Canetas emagrecedoras entram no radar contra câncer, mas efeito ainda precisa de confirmação

Pesquisas observacionais sugerem associação em alguns tumores, mas especialistas destacam que ainda não há respaldo para uso oncológico e que são necessários ensaios clínicos randomizados.

08/07/2026 às 08:29 por Redação Plox

Pesquisas apresentadas na ASCO 2026, principal congresso de oncologia do mundo, colocaram os medicamentos conhecidos como “canetas emagrecedoras” no centro de uma nova frente de investigação contra o câncer. Os estudos indicam que agonistas de GLP-1, usados no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, podem estar associados a menor progressão de metástases em alguns tumores, mas os resultados ainda não autorizam o uso dessas drogas como tratamento oncológico.


Canetas emagrecedoras entram no radar contra câncer, mas efeito ainda precisa de confirmação

Foto: Pexels

O que o estudo mostrou

Uma das análises acompanhou dados de 12.112 pacientes com câncer em estágios I a III e comparou pessoas que usaram agonistas de GLP-1 após o diagnóstico com pacientes tratados com outra classe de medicamentos para diabetes, os inibidores de DPP-4. A associação mais consistente apareceu em quatro tipos de câncer: pulmão de não pequenas células, mama, colorretal e fígado.

No levantamento, a exposição aos agonistas de GLP-1 foi ligada a menor progressão para estágio IV em seis dos sete tumores avaliados, mas com resultado estatisticamente significativo apenas nos quatro tipos citados. Para câncer de próstata, pâncreas e rim, houve tendência de benefício, sem força estatística suficiente para conclusão.

Por que ainda não é tratamento contra câncer

Especialistas ouvidos durante o congresso reforçaram que os dados são observacionais. Isso significa que os pesquisadores identificaram uma associação em bases de dados reais, mas não conseguiram provar que os medicamentos foram a causa direta da melhora. A própria ASCO destacou a necessidade de ensaios clínicos randomizados para confirmar se há efeito anticâncer direto ou se os resultados refletem outros fatores, como melhor controle da obesidade, acesso a cuidados médicos e perfil geral dos pacientes.

O oncologista clínico Paulo Henrique Costa, professor da Faculdade de Medicina da UFMG e médico da Rede Mater Dei, avaliou que os resultados são promissores, mas ainda preliminares. Segundo ele, controlar fatores de risco, especialmente obesidade, alimentação inadequada e inflamação crônica, continua sendo a principal estratégia de prevenção, sem uso indiscriminado de medicamentos.

Risco do uso sem orientação médica

A cautela também tem relação com o aumento do mercado irregular de canetas emagrecedoras. A Anvisa informou neste ano novas medidas para combater irregularidades na importação e manipulação de medicamentos injetáveis de GLP-1, como semaglutida, tirzepatida e liraglutida, após identificar crescimento de práticas que podem comprometer segurança, qualidade e eficácia dos produtos.

A agência também alertou que esses medicamentos devem ser usados apenas conforme as indicações aprovadas em bula, com prescrição e acompanhamento de profissional habilitado. Entre os riscos citados estão eventos adversos graves, como pancreatite aguda, especialmente quando há uso para emagrecimento rápido ou finalidade estética sem indicação clínica.

Nova frente de pesquisa

Além dos estudos com GLP-1, a ASCO 2026 apresentou avanços em outras áreas, como o daraxonrasib, medicamento em estudo para câncer de pâncreas metastático ligado a mutações em RAS. Pesquisa publicada no New England Journal of Medicine apontou aumento de sobrevida em comparação à quimioterapia em pacientes previamente tratados, mas o tema também segue sob avaliação científica e regulatória.

Por enquanto, a mensagem central dos pesquisadores é de prudência: as canetas emagrecedoras podem abrir uma pista relevante para a oncologia, mas não substituem tratamentos contra câncer nem devem ser usadas fora de indicação médica. A confirmação do benefício dependerá de estudos clínicos controlados, capazes de separar associação estatística de efeito terapêutico real.

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