Vídeos de Luiz Bacci em defesa do Banco Master integram ofensiva digital contra Banco Central

Ex-apresentador publicou ao menos quatro vídeos nas redes sociais defendendo o Banco Master e atacando o Banco Central, em alinhamento com campanha digital articulada por influenciadores para descredibilizar a liquidação extrajudicial da instituição financeira

10/01/2026 às 10:43 por Redação Plox

O ex-apresentador Luiz Bacci divulgou ao menos quatro vídeos, no último mês, em que critica o Banco Central (BC), sai em defesa do Banco Master e questiona a decisão que levou à liquidação da instituição controlada por Daniel Vorcaro. Procurado pela reportagem, ele não respondeu.

Vídeos de Luiz Bacci contra o Banco Central se somam a campanha de descredibilização

Vídeos de Luiz Bacci contra o Banco Central se somam a campanha de descredibilização

Foto: Divulgação


As manifestações de Bacci se somam a uma campanha de descredibilização do Banco Central protagonizada por diferentes comunicadores. Nos últimos dias, um vereador e uma influenciadora relataram ter recebido propostas de agências de comunicação para produzir conteúdo crítico à autarquia federal.

Vídeos levantam suspeitas sobre liquidação do Banco Master

Em 18 de dezembro, Bacci repercutiu a informação de que o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jhonatan de Jesus, relator do caso Master na Corte, pediu explicações ao BC sobre o que considerou indícios de precipitação na liquidação do banco.

Esse foi o primeiro de quatro vídeos publicados em sua conta no Instagram, nos quais ele lança dúvidas sobre a lisura do processo e insinua a existência de um complô para prejudicar o banco de Vorcaro. Bacci tem 24,1 milhões de seguidores na rede social.

No vídeo, o ex-apresentador contesta a narrativa de fraude bilionária atribuída ao Master, argumenta que não há reclamações públicas de clientes e questiona quem teria interesse em liquidar a instituição de forma repentina. Ele também sugere, sem apresentar provas, que haveria uma “manobra política de algum grupo financeiro, político, para desestabilizar o Banco Master”.

Em 29 de dezembro, Bacci divulgou novo vídeo em que afirma que a liquidação do banco foi feita “na surdina, na calada da noite”. A versão contraria a cronologia oficial do caso: a análise do BC sobre a situação do Master se estendeu por mais de cinco meses, e a decisão pela liquidação foi comunicada logo após ser decretada.

Nessa gravação, ele volta a classificar a atuação do Banco Central como um “escândalo sem precedentes” e insiste na tese de que haveria “mutreta” na liquidação da instituição. O ex-apresentador questiona ainda o silêncio do BC diante do prazo dado pelo TCU para esclarecimentos.

Ataques à credibilidade do Banco Central

Na mesma publicação, Bacci associa as suspeitas que levanta ao ambiente político do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e passa a colocar em dúvida, também sem provas, a definição da taxa Selic, a taxa básica de juros da economia.

Ele afirma que o Banco Central é uma instituição de credibilidade e que se espera da autarquia um papel regulador idôneo, mas destaca que o presidente da instituição foi indicado por Lula. A partir daí, levanta a hipótese de que a população passe a desconfiar se a “taxa de juros altíssima” estaria sendo definida de forma transparente.

Em 1º de janeiro, um terceiro vídeo repercute os argumentos de defesa apresentados por Daniel Vorcaro em depoimento à Polícia Federal. Bacci diz ter ouvido de uma fonte que Vorcaro negou irregularidades, rechaçou a existência de fraude e alegou que os fatos divulgados até o momento estariam distorcidos e fora de contexto. Segundo o ex-apresentador, essa fonte também assegura que “todas as operações do Master foram conduzidas de acordo com as regras”.

Na sequência, ele destaca reportagem segundo a qual a Polícia Federal prendeu Vorcaro 42 minutos depois de o banqueiro comunicar a venda do Master para um fundo que, supostamente, injetaria R$ 3 bilhões e resolveria o problema de liquidez do banco. Bacci sugere que o curto intervalo de tempo entre a proposta de venda e a prisão levanta dúvidas sobre a atuação das autoridades.

Integrantes do governo ouvidos pelo Estadão/Broadcast, porém, afirmam que a rapidez da ação se deveu à suspeita de que a oferta seria uma espécie de “bomba de fumaça” para permitir a fuga de Vorcaro do País. Ele foi detido no aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para viajar para Dubai. A defesa do banqueiro sustenta que se tratava de uma viagem de negócios.

De acordo com documentos já enviados ao TCU, toda a linha do tempo do processo que levou à liquidação extrajudicial do Banco Master, em 18 de novembro, está detalhada nos autos, incluindo as etapas de análise do BC que antecederam a decisão.

“Caixa-preta” e narrativa de perseguição

Em 5 de janeiro, Bacci publicou o quarto vídeo da série, no qual questiona o que chama de “histeria toda contra a abertura da caixa-preta do Banco Central”. Para ele, a instituição compromete sua própria credibilidade ao evitar a fiscalização e contribui para criar um ambiente de desconfiança em torno de sua atuação.

O TCU não está fazendo uma devassa. Ele está fazendo a única coisa que resta de digno neste País, acendendo a luz. É justamente por isso que as baratas estão correndo pelos corredores. É a maior confissão de culpa, que não querem que você veja. Luiz Bacci

Articulação de comunicadores e agências

A campanha difamatória contra o Banco Central expôs um enredo que envolve acusações, mensagens de defesa, agências de comunicação e influenciadores digitais.

O caso veio à tona após um vídeo do vereador Rony Gabriel (PL-RS), de Erechim, em que ele relata ter recebido uma proposta batizada de “projeto DV” – referência às iniciais de Daniel Vorcaro – para publicar conteúdos em defesa do Banco Master.

De acordo com monitoramento da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), instituições e autoridades envolvidas na liquidação do Master passaram a ser alvo de uma série de ataques nas redes sociais, principalmente às vésperas da virada do ano.

O Estadão analisou publicações de vários perfis, observando conteúdos, horários e pontos em comum entre os materiais. Apesar de diferenças de estilo na apresentação dos vídeos, as postagens repetem uma mesma matriz de discurso.

Em todos os casos, os influenciadores publicaram os conteúdos no fim de dezembro, baseados na possibilidade de revisão da liquidação do banco. As mensagens convergem ao lançar desconfiança sobre o trabalho dos órgãos reguladores e ao afirmar que a decisão do BC teria sido “rápida demais” – ainda que o processo tenha se estendido por mais de cinco meses.

Nenhuma dessas publicações foi identificada como conteúdo publicitário, o que reforça as dúvidas sobre a natureza organizada da ofensiva digital contra o Banco Central.

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