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Economia
Brasil perde empregadores enquanto trabalho por conta própria bate recorde, aponta IBGE
Pnad Contínua mostra que número de empregadores segue abaixo do pico de 2018, em meio a juros altos, custos elevados e avanço da pejotização, apesar de mercado de trabalho aquecido
09/01/2026 às 17:52por Redação Plox
09/01/2026 às 17:52
— por Redação Plox
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O número de empregadores no Brasil ainda não voltou ao patamar anterior à pandemia de Covid-19 e segue distante do pico da série histórica, segundo dados da Pnad Contínua, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Enquanto isso, o total de trabalhadores por conta própria e de empregados dos setores privado e público vem renovando recordes.
De acordo com o IBGE, o país tinha quase 4,2 milhões de empregadores no trimestre encerrado em novembro de 2024, período mais recente com estatísticas disponíveis. O número representa queda de 5,5% – ou 241 mil empregadores a menos – em relação ao pico da série, de 4,4 milhões, registrado no trimestre até dezembro de 2018. A pandemia começou a impor restrições de mobilidade a partir de 2020, e a OMS (Organização Mundial da Saúde) só deixou de classificar a Covid-19 como emergência em maio de 2023.
Número de empregadores no país cai em sete anos
Foto: Freepik
Na Pnad Contínua, iniciada em 2012, são considerados empregadores os profissionais que exploram um negócio próprio com pelo menos um funcionário registrado.
Pandemia, concentração econômica e avanço do trabalho por conta própria
Para especialistas, a crise sanitária ajudou a redesenhar o mapa do empreendedorismo com empregados no país. Pequenas empresas foram mais vulneráveis às restrições e à queda de demanda, em um movimento que abriu espaço para a concentração em grupos maiores, com mais capital e capacidade de adaptação tecnológica.
Outro fator apontado é o avanço de modalidades como o trabalho por conta própria sem funcionários e a pejotização, em que o profissional abre uma empresa para prestar serviços a outra, sem vínculo pela CLT. Esse tipo de estrutura, frequentemente unipessoal, ganhou espaço, sobretudo em serviços, impulsionada pelo uso intensivo de tecnologia.
A trajetória da empreendedora Miriam Catib, 44, ilustra parte desse movimento. Antes da pandemia, ela mantinha um bufê e um espaço de eventos com quatro empregados na capital paulista. Com a crise, encerrou o negócio em 2022, migrou para a condição de MEI (microempreendedora individual) e passou a trabalhar sozinha, fornecendo refeições para eventos, mas sem um ponto fixo.
Desafios macroeconômicos e busca por estabilidade
A saída da pandemia ocorreu em um ambiente macroeconômico considerado desafiador, marcado por juros elevados e custos altos para manter empresas com empregados. Esse contexto ajuda a explicar por que o contingente de empregadores se mantém abaixo do pico, mesmo com a recuperação do nível de atividade.
Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho formal e o trabalho por conta própria ganharam fôlego. Dados da Pnad mostram que, no trimestre até novembro, os empregados do setor privado (quase 53 milhões), do serviço público (13,1 milhões) e os trabalhadores por conta própria (26 milhões) atingiram recordes na série.
Uma das interpretações é que quem perde a condição de empregador pode buscar caminhos considerados menos arriscados ou mais simples do ponto de vista burocrático, como abrir um MEI, atuar sozinho ou migrar para vagas em empresas privadas e no serviço público, ainda que, em muitos casos, com renda menor e maior peso da busca por segurança.
Perfil dos empregadores: mais idade e escolaridade
Estudos com base em dados da Pnad indicam que os empregadores tendem a ser mais velhos e mais escolarizados do que os trabalhadores por conta própria. Em análise referente ao segundo trimestre de 2025, a média de idade dos empregadores foi de 46 anos, contra 44 anos no grupo dos autônomos sem empregados.
A mesma pesquisa mostrou diferença também no nível de instrução: empregadores tinham, em média, 12,6 anos de estudo, enquanto os trabalhadores por conta própria registravam 10,5 anos. Com idade mais avançada e qualificação maior, parte desses ex-empregadores tende a buscar alternativas em outras ocupações após o choque provocado pela pandemia, seja em negócios menores, seja em postos assalariados.
Pequenos negócios pressionados: o caso da granja de ovos
A empresária Irma do Nascimento Madureira, 73, montou em 2023, com o filho, uma granja de ovos em Santo Antônio do Descoberto (GO), região próxima ao Distrito Federal. A empresa chegou a ter dois funcionários e cerca de 2.000 galinhas, mas as atividades foram interrompidas no ano passado depois de uma queda na produção.
Segundo ela, a escassez de mão de obra e as dificuldades para acessar grandes mercados pesaram na decisão de encerrar o negócio. Irma calcula que seriam necessárias mais de 3.000 aves para tornar a operação competitiva e alcançar o nível de faturamento desejado, o que exigiria investimento maior e estrutura mais robusta de comercialização.
Para analistas, casos como o da granja mostram como os custos de instalação, manutenção e contratação de funcionários, somados a juros elevados, limitam a abertura e a sobrevivência de empresas empregadoras, em especial micro e pequenos negócios. Há expectativa de que a reforma tributária possa, no futuro, simplificar o ambiente de negócios e beneficiar empreendedores, mas o efeito não deve ser imediato, já que o período de transição se estende até 2033.
Domésticos e trabalhadores familiares também encolhem
Além dos empregadores, os trabalhadores domésticos seguem abaixo do pico da série histórica. No trimestre encerrado em novembro, esse grupo somava quase 5,6 milhões de ocupados, cerca de 9,3% a menos do que o recorde de 6,1 milhões, registrado até dezembro de 2017.
A pandemia levou muitas famílias a assumirem tarefas do lar, reduzindo a contratação de domésticos. O avanço da escolaridade também contribui: com mais anos de estudo, cresce a busca por ocupações em outros setores, enquanto funções braçais se tornam menos atrativas para gerações mais jovens.
O mesmo movimento ajuda a explicar a redução expressiva dos chamados trabalhadores familiares auxiliares, que ajudam parentes em atividades produtivas sem remuneração. Até novembro, o Brasil tinha menos de 1,2 milhão de pessoas nessa condição, o menor nível já registrado pela Pnad. O pico foi de 2,9 milhões em junho de 2012.
Esse grupo é associado, em grande parte, a pequenas propriedades da agricultura familiar. Nos últimos anos, o país vem assistindo à expansão de grandes produtores, o que, combinado com mudanças demográficas e educacionais, reduz a disponibilidade de mão de obra familiar não remunerada no campo.
Mercado de trabalho aquecido favorece mobilidade
As transformações estruturais e tecnológicas do mercado de trabalho também favoreceram a expansão da categoria dos ocupados por conta própria, ao lado do aumento das oportunidades formais. Com mais vagas disponíveis, cresce a mobilidade entre empresas e setores, inclusive para quem antes comandava pequenos negócios com funcionários.
Até novembro, a taxa de desemprego medida pela Pnad recuou a 5,2%, a mínima recente. Em um ambiente de mercado de trabalho relativamente aquecido, trabalhadores tendem a circular com mais rapidez entre postos, o que pode desestimular parte do empreendedorismo com empregados, especialmente em atividades de margem apertada.
A expectativa é que esse quadro de dinamismo na ocupação se mantenha, ao menos, no primeiro semestre de 2026, impulsionado também pelo calendário pré-eleitoral, que tradicionalmente gera contratações temporárias em diferentes áreas.