte dos casos, o diagnóstico é clínico, feito a partir de exame físico detalhado, com ênfase nas avaliações neurológica e psiquiátrica, além de um histórico minucioso do paciente. O relato de testemunhas é considerado peça-chave para descrever com precisão o que ocorre durante a crise. Também são investigados a presença de aura, fatores que precipitam as crises, idade de início, frequência e intervalos entre os episódios, muitas vezes com o auxílio de um diário.
Entram ainda nessa avaliação o histórico de eventos pré e perinatais, crises no período neonatal, crises febris, episódios não provocados e casos de epilepsia na família. Traumas cranianos, infecções e intoxicações anteriores também são analisados. Paralelamente, é essencial afastar outras condições que podem provocar alterações súbitas de consciência, como síncopes, crises psicogênicas não epilépticas, isquemia cerebral aguda e enxaqueca.
No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento integral e gratuito para pessoas com epilepsia, englobando desde o diagnóstico até o acompanhamento contínuo e o fornecimento de medicamentos. O cuidado costuma começar na atenção primária, nas Unidades Básicas de Saúde, com encaminhamento para serviços especializados de média e alta complexidade quando necessário.
O tratamento baseia-se principalmente em medicamentos que controlam as descargas elétricas cerebrais anormais. Em situações de crises frequentes e de difícil controle, pode ser indicada intervenção cirúrgica. Atualmente, o país conta com estabelecimentos habilitados em alta complexidade em Neurologia e Neurocirurgia, voltados à investigação e à cirurgia de epilepsia, oferecendo consultas, exames, tratamento clínico, procedimentos cirúrgicos, acompanhamento e suporte em UTI.
De acordo com o Ministério da Saúde, saber como agir durante uma crise é determinante para proteger a pessoa e evitar complicações. As principais orientações são manter a calma, tentar impedir que a pessoa caia de forma brusca, colocá-la deitada em local seguro, proteger a cabeça e afastar objetos que possam causar ferimentos. Também é importante mantê-la com a cabeça voltada para o lado, para reduzir o risco de sufocamento com saliva.
Por outro lado, não se deve segurar os movimentos, introduzir objetos na boca, oferecer líquidos, jogar água ou tentar acordar a pessoa à força. A recomendação é permanecer ao lado até que ela recupere a consciência. Caso a crise ultrapasse cinco minutos sem sinais de melhora, é indicado acionar o serviço de emergência.
A informação correta continua sendo uma das principais ferramentas para reduzir o estigma, promover inclusão e garantir mais qualidade de vida a quem convive com a epilepsia.