Ministro do TST vira maior ouvinte de Lô Borges no mundo no Spotify em 2025

Fabrício Gonçalves acumula 111 mil minutos de audição e transforma Clube da Esquina em trilha sonora de decisões, memórias e rotina em Brasília, até após a morte do cantor em 2025

10/01/2026 às 10:55 por Redação Plox

BRASÍLIA – A retrospectiva musical de 2025 do Spotify, responsável por transformar números de audição em competição silenciosa nas redes, trouxe um dado fora do comum. O maior ouvinte de Lô Borges no mundo não é um jovem em busca de descobertas sonoras, um produtor musical nem um colecionador de vinis. É um ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST), em Brasília: Fabrício Gonçalves.

No topo do ranking global da plataforma, o nome do ministro apareceu associado a uma devoção sonora convertida em números: foram 111 mil minutos de audição ao longo de 2025, em um universo de quase 526 mil minutos disponíveis nos 365 dias do ano. Na conta entram 29 álbuns diferentes, todos os cinco artistas mais ouvidos ligados ao Clube da Esquina, e as cinco músicas favoritas compostas ou interpretadas por Lô Borges. O podcast mais escutado também tem o movimento mineiro como tema central. O álbum campeão foi “Lô Borges” (1972), o clássico “disco do tênis”, de capa marcada por um par de tênis de cano alto branco com listras azuis, símbolo de uma geração.

A música de Lô Borges e do Clube da Esquina atravessa a rotina e organiza o dia do ministro Fabrício Gonçalves

A música de Lô Borges e do Clube da Esquina atravessa a rotina e organiza o dia do ministro Fabrício Gonçalves

Foto: Bárbara Cabral/TST


A explicação para tanta fidelidade não está em algoritmo, mas em hábito. Fabrício transformou a obra de Lô em trilha de quase todos os momentos do dia. Ele escuta o artista ao acordar, enquanto se arruma para trabalhar, na chegada ao gabinete, nas viagens entre Brasília e Belo Horizonte e até na sala de espera onde advogados aguardam para ser recebidos, sempre ao som do Clube da Esquina.

Quatro décadas de devoção à mesma trilha

Nascido em Brasília de Minas, no Norte de Minas Gerais, Fabrício escuta Lô Borges desde 1985, quando tinha 15 anos. Desde então, afirma ter lido tudo o que encontrou impresso sobre o artista e sobre o movimento que marcou a música mineira. Essa relação atravessou fases de vida, cargos e mudanças de cidade – e acabou também se tornando trilha sonora de sua vida afetiva.

O ministro manteve um namoro a distância com Tatiana, que vive em Belo Horizonte, enquanto ele se estabeleceu em Brasília. Durante anos, a troca de afeto veio acompanhada da troca de sons: enviavam músicas como se fossem cartas, e, em alguns momentos, chegaram a compartilhar LPs, reforçando vínculos por meio das canções.

Antes de chegar ao TST, Fabrício presidiu a OAB em Minas e a Associação Brasileira de Advogados Trabalhistas. Aproveitou esses cargos para aproximar o universo jurídico do palco, contratando shows de Lô Borges, Milton Nascimento, Toninho Horta e outros nomes ligados ao Clube da Esquina. Em Montes Claros, promoveu um encontro que reuniu Lô e Samuel Rosa no mesmo palco, ocasião da qual nasceu um álbum gravado pelos dois. Foram pelo menos quatro contratações de shows, encontros registrados em fotos que se perderam na mudança para Brasília, mas preservados na memória, sempre sob a ótica de fã, sem intimidade com o ídolo.

Quando a música encontra a letra fria da lei

A rotina no TST não sugere, à primeira vista, espaço para obsessões musicais. O gabinete assumido por Fabrício chegou com mais de 25 mil processos acumulados. Em um ano e meio, ele julgou ações, despachou pilhas de autos e atendeu pelo menos 850 advogados. Ainda assim, o Spotify apenas confirmou em números o que sua rotina já indicava: a música encaixa-se no meio da pressão e das decisões.

Essa presença vai além da ambientação. Em 2025, ao votar em um processo trabalhista sobre indenização por mortes na tragédia de Brumadinho, o ministro recorreu a um verso de “Lágrimas de Amor”, de Márcio Borges e Luís Guedes: luz e drama, o rio que passou agora é lama. Lágrimas de amor e nenhum de nós jamais chorou. A referência entrou como forma de dar substância à decisão, na tentativa de aproximar as palavras do acórdão do impacto humano da tragédia, fazendo do Clube da Esquina um eixo tão fundamental quanto o próprio Direito em sua formação.

Na posse como ministro, em agosto de 2024, a trilha sonora seguiu coerente. Wagner Tiso e Toninho Horta foram responsáveis pela música da cerimônia. Tiso entregou a Fabrício uma cópia da partitura de “Coração de Estudante”, composta com Milton Nascimento. A partitura foi emoldurada e hoje ocupa espaço de destaque em uma parede do gabinete, símbolo de um vínculo pessoal com a obra que atravessa cargos e cerimônias oficiais.

O pós-vida de Lô Borges e novos discos a caminho

Fabrício acompanha com atenção próxima de planilha o que acontece com a obra de Lô após a morte do músico, em 2 de novembro de 2025. No dia da partida, ele observou que cerca de 501 mil pessoas ouviam o artista no Spotify. Um mês depois, o número havia dobrado, movimento que atribui, em parte, à descoberta tardia da obra por jovens que não conviveram com o artista em vida, mas passaram a se aproximar de seu repertório.

Fundador do Clube da Esquina e autor de canções como “O Trem Azul”, “Cravo e Canela” e “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, Lô Borges completaria 74 anos neste 10 de janeiro. A data será lembrada com um vídeo-homenagem nas plataformas oficiais do artista, além de shows, encontros musicais na esquina que batizou o movimento, ensaio temático do bloco Batuque Coletivo e exibição gratuita de um documentário sobre sua trajetória.

Nos bastidores, a equipe de Lô trabalha na catalogação de gravações inéditas deixadas por ele. A expectativa é lançar ao menos um novo álbum em 2026, o primeiro de até quatro discos póstumos planejados a partir desse acervo, numa tentativa de organizar e divulgar o material que não chegou ao grande público em vida.

Enquanto esses lançamentos são preparados, em Brasília, um ministro da Justiça do Trabalho segue repetindo um mesmo gesto: apertar o play, diariamente, e manter Lô Borges como trilha permanente de sua vida profissional e pessoal, transformando música em rotina, decisão e memória.

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