“Treinando caso ela diga não”: trend nas redes simula agressões contra mulheres após rejeição

Advocacia-Geral da União apresentou notícia-crime e plataformas começaram a remover vídeos e derrubar perfis ligados ao conteúdo

11/03/2026 às 19:31 por Redação Plox

A chamada trend “Treinando caso ela diga não”, que simula agressões contra mulheres após rejeição, acendeu um alerta no Brasil. Em vídeos publicados em uma rede social, homens encenam como reagiriam se uma mulher recusasse um pedido de namoro ou casamento, sempre com a negativa como gatilho para atos de violência fictícia.


Vídeo: YouTube



O formato se espalhou rapidamente pela internet. Foram identificados dezenas de vídeos publicados entre 2023 e 2025, em perfis com centenas ou até centenas de milhares de seguidores, somando mais de 175 mil interações. A repercussão levou à abertura de investigação.

PF abre inquérito para investigar conteúdo violento

A Polícia Federal instaurou inquérito para apurar os vídeos que simulam violência contra mulheres. Segundo a corporação, a apuração começou após o recebimento de denúncia sobre publicações associadas a essa tendência.

A Polícia Federal instaurou procedimento investigativo para apurar a divulgação de conteúdos que incitavam violência contra mulheres em perfis de redes sociais. A apuração teve início após o recebimento de denúncia sobre publicações associadas a uma tendência que incentivaria esse tipo de prática PF

A decisão foi tomada depois de a Advocacia-Geral da União apresentar, em um domingo (8/3), notícia-crime à PF pedindo a abertura de inquérito.

Redes removem vídeos e Congresso reage

Perfis foram derrubados e o material começou a ser removido das plataformas. A empresa responsável informou que esse tipo de conteúdo viola suas diretrizes.

O caso também chegou ao Congresso Nacional. Parlamentares cobraram investigação e mais rigor na moderação de conteúdos que incitem violência de gênero, reforçando a necessidade de responsabilização de quem produz e divulga esse tipo de material.

Especialistas apontam que tendências como essa se espalham com facilidade porque geram grande engajamento e muitas interações. A preocupação central é a mensagem transmitida, sobretudo quando a violência é tratada como “brincadeira”. Enquanto alguns autores classificam os vídeos como “piada” ou “meme”, críticos avaliam que esse tipo de conteúdo pode contribuir para normalizar a violência contra mulheres.

Foto: Rede Social


Casos reais mostram que violência vai além do virtual

A banalização da violência nas redes contrasta com casos concretos registrados no país. No Rio de Janeiro, uma jovem de 20 anos foi esfaqueada mais de 15 vezes por um homem que não aceitou a recusa em um relacionamento. Ela sobreviveu após quase um mês internada.

Em Pernambuco, uma mulher foi atacada com facadas e teve o corpo incendiado por um homem que também não aceitou a rejeição. Já em Minas Gerais, uma mulher morreu após ser agredida com golpes de canivete depois de recusar um beijo.

Esses crimes se somam a um cenário considerado preocupante. Dados do Ministério da Justiça indicam que o Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025: foram 1.568 mulheres assassinadas por serem mulheres, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Em comparação a 2021, o crescimento em quatro anos chega a 14,5%.

Na prática, isso significa que quatro mulheres foram mortas por dia no país. Especialistas alertam que, quando a violência contra a mulher é tratada como entretenimento, o risco é que esse comportamento passe a ser visto como aceitável. O “não”, que deveria ser respeitado, ainda segue sendo, para muitos, um gatilho para a agressão.

Medidas de proteção e tornozeleira eletrônica

Diante da escalada de casos, o debate sobre proteção às vítimas ganhou força. A Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que permite à Justiça determinar o uso imediato de tornozeleira eletrônica pelo agressor de mulheres em situação de violência doméstica e familiar, quando for identificado alto risco à vida da vítima. O objetivo é ampliar a segurança de quem já está sob ameaça.

O contexto é ainda mais grave quando se observa que uma em cada dez mulheres assassinadas no Brasil tinha medida protetiva. O dado reforça a necessidade de ações mais efetivas para garantir que o direito de dizer “não” não seja respondido com violência.

Foto: Tiago Stille/Gov. Ceará


Compartilhar a notícia

V e j a A g o r a