Após pressão regulatória, redes como Roblox, Discord e YouTube implementam verificação de idade por selfie

Discord, YouTube, OpenAI/ChatGPT, TikTok e Roblox adotam checagens com selfie e documentos, enquanto novas regras e debates avançam em países como Austrália, EUA e Brasil

11/02/2026 às 08:36 por Redação Plox

Plataformas digitais passaram a adotar, em diferentes partes do mundo, sistemas de verificação de idade com selfie ou documentos para tentar aumentar a segurança de crianças e adolescentes em ambientes online.


Imagem ilustrativa

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Foto: Reprodução

O movimento ganhou novo capítulo com o anúncio do Discord, aplicativo de mensagens usado principalmente por gamers. A partir de março, o serviço vai oferecer verificação de idade para usuários que tentarem alterar configurações de segurança ou acessar conteúdos sensíveis em canais e servidores.

Em janeiro, YouTube e OpenAI, dona do ChatGPT, informaram que passaram a usar um sistema de previsão para identificar menores de idade em todos os países e aplicar proteções extras. O TikTok também iniciou um processo de checagem da idade, mas, por enquanto, restrito à Europa.

No mesmo mês, a plataforma de jogos Roblox passou a exigir verificação de idade para liberar o uso do chat, o que provocou protestos virtuais dentro do jogo. Usuários criaram “cartazes” que se transformaram em memes com frases como “Quero injustiça”.

Essas iniciativas ganham força em um cenário em que vários países discutem restrições específicas ao acesso de crianças e adolescentes às redes sociais. A Austrália, por exemplo, proibiu menores de 16 anos de usarem serviços como Instagram, Facebook, TikTok e YouTube.

Nos Estados Unidos, empresas como Meta (dona de Instagram e Facebook) e Google (dono do YouTube) respondem a processos que apontam danos à saúde mental de crianças e questionam o potencial de vício das plataformas, caso que será julgado por júri popular. A OpenAI também passou a enfrentar, em 2025, acusações de que o ChatGPT teria incentivado o suicídio de adolescentes no país.

No Brasil, o Roblox é alvo de denúncias sobre a atuação de aliciadores de menores, conforme exibido pelo programa Fantástico. Em resposta, a empresa afirma que suas medidas de segurança superam as adotadas por outras plataformas.

As plataformas têm que ser responsabilizadas e estão, de certa forma, tentando antecipar o que as regulações dos países já estão fazendo. Estamos vendo um movimento crescente por um controle maior — Laís Peretto, diretora-executiva da Childhood Brasil

No contexto brasileiro, serviços online que possam conter conteúdo impróprio para menores de 16 anos serão obrigados a verificar a idade de seus usuários. A obrigação está no Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), que passa a valer em março.

A verificação de idade é apontada como um dos pontos centrais do ECA Digital, acompanhada de uma preocupação em equilibrar a precisão dos métodos com a proteção da privacidade dos dados.

Como as plataformas estão checando a idade dos usuários

Não há um único padrão para estimar ou confirmar a idade de quem acessa sites e aplicativos. As empresas adotam combinações de tecnologias e etapas adicionais de checagem.

TikTok, ChatGPT e YouTube utilizam inteligência artificial para analisar o comportamento de navegação e estimar a faixa etária do usuário. Nesses casos, a verificação formal é oferecida, por exemplo, para recuperar contas de adultos identificados erroneamente como menores.

Roblox e Discord, por sua vez, acionam a verificação quando o usuário tenta acessar recursos que possam aumentar riscos à segurança, como chats ou conteúdos sensíveis.

Entre os métodos mais usados pelas plataformas estão:

• Selfie para estimar a idade;
• Autorização por cartão de crédito, sem cobrança, para comprovar maioridade;
• Envio de documento de identidade para confirmar a data de nascimento.

Roblox e ChatGPT utilizam uma solução da empresa norte-americana Persona. O TikTok recorre à tecnologia da britânica Yoti, também usada pelo Instagram e Facebook em alguns países. O Discord adotou o mecanismo da singapurense k-ID.

Ferramentas de IA e limites da verificação com selfie

A Persona descreve que sua solução utiliza algoritmos para analisar características faciais, como distância entre os olhos e formato do nariz, comparando a selfie enviada com a foto presente no documento de identidade do usuário.

Segundo a empresa, selfies antigas não são aceitas, como forma de reduzir fraudes. Ainda assim, admite que o sistema não é infalível e que deepfakes representam um “desafio significativo” para a segurança das verificações por imagem.

Em seu site, a Persona afirma que tentativas de deepfake evoluíram de forma considerável ao longo dos últimos anos e, em alguns casos, conseguem burlar a verificação por selfie. A orientação da companhia a clientes é que os processos de verificação incluam múltiplas checagens para identificar deepfakes, tanto visuais quanto não visuais.

Já a Yoti explica que converte cada ponto da selfie do usuário em valores numéricos, que são avaliados por uma inteligência artificial treinada com milhões de imagens de rostos para identificar padrões de idade. A partir dessa análise, o sistema gera uma estimativa etária.

Como toda estimativa tem margem de erro, a Yoti prevê solicitar um documento adicional se a idade calculada ficar abaixo do limite mínimo definido por cada plataforma.

O k-ID afirma que processa as imagens diretamente no dispositivo do usuário, sem enviá-las a servidores externos, com o objetivo de reduzir riscos de vazamento. O sistema também pode confirmar a idade com base em verificações já realizadas em plataformas parceiras.

Precisão menor entre crianças e adolescentes

Persona e Yoti são considerados serviços alinhados a padrões internacionais de segurança e privacidade, mas ainda enfrentam falhas que abrem brechas para que crianças e adolescentes acessem conteúdos inadequados.

Esse cenário foi apontado pelo estudo “Teste de Tecnologia de Garantia de Idade”, financiado pelo governo da Austrália e publicado em agosto de 2025. A análise avaliou soluções de 48 fornecedores de verificação de idade, sem incluir o k-ID, e concluiu que Persona e Yoti estão entre os serviços com menor precisão ao estimar a idade de usuários mais jovens.

No caso da Yoti, o erro médio é inferior a 2 anos para pessoas entre 13 e 20 anos, mas sobe para 3,2 anos na faixa de 10 a 12 anos. A Persona apresenta margem de erro de até 3,3 anos, com desempenho pior justamente entre usuários abaixo de 13 anos.

Os autores do estudo atribuem essa diferença à menor disponibilidade de dados de crianças para treinar modelos de IA e às rápidas mudanças nas feições de crianças e adolescentes ao longo do tempo.

A avaliação é de que tanto as tecnologias quanto as legislações sobre uso de redes por menores precisarão ser revistas com frequência. Ainda assim, a implementação de novas camadas de proteção é vista como um passo importante.

Para especialistas da área, mesmo sem garantir total eficácia, os mecanismos de verificação tendem a elevar o nível de segurança em relação ao cenário atual, desde que sejam continuamente aprimorados.

Na visão de organizações que atuam na proteção de crianças e adolescentes, a redução de riscos dependerá de uma rede que envolva governo, plataformas, sociedade civil e, de forma central, pais e responsáveis, com uso de ferramentas de controle parental, acompanhamento do que é consumido online e abertura de canais de diálogo com os jovens.

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