Entre o picadeiro e uma casa sobre rodas: casal circense conta rotina de 19 anos na estrada
Jeep Santiago e Natália Malta viajam com o filho de 9 anos durante as temporadas da companhia, que se apresenta na cidade.
10/08/2026 às 14:32por Redação Plox
10/08/2026 às 14:32
— por Redação Plox
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Jeep Santiago representa a quarta geração de uma família de artistas; Natália Malta conheceu o circo como espectadora e hoje divide a vida entre o número de bambolês, a confecção de figurinos e a rotina itinerante.
Jeep e Natália estão juntos há 19 anos.
Foto: Stella Dutra / Plox Brasil.
Por trás das luzes, dos figurinos e das acrobacias apresentadas no picadeiro do Circo Kroner, existe uma rotina que o público raramente acompanha. Para os artistas, o circo não é apenas o local de trabalho. É também casa, escola para os filhos, espaço de convivência e uma vida que muda de endereço a cada nova temporada.
Durante a passagem do Internacional Circo Kroner por Ipatinga, a reportagem do Plox conheceu de perto a rotina de Mauro Santiago, conhecido no meio circense como Jeep Santiago, e Natália Malta. Casados há 19 anos, os dois moram com o filho de 9 anos em um trailer instalado junto à estrutura do circo.
A história dos dois, porém, começou de lados diferentes do picadeiro. Jeep nasceu em uma família circense e representa a quarta geração de artistas. Natália, por outro lado, chegou ao circo como espectadora. Ela conheceu Jeep quando a companhia passou pela cidade onde morava, começou a acompanhar o circo em outras cidades e, conforme o relacionamento avançou, decidiu deixar a antiga rotina para seguir viagem com ele.
Entre o picadeiro e uma casa sobre rodas: casal circense conta rotina de 19 anos na estrada.
Vídeo: Stella Dutra / Plox Brasil.
Quatro gerações sobre o picadeiro
A trajetória de Jeep está diretamente ligada a um dos números acrobáticos apresentados atualmente pelo Kroner: a báscula.
O aparelho funciona como uma espécie de gangorra acrobática. Com o impulso dos companheiros, os artistas são lançados ao ar para executar saltos, giros e aterrissagens que exigem força, precisão e sincronismo.
Segundo Jeep, sua família pratica esse tipo de número no Brasil há cerca de 45 anos. Atualmente, ele não se apresenta mais com a formação familiar original, mas mantém a tradição integrando a equipe do Kroner.
Jeep Santiago se apresentava com a família ainda criança e aprendeu o número da báscula.
Foto: Stella Dutra / Plox Brasil.
Em um dos momentos da apresentação, Jeep realiza a acrobacia utilizando uma perna de pau com aproximadamente 1,30 metro de altura. O desafio não termina quando o artista completa o salto: depois de ser lançado pela báscula, ele precisa aterrissar e recuperar o equilíbrio imediatamente.
A família de Jeep também já recebeu reconhecimento pela trajetória no universo circense, incluindo premiação no Troféu Picadeiro, dedicado à valorização de profissionais e grupos ligados às artes circenses.
De espectadora a artista
Se Jeep cresceu no picadeiro, Natália precisou aprender tudo praticamente do zero.Quando chegou ao circo, ela não tinha formação em ginástica ou experiência anterior em escola circense. O interesse por um número de bambolês apresentado por outra artista despertou a vontade de aprender.
Com treinamento, orientação de outros profissionais e muita repetição, ela desenvolveu o próprio número. Atualmente, Natália se apresenta utilizando cerca de 40 bambolês simultaneamente, em uma coreografia que combina coordenação, equilíbrio e movimento.
Trabalho também acontece longe do picadeiro
A função de Natália no Kroner não termina depois que ela guarda os bambolês. Ela também trabalha na confecção dos figurinos usados pelos artistas. Cada número apresentado possui uma identidade visual própria, e as roupas precisam combinar estética com necessidades muito específicas de quem executa acrobacias.
Segundo Natália, antes de produzir uma peça são analisados o tipo de tecido, o movimento exigido pelo número e o conforto do artista. Afinal, além do brilho característico do espetáculo, os figurinos precisam ser resistentes, flexíveis e seguros.
O trabalho tem uma ligação curiosa com a própria história familiar dela: a mãe de Natália também trabalhava com figurinos. Já na família de Jeep, era a mãe dele quem confeccionava as roupas utilizadas pela antiga trupe.
Em algumas ocasiões, o trabalho continua até pouco antes de os artistas entrarem em cena.
Às vezes chega o dia da estreia do figurino e eu ainda estou fazendo algum ajuste. A pessoa experimenta, precisa mexer em alguma coisa e a gente corre para resolver. No final, todo mundo precisa estar pronto para a apresentação
explicou.
Uma casa que acompanha o circo
Enquanto o espetáculo acontece debaixo da lona, a poucos metros dali existe praticamente um pequeno bairro sobre rodas.
Os trailers acompanham a companhia nas viagens e funcionam como residência dos artistas e das famílias. Foi dentro de um deles que Jeep e Natália receberam a reportagem.
Entre o picadeiro e uma casa sobre rodas: casal circense conta rotina de 19 anos na estrada.
Vídeo: Stella Dutra / Plox Brasil.
O casal vive no local com o filho de 9 anos. A rotina da criança também acompanha as mudanças de cidade. Durante as temporadas, ele frequenta a escola e mantém os estudos enquanto os pais trabalham no espetáculo.
A legislação brasileira prevê mecanismos para garantir a matrícula de filhos de profissionais itinerantes, permitindo a continuidade da vida escolar mesmo com as constantes mudanças de endereço.
Para Jeep, justamente os deslocamentos entre uma cidade e outra estão entre as partes mais trabalhosas da vida circense.
Viajar com trailers e equipamentos exige planejamento e, nas primeiras horas após a chegada a um novo local, nem sempre toda a infraestrutura de água e energia está pronta.
Entre o picadeiro e uma casa sobre rodas: casal circense conta rotina de 19 anos na estrada.
Vídeo: Stella Dutra / Plox Brasil.
Cada dia é um público diferente, uma recepção diferente. Não tem como dizer que um único dia foi especial. Acho que todos os dias são especiais
resumiu Jeep.
Circo Kroner em Ipatinga
Com origem ligada à tradição circense europeia e décadas de trajetória, o Internacional Circo Kroner reúne dezenas de artistas em uma estrutura itinerante que percorre diferentes cidades. O espetáculo apresentado em Ipatinga mistura números tradicionais e produções contemporâneas. Entre as atrações estão acrobacias aéreas, malabarismo, mágica, trapézio, números de equilíbrio, báscula e o Globo da Morte, no qual motociclistas realizam manobras simultaneamente dentro de uma estrutura metálica.
A companhia também aposta em música ao vivo, iluminação, cenografia e figurinos produzidos especificamente para cada número.
Durante a temporada em Ipatinga, o Kroner ainda promoveu programações especiais, como apresentações com convidados e espetáculos voltados ao público infantil.
Mas, para quem assiste sentado na arquibancada, todo esse universo costuma durar apenas algumas horas. Para famílias como a de Jeep e Natália, quando as luzes se apagam e o público vai embora, o circo continua.