Anvisa alerta para risco de pancreatite e investiga mortes ligadas a canetas de obesidade e diabetes

Agência apura seis mortes suspeitas e mais de 200 notificações de problemas no pâncreas envolvendo medicamentos como Ozempic, Saxenda e Mounjaro, e reforça uso apenas com prescrição e acompanhamento médico.

10/02/2026 às 10:17 por Redação Plox

A investigação de casos de pancreatite e mortes em pessoas que usaram canetas para tratamento de obesidade e diabetes levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a divulgar um alerta sobre os riscos associados ao uso desses medicamentos fora das indicações aprovadas e sem acompanhamento médico.


Canetas emagrecedoras devem ser aplicadas com indicação médica

Canetas emagrecedoras devem ser aplicadas com indicação médica

Foto: Reprodução / TV TEM

No Brasil, a agência apura seis mortes suspeitas e mais de 200 notificações de problemas no pâncreas em pacientes que usavam fármacos como Ozempic, Saxenda e Mounjaro. Esses registros ainda são considerados suspeitos, sem comprovação de relação direta de causa e efeito, mas o aumento recente das notificações motivou a manifestação da vigilância sanitária.

Por que os casos de pancreatite estão no radar

Os pacientes que utilizam as canetas para obesidade e diabetes, em geral, já fazem parte de um grupo com risco elevado para problemas no pâncreas. São pessoas com obesidade, diabetes ou ambas as condições, fatores que, isoladamente, aumentam a chance de complicações.

Os próprios medicamentos trazem em bula o alerta para o risco de formação de cálculos na vesícula biliar, o que pode desencadear episódios de pancreatite. A perda de peso rápida, comum entre usuários dessas canetas, é um fator conhecido por aumentar a formação de cálculos biliares, somando-se aos riscos já existentes.

Outro ponto é o efeito dessas substâncias sobre o sistema digestivo. As canetas atrasam o esvaziamento do estômago, fazendo com que o alimento permaneça mais tempo em digestão. Esse processo altera o metabolismo dos ácidos biliares, substâncias envolvidas no processamento de gorduras e relacionadas ao funcionamento do pâncreas. Em pessoas com obesidade, esse metabolismo já tende a ser mais desregulado, o que pode aumentar a vulnerabilidade a complicações.

O uso fora da indicação e sem acompanhamento médico acrescenta um componente extra de risco: doses inadequadas, falta de monitoramento de efeitos adversos e dificuldade para reconhecer precocemente sinais de inflamação no pâncreas. A circulação de canetas falsificadas e de origem irregular agrava o cenário, pois impede saber qual substância e qual dose estão sendo aplicadas.

Cenário internacional e quadro da doença

A possível associação entre as canetas para obesidade e diabetes e a pancreatite ganhou ainda mais atenção após um alerta no Reino Unido, onde são investigadas 19 mortes associadas ao uso desses medicamentos. Os casos são considerados incomuns e raros, mas envolveram quadros graves, como pancreatite necrosante e fatal, segundo a agência reguladora local.

Especialistas explicam que a pancreatite é uma inflamação do pâncreas, órgão responsável pela produção de enzimas da digestão e de hormônios como a insulina. No Brasil, as causas mais comuns continuam sendo o consumo excessivo de álcool e a presença de cálculos na vesícula biliar.

A pancreatite é uma doença importante e potencialmente grave. No Brasil, a gente tem uma média de registros de 200 mil casos por ano. Isso justamente pelo cenário de obesidade e diabetes no país Nelton Dornellas, endocrinologista e presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

Fatores que agravam o risco com as canetas

De acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), há uma série de fatores que podem ampliar o risco em pessoas que usam essas medicações, especialmente quando já convivem com obesidade e diabetes.

O primeiro deles é a perda de peso rápida, frequente em quem utiliza essas canetas, que aumenta a formação de cálculos biliares e contribui para um ambiente de riscos somados. Além disso, o mecanismo de ação dos remédios — que retardam o esvaziamento gástrico e alteram o metabolismo dos ácidos biliares — interfere diretamente em processos ligados ao pâncreas.

Diante desse contexto, a Anvisa orienta a suspensão imediata do tratamento em caso de suspeita de inflamação no pâncreas e reforça que o uso deve ocorrer apenas dentro das indicações aprovadas em bula, sempre com prescrição e acompanhamento médico.

Risco adicional das canetas falsificadas

Além do uso inadequado, a circulação de canetas falsificadas e produtos de origem irregular preocupa especialistas e autoridades. Como são medicamentos de alta complexidade, aplicados semanalmente e com efeito prolongado no organismo, não saber exatamente o que está sendo injetado — nem em que dose — amplia significativamente o risco, sobretudo em pessoas com histórico de problemas no pâncreas ou consumo frequente de álcool.

Para especialistas, esse mercado paralelo fragiliza qualquer tentativa de controle e expõe pacientes a perigos que não existem no uso regular, feito com prescrição e monitoramento médico.

Quando falamos de canetas falsificadas a gente não sabe o que tem nessas substâncias, o controle do quanto está sendo aplicado. E isso piora quando a pessoa faz sem indicação. A dose pode ser arriscada para ela, ainda mais se ela tem algum histórico de questão no pâncreas e não está acompanhando isso Dornellas

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