Uso frequente de analgésicos pode piorar dor crônica e criar ciclo de dependência

Sem orientação médica, consumo repetido de analgésicos torna sistema nervoso mais sensível, reduz limiar de dor e aumenta risco de dor induzida por medicamentos, sobretudo em casos de enxaqueca e dores musculoesqueléticas

10/01/2026 às 11:14 por Redação Plox

O uso frequente de analgésicos sem orientação médica pode, em vez de aliviar, manter e até agravar a dor. A chamada dor induzida por medicamentos é mais comum do que se imagina, sobretudo em pessoas que convivem com dor crônica.

Consumo contínuo de remédios pode reduzir o limiar da dor e criar um ciclo difícil de romper

Consumo contínuo de remédios pode reduzir o limiar da dor e criar um ciclo difícil de romper

Foto: Freepik


Segundo a médica anestesiologista e especialista em dor crônica Ana Flávia Vieira Leite, referência no tratamento da dor, o organismo tende a se adaptar ao uso repetido dessas substâncias, o que altera a forma como o corpo percebe e processa o estímulo doloroso.

O sistema nervoso central passa a ficar mais sensível, reduzindo o limiar da dor e fazendo com que o corpo sinta dor com mais facilidade.Ana Flávia Vieira Leite

Como o remédio pode passar a manter a dor

Com o consumo contínuo de analgésicos, ocorrem alterações nos mecanismos de controle da dor no cérebro. As vias responsáveis por inibir a dor deixam de funcionar adequadamente, favorecendo a persistência do sintoma.

O alívio proporcionado pelo medicamento vai ficando cada vez mais curto. Quando o efeito passa, a dor costuma retornar com maior intensidade ou frequência, levando a novas doses e criando um ciclo de uso difícil de interromper.

Sinais de uso excessivo de analgésicos

Alguns indícios podem apontar que a dor está sendo sustentada pelo uso exagerado de remédios. Entre eles, estão a necessidade de aumentar a frequência ou a dose para obter o mesmo alívio e a presença de dor em quase todos os dias.

Também é comum que a dor mude de padrão, deixando de ser pontual e se tornando contínua. Sintomas como irritabilidade, cansaço, dificuldade de concentração e ansiedade podem acompanhar esse quadro, especialmente em quem já apresenta dor crônica.

No caso das dores de cabeça, muitos pacientes relatam dor diária, principalmente ao acordar, o que pode indicar relação com o uso frequente de analgésicos.

Existe um uso considerado seguro?

De modo geral, analgésicos simples e anti-inflamatórios não devem ser utilizados todos os dias sem acompanhamento médico. Em casos de cefaleia, o uso dessas medicações por mais de 10 a 15 dias no mês já eleva o risco de desenvolver dor associada ao uso excessivo.

A especialista ressalta que a segurança não está ligada apenas à dose: frequência, tempo de uso e condições clínicas do paciente são determinantes para o risco de complicações e para a piora da dor.

Por isso, o uso recorrente de analgésicos deve ser periodicamente reavaliado, com investigação da causa da dor e definição de um plano de tratamento mais adequado e sustentável.

Tipos de dor mais associados ao uso excessivo

A dor de cabeça é a que mais se relaciona ao uso exagerado de analgésicos, sobretudo nos casos de enxaqueca e cefaleia tensional. Nessas situações, o consumo contínuo do remédio tende a agravar o problema ao longo do tempo.

Dores musculoesqueléticas, como lombalgia, dor no pescoço e dores musculares difusas, também podem piorar quando tratadas apenas com analgésicos de forma repetida. O medicamento atua no sintoma, mas não resolve a origem da dor, o que favorece a cronificação.

O que fazer ao perceber uso frequente de remédios para dor

Ao notar que está recorrendo a analgésicos com muita frequência, o passo mais importante é buscar avaliação médica. Em muitos casos, será necessário reduzir ou suspender o medicamento de forma orientada, evitando a interrupção abrupta por conta própria.

O tratamento pode envolver fisioterapia, mudanças de hábitos de vida, uso de medicamentos específicos para dor crônica e outras abordagens não farmacológicas, com foco em tratar a causa e não apenas “abafar” o sintoma.

Tratar a dor vai além de silenciar o incômodo imediato: envolve entender o mecanismo por trás dela e agir de maneira personalizada para cada paciente.

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