Nota do Ipea diz que redução da jornada para 40 horas teria impacto inferior a 1% nos custos de indústria e comércio

Estudo divulgado nesta terça (10) estima alta de 7,84% no custo do trabalho formal com o fim da escala 6x1, mas aponta que isso não significa, necessariamente, queda de produção ou aumento do desemprego

11/02/2026 às 08:00 por Redação Plox

A redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, com fim da escala de 6x1 e adoção de cinco dias de expediente e dois de descanso, teria impacto inferior a 1% no custo operacional dos grandes setores da economia. A conclusão consta em nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), fundação vinculada ao Ministério do Planejamento e Orçamento, divulgada nesta terça-feira (10).

Pesquisa compara impacto da medida com aumentos históricos do salário-mínimo

Pesquisa compara impacto da medida com aumentos históricos do salário-mínimo

Foto: Gil Leonard Imprensa


O estudo analisa os efeitos de uma eventual mudança que ainda está em fase inicial de discussão no Congresso Nacional. De acordo com o Ipea, os custos associados à redução da jornada seriam semelhantes aos impactos de reajustes históricos do salário mínimo no país, o que indicaria capacidade de absorção da medida pelo mercado de trabalho.

Redução da jornada e custo da hora trabalhada

A pesquisa parte da premissa de que limitar a carga horária aumenta o custo da hora de trabalho, mantendo a remuneração nominal. Assim, a redução da jornada é tratada como um encarecimento do trabalho, em abordagem diferente de parte da literatura acadêmica que associa automaticamente a medida à queda do Produto Interno Bruto (PIB).

Nesse cenário, o Ipea calcula que uma jornada de 40 horas semanais elevaria em 7,84% o custo do trabalho formal regido pela CLT. Apesar disso, quando esse aumento é ponderado pelo peso da mão de obra no custo total de cada setor, os efeitos aparecem como reduzidos, sobretudo nos segmentos que mais empregam.

Impacto por setor da economia

Nos setores de indústria e comércio, responsáveis por grande volume de postos de trabalho, o acréscimo de custo seria inferior a 1% do total operacional, segundo a nota técnica. Ou seja, mesmo com o aumento do custo da hora trabalhada, o efeito final sobre a estrutura de despesas das empresas tende a ser limitado.

Já em atividades intensivas em mão de obra, como serviços de vigilância e limpeza, o impacto projetado é maior. O estudo aponta que o setor de vigilância, segurança e investigação poderia registrar elevação de até 6,6% no custo operacional, reflexo direto da forte participação do trabalho na composição de gastos dessas empresas.

O documento ressalta que o aumento do custo não implica, necessariamente, redução de produção ou alta do desemprego, uma vez que empresas podem adotar diferentes estratégias de adaptação.

Possíveis reações das empresas

Segundo o Ipea, a limitação da carga horária força empresas a reverem sua organização interna. Algumas podem optar por ajustar a produção, enquanto outras podem investir em produtividade ou contratar novos empregados para compensar as horas não trabalhadas pelos funcionários atuais.

A limitação da carga horária do trabalhador é entendida como um aumento do custo da hora de trabalho. Os empresários podem reagir de diversas formas a esse aumento, reduzir a produção é uma delas, mas eles podem também buscar aumentos na produtividade ou contratar mais trabalhadores para suprir a carga horária que cada um dos empregados anteriores deixou de disponibilizar

Felipe Pateo, técnico de planejamento e pesquisa no Ipea

Paralelo com reajustes do salário mínimo

O estudo compara o cenário de redução da jornada com episódios em que o país já enfrentou choques relevantes no custo do trabalho por meio de aumentos expressivos do salário mínimo.

A nota lembra que, em 2001, o piso remuneratório teve alta de 12% e, em 2012, de 7,6%. Nesses casos, apesar do encarecimento da força de trabalho, não foram observados efeitos negativos sobre o nível de emprego, o que, segundo a análise, reforça a avaliação de que o mercado de trabalho brasileiro já demonstrou capacidade de absorver elevações de custo similares às projetadas com a redução da jornada.

Compartilhar a notícia

V e j a A g o r a