Estudo da Unicamp aponta que efeito sanfona reduz atividade da gordura marrom

Pesquisa acompanhou 121 mulheres por quatro anos e associou ciclos de perda e ganho de peso a piora de indicadores metabólicos e maior gordura visceral

09/02/2026 às 06:44 por Redação Plox

Um estudo da Unicamp identificou que o chamado efeito sanfona — os episódios repetidos de perda e ganho de peso — diminui a atividade da gordura marrom e provoca prejuízos ao metabolismo. Os resultados foram publicados em dezembro na revista científica americana Nutrition Research.


Não existe, até hoje, uma dieta universal ideal para a perda de peso — que seja eficaz para todo mundo

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Foto: Freepik

A gordura marrom, ou tecido adiposo marrom, é responsável por queimar glicose e lipídios para produzir calor, contribuindo para o gasto energético do organismo. Esse tecido também ajuda a melhorar o metabolismo e a proteger contra diabetes e doenças cardiovasculares.

Os pesquisadores do Laboratório de Investigação em Metabolismo e Diabetes da Faculdade de Medicina, em Campinas (SP), acompanharam por quatro anos 121 mulheres, com idades entre 20 e 41 anos e diferentes biotipos.

As participantes foram avaliadas em uma câmara de termografia infravermelha, que permite verificar a atividade da gordura marrom pela variação de temperatura em regiões específicas do corpo. Também foram medidos indicadores de saúde, como a quantidade de gordura visceral, para compor a análise.

Efeito sanfona reduz atividade da gordura marrom

As mulheres que relataram episódios de perda de peso intencional, seguidos de recuperação não planejada, apresentaram mais gordura corporal, maior acúmulo de gordura visceral, piores indicadores metabólicos e menor atividade da gordura marrom.

De acordo com o orientador da pesquisa, médico endocrinologista Bruno Geloneze, o grupo conseguiu demonstrar que o tecido adiposo marrom não funciona adequadamente em mulheres que passaram por ciclos repetidos de emagrecimento e reganho de peso.

Essa menor atividade reduz a capacidade do corpo de gastar energia e de proteger o metabolismo, favorecendo alterações metabólicas desfavoráveis.

O que é o efeito sanfona

O efeito sanfona descrito pelos pesquisadores é o processo repetitivo de perda rápida de peso — acima de quatro quilos — seguida de recuperação involuntária. Esse movimento costuma estar associado a dietas restritivas, uso de medicações para emagrecer e cirurgias bariátricas.

Segundo Bruno Geloneze, a disfunção da gordura marrom ajuda a explicar por que muitas pessoas têm tendência a recuperar o peso após emagrecer e, ao mesmo tempo, passam a ter maior risco de desenvolver diabetes e outras doenças metabólicas e cardiovasculares.

Sempre houve a discussão de 'por que volta a ganhar peso e por que que volta pior'. Porque na volta o corpo fica com maior quantidade de gordura corporal, é falta de força de vontade, envelhecimento... Tudo isso é verdade. Mas, tem uma outra peça nesse quebra-cabeça. Os cicladores tem essa tendência a piorar o seu estado metabólico e recuperar o peso, porque durante esse efeito ioiô, ele vai piorar a função do tecido adiposo marrom Bruno Geloneze

Gordura marrom: função e onde está no corpo

O tecido adiposo marrom é um tipo de gordura diferente da gordura branca, que é o principal estoque de energia do corpo. Ao contrário da branca, a gordura marrom contribui para a proteção contra diabetes e doenças cardiovasculares.

Ela é responsável por queimar glicose e lipídios para produzir calor, aumentando o gasto energético e elevando a temperatura do corpo, especialmente do sangue e dos vasos sanguíneos.

Até 2009, a comunidade científica acreditava que a gordura marrom existia apenas em recém-nascidos. Estudos mais recentes, porém, mostraram que adultos também possuem esse tecido, principalmente na região supraclavicular, que inclui o pescoço, a área acima da clavícula e o entorno da coluna.

Segundo o pesquisador, adultos têm apenas entre 50 e 300 gramas de gordura marrom distribuídas pelo corpo — uma quantidade pequena, mas metabolicamente relevante.

Como foi feita a avaliação com termografia

Não há exames clínicos de rotina capazes de medir diretamente a quantidade de gordura marrom no organismo. Por isso, os cientistas avaliaram a atividade desse tecido por meio de uma câmara de termografia infravermelha.

O equipamento detecta a radiação térmica emitida pelo corpo e a converte em imagens que revelam variações de temperatura. A partir desse recurso, os pesquisadores observaram o aumento de calor gerado pela gordura marrom em resposta a estímulos.

As mulheres foram inicialmente expostas a um ambiente aquecido e, em seguida, a um ambiente com temperatura de 18°C, considerada o principal estímulo para ativar a gordura marrom.

No grupo de mulheres que não apresentavam ciclos de perda e ganho de peso, houve variação significativa de temperatura nas áreas ricas em tecido marrom, indicando maior produção de calor e ativação do tecido. Já entre as participantes que passaram por mais episódios de efeito sanfona, a variação foi menor, sugerindo ativação reduzida do tecido adiposo marrom.

Mais gordura branca, menos proteção metabólica

Segundo o pesquisador, é comum que pessoas com dificuldade para manter o peso entrem em uma sequência de dietas restritivas e reganhos de peso. Esse padrão costuma ser atribuído a descuido, fadiga com dietas ou ao envelhecimento, mas o estudo indica que há um componente biológico adicional.

Quando alguém passa por episódios de efeito sanfona, o peso recuperado tende a voltar principalmente na forma de gordura branca e de gordura visceral, que se acumula na região abdominal e está ligada a maior risco de doenças metabólicas.

Esse excesso de gordura branca e visceral prejudica a gordura marrom e contribui para um desequilíbrio metabólico, piorando indicadores de saúde mesmo quando a pessoa retorna ao peso original.

Atividade física e alimentação na ativação da gordura marrom

Não existe uma solução imediata ou única para interromper o efeito sanfona. No entanto, o professor destaca que a adoção de uma rotina regular de exercícios físicos pode contribuir para reativar o tecido adiposo marrom e minimizar parte dos impactos metabólicos.

O exercício físico não apenas produz calor, como ele produz algumas substâncias chamadas mioquinas. Uma delas chama irisina. Elas podem ativar o próprio tecido adiposo marrom Bruno Geloneze

Uma alimentação balanceada, com inclusão de alimentos ricos em fibras vegetais não digeríveis, também pode favorecer a ativação da gordura marrom. Essas fibras são parcialmente fermentadas pelas bactérias intestinais, que produzem ácidos graxos de cadeia curta — substâncias que circulam pelo corpo e ajudam a ativar o tecido adiposo marrom.

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