Governo Lula pagou cerca de R$ 2 milhões a influenciadores e artistas desde 2025, com cachês de até R$ 470 mil

Segundo dados detalhados após pedido via Lei de Acesso à Informação e ordem da CGU, contratações foram feitas após Sidônio Palmeira assumir a Secom e passaram por agências licitadas

11/04/2026 às 12:53 por Redação Plox

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pagou cerca de R$ 2 milhões para influenciadores digitais e artistas participarem de campanhas publicitárias desde 2025, período em que Sidônio Palmeira assumiu o comando da Secom (Secretaria de Comunicação Social). Os pagamentos incluem ações de publicidade de programas oficiais, com cachês que chegam a R$ 470 mil.

  • Entre os maiores valores, a atriz Dira Paes recebeu R$ 470 mil por uma ação de publicidade do programa Celular Seguro. Já o carnavalesco Milton Cunha foi contratado por R$ 310 mil para divulgar o Agora Tem Especialistas, do Ministério da Saúde.
    Marcelo Camargo/Agência Brasil/Divulgação/JC

    Marcelo Camargo/Agência Brasil/Divulgação/JC


Cachês variaram e atingiram ao menos 55 influenciadores

Além dos artistas, o governo pagou de R$ 1.000 a R$ 124,9 mil para ao menos 55 influenciadores digitais divulgarem vídeos sobre bandeiras e ações do governo ou atuarem em propagandas produzidas por agências de comunicação contratadas pela Secom.

Outros 12 nomes participaram de ações sem receber pagamentos federais, ou por meio de parceria com big techs contratadas pela secretaria. A lista inclui o apresentador João Kleber, que protagonizou uma propaganda do governo sobre “Teste de Fidelidade ao Brasil”.

Segundo a reportagem, a participação de João Kleber foi oferecida pelo Kwai, empresa que recebeu ao menos R$ 19,5 milhões em anúncios da Secom e ministérios no último ano.

Secom cita mudança no consumo de mídia e diz que pagamento ocorre via produção

A Secom afirma que a contratação de influenciadores acompanha novos hábitos de consumo de mídia na busca por informações, “com aumento significativo do tempo dedicado à navegação nas redes sociais e do engajamento da audiência nas publicações desse perfil”.

A secretaria também diz que os influenciadores são remunerados com a verba de produção das campanhas e por meio das agências licitadas pelo governo.

Prática teve antecedente no governo Bolsonaro e disputas sobre o uso de influenciadores

O governo Jair Bolsonaro (PL) também contratou influenciadores de 2019 a 2021, com pagamento de ao menos R$ 670 mil (valores corrigidos pela inflação). A gestão passada interrompeu a prática após questionamentos, incluindo a produção de conteúdo defendendo o “cuidado precoce” sobre a Covid-19, ligado ao discurso negacionista e antivacina sobre a pandemia.

Outra estratégia utilizada por diferentes governos é o merchandising em programas de TV e rádio. A gestão anterior usou esse formato para pagar o apresentador bolsonarista Sikêra Jr., enquanto a Secom de Lula contratou Ratinho para defender bandeiras do governo petista.

A ampliação do uso de influenciadores contrasta com a postura do antecessor de Sidônio na Secom, Paulo Pimenta (PT), que afirmou em reunião na Câmara dos Deputados em 2023 que o governo não trabalhava com “influenciadores pagos”.

Verba publicitária migra para o digital e pagamentos foram detalhados após ordem da CGU

Sob Sidônio, a Secom também passou a direcionar mais de 30% da verba publicitária para sites e plataformas digitais, ante cerca de 20% na gestão anterior. Com a mudança, os canais digitais receberam ao menos R$ 234,8 milhões dos cerca de R$ 681 milhões distribuídos em anúncios pela secretaria e ministérios no último ano.

Os cachês foram apresentados à reportagem por meio de um pedido baseado na Lei de Acesso à Informação. Nas etapas iniciais, a Secom informou apenas os nomes dos influenciadores. Após ordem da CGU (Controladoria-Geral da União), em recurso de terceira instância, a secretaria divulgou os pagamentos.

Dira Paes, Milton Cunha e ações específicas em campanhas oficiais

No ano passado, Dira Paes protagonizou a campanha do aplicativo Celular Seguro, que permite o bloqueio de aparelhos de vítimas de furto ou extravio. A atriz, da TV Globo, integra o CDESS (Conselho do Desenvolvimento Econômico Social Sustentável) do governo Lula, conhecido como “Conselhão”. Ela também atuou como a mãe do presidente da República, dona Lindu, no desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval 2026.

Em nota, a assessoria da atriz confirmou o valor e informou que a campanha teve veiculação nacional durante um ano na TV, no rádio e na internet.

Já Milton Cunha gravou dois vídeos voltados ao público do Rio de Janeiro, com destaque ao aumento de cirurgias no SUS. A Globo retirou o carnavalesco da apresentação do quadro Enredo e Samba, exibido no RJ1, depois da gravação, como mostrou a Folha de S.Paulo. A assessoria de Cunha foi procurada, mas não se manifestou.

Cadastro de produtores no Midiacad e regras para participação

Em 2025, a Secom passou a permitir que produtores de conteúdo em plataformas digitais se cadastrem no Midiacad, sistema da pasta que centraliza veículos de comunicação aptos a receber publicidade federal.

Para entrar no sistema, influenciadores devem apresentar dados sobre volume de seguidores e acessos nas redes, além de um relatório de entregas de mídia. A Secom orienta que o produtor, “ao retratar uma experiência pessoal, seja genuíno e contenha apresentação verdadeira do produto ou serviço anunciado”.

Lista de pagamentos inclui Matheus Buente, Morgana Camila e outros nomes

Entre os valores divulgados pela Secom, o professor de história e comediante Matheus Buente recebeu a maior soma entre os influenciadores: R$ 124,9 mil. Ele protagonizou vídeos sobre a saída do Brasil do Mapa da Fome e sobre o Pix.

Também houve pagamentos para Morgana Camila (R$ 119,25 mil), Vitor DiCastro (R$ 90 mil), Anaterra Oliveira (R$ 50 mil) e Rodrigo Góes (R$ 50 mil). Gabriela Ferreira, Giovana Fagundes e Matheus Sodré receberam R$ 40 mil cada, segundo a secretaria.

Influenciadores relatam liberdade criativa e alinhamento com práticas de mercado

Matheus Buente disse que o valor recebido correspondeu à produção e divulgação de dois vídeos e que o objetivo era “explicar, de forma acessível”, políticas públicas. Segundo ele, houve “total liberdade criativa” na elaboração do material.

Rodrigo Góes afirmou que participou de campanhas do Ministério da Saúde sobre vacinação e doação de sangue — a última, segundo ele, sem remuneração. Ele disse que o pagamento segue práticas do mercado e que a campanha foi construída com base na linguagem que utiliza nas redes, mantendo o caráter informativo.

A atriz e comediante Giovana Fagundes declarou que segue boas práticas do mercado e identifica conteúdos patrocinados, além de selecionar trabalhos alinhados a seus princípios e a instituições e marcas que conhece e acredita.

A Secom afirma que a influenciadora Laura Sabino recebeu R$ 40 mil para a produção de quatro vídeos. Procurada, ela disse que o valor está incorreto, mas não informou quanto recebeu. Laura afirmou que os trabalhos não tinham o objetivo de promover o presidente Lula ou defender o governo, e sim orientar e contribuir para que direitos cheguem a quem precisa.

Os demais influenciadores mencionados foram procurados, mas não se manifestaram.

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