Cade abre inquérito contra Meta por possível abuso de poder no WhatsApp com IA
Órgão antitruste vê indícios de infração econômica em regras que barram provedores rivais de inteligência artificial no WhatsApp Business e suspende novos termos de uso previstos para janeiro de 2026
A Superintendência-Geral do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) instaurou um inquérito administrativo contra a Meta, controladora do WhatsApp e do Facebook, para apurar possível abuso de posição dominante no mercado de inteligência artificial vinculada ao aplicativo de mensagens.
Cerca de 99% dos celulares no Brasil possuem o WhatsApp instalado
Foto: Pixabay
Cade mira regras do WhatsApp Business e impacto sobre rivais de IA
O procedimento foi aberto após representação das empresas Factoría Elcano e Brainlogic AI, que oferecem assistentes de IA por meio do WhatsApp. Elas afirmam que, em outubro de 2025, a Meta alterou unilateralmente as regras do WhatsApp Business Solution para barrar o uso da plataforma por provedores de IA concorrentes, mantendo, ao mesmo tempo, em operação sua própria ferramenta, a Meta AI.
Na avaliação das representantes, a companhia estaria explorando sua posição dominante no mercado de mensagens instantâneas — em que o WhatsApp está presente em cerca de 99% dos smartphones no Brasil — para restringir o acesso de rivais e favorecer um produto próprio. A estratégia foi apresentada ao Cade como um caso clássico de “embrace, extend, and extinguish”, modelo em que uma plataforma incorpora parceiros ao seu ecossistema para, depois, excluí-los.
Argumentos da Meta sobre mudanças contratuais
Em manifestação ao órgão antitruste, a Meta sustentou que a atualização contratual tem justificativa. Segundo a empresa, a interface do WhatsApp Business foi concebida para ações de marketing e atendimento ao cliente, não para a operação de chatbots de IA de uso geral, que estariam sobrecarregando a infraestrutura do serviço.
A companhia alegou ainda que esses desenvolvedores utilizariam a rede sem contrapartida adequada, gerando instabilidades técnicas. Acrescentou que as ferramentas concorrentes disporiam de outros canais de distribuição, como aplicativos próprios e sites, não dependendo exclusivamente do WhatsApp para competir.
Indícios de infração e medida preventiva do Cade
Ao avaliar o caso, a Superintendência-Geral do Cade identificou indícios de que a conduta da Meta pode configurar infração à ordem econômica, com efeitos de fechamento de mercado e exclusão de concorrentes. Para o órgão, a combinação entre a proibição total de terceiros e a permanência da Meta AI na plataforma aparenta ser desproporcional.
Na análise preliminar, o Cade apontou verossimilhança nas alegações e ressaltou que a Meta teria capacidade de impor, de forma unilateral, regras com impacto concorrencial relevante. O órgão também destacou o risco de demora na decisão, uma vez que a entrada em vigor dos novos termos poderia retirar, de maneira abrupta, serviços usados por milhões de usuários.
Como medida preventiva, o Cade determinou a suspensão da entrada em vigor dos novos termos de uso do WhatsApp Business, previstos para começar a valer em 15 de janeiro de 2026. O descumprimento da decisão pode acarretar multa diária de R$ 250 mil.
A Meta deverá ainda comunicar formalmente os provedores de IA sobre a suspensão da proibição no prazo de cinco dias. A ordem busca evitar que aplicativos já em operação sejam desligados de uma hora para outra.
Investigações no Brasil seguem trilha internacional
O movimento do Cade se alinha à atuação de autoridades concorrenciais em outros países. Em dezembro de 2025, a autoridade antitruste da Itália adotou medida cautelar contra a Meta em caso semelhante, também relacionado ao uso de IA em serviços vinculados ao WhatsApp.
No Brasil, o inquérito entra agora na fase de instrução, em que o Cade reunirá mais informações e documentos antes de decidir se abre um processo administrativo formal contra a empresa ou se arquiva o caso.
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