Evento com tema ‘Deu a louca no Morro’ organizado por alunos de colégio tradicional provoca críticas e discussão sobre racismo recreativo

Evento organizado por comissões de estudantes foi criticado nas redes por figurinos associados a estereótipos sobre pessoas negras e moradores de periferias; escola diz não ter vínculo com a festa

09/03/2026 às 08:55 por Redação Plox

Vídeos de uma festa organizada por duas comissões de formatura de estudantes de uma das escolas mais tradicionais do Recife geraram polêmica ao serem apontados como exemplo de “racismo recreativo” nas redes sociais.

O evento, batizado de “Deu a louca no morro”, reuniu alunos do Colégio Damas usando “looks” que, segundo ativistas, reproduzem estereótipos de pessoas negras e moradoras de periferias. A escola afirmou que não teve conhecimento prévio da festa e que a organização foi feita de forma privada por estudantes, sem vínculo institucional.


Festa “Deu a Louca no Morro”, organizada por estudantes de colégio católico no Recife, gera críticas nas redes sociais.

Festa “Deu a Louca no Morro”, organizada por estudantes de colégio católico no Recife, gera críticas nas redes sociais.

Foto: Reprodução/Instagram


Vídeos nas redes mostram tema e figurinos da festa

Nas imagens que circulam no Instagram, adolescentes aparecem sugerindo roupas para a comemoração. Usando camisas de times de futebol, colares dourados e óculos do tipo “juliet”, eles exibem combinações para o evento.

A repercussão começou após uma publicação da jornalista e professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Fabiana Moraes, que questionou o tema da festa e a postura de educadores diante do episódio.

Especialistas apontam racismo e estereótipos

O tema também foi criticado pela deputada Dani Portela (PSOL), que classificou o caso como exemplo de racismo recreativo, modalidade em que práticas racistas são tratadas como piada, meme ou brincadeira, reforçando estigmas sobre pessoas negras, periféricas e faveladas.

Nas redes sociais, a festa “Deu a Louca no Morro”, organizada por estudantes de um colégio católico no Recife, passou a ser compartilhada junto com críticas ao uso de elementos associados à população das favelas como fantasia.

A assistente social e ativista do movimento negro Raline Almeida destacou o papel da escola na formação crítica dos estudantes e na discussão sobre estereótipos que sustentam a discriminação e as desigualdades. Para ela, episódios como esse não podem ser reduzidos a “brincadeira” e envolvem um debate mais amplo sobre exclusão social e marginalização da população negra.

Raline afirmou que a população negra foi historicamente colocada em espaços de exclusão e marginalidade e defendeu que refletir sobre casos como esse significa ir além do que costuma ser desqualificado como “mimimi”, expressão que, segundo ela, tenta inferiorizar e deslegitimar críticas ao racismo.

Ela também ressaltou que situações como essa são passíveis de debate público e expõem visões distintas dentro da sociedade: de um lado, quem considera “normal” ou “engraçado” reforçar estereótipos sobre pessoas negras, pobres e periféricas; de outro, quem problematiza esses conteúdos e aponta seus impactos.

Posicionamento do Colégio Damas

Procurado, o Colégio Damas informou que a festa foi organizada de forma privada por estudantes, fora do ambiente escolar e sem qualquer vínculo institucional ou participação da escola em sua concepção, organização ou divulgação.

Em nota, a instituição afirmou que não teve conhecimento prévio da realização do evento. Ressaltou ainda ser uma escola confessional católica que orienta suas atividades pelos valores do respeito e da dignidade humana, repudiando qualquer forma de discriminação, preconceito ou discurso de ódio.

O colégio afirmou reconhecer a importância e a sensibilidade do debate público sobre preconceito e racismo e reiterou o compromisso com a formação ética, humana e cidadã dos estudantes. A instituição declarou que permanece aberta ao diálogo construtivo e que continuará trabalhando para promover um ambiente educacional pautado pelo respeito, pela empatia e pelos valores cristãos que orientam sua missão.

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