PM encontrado morto iria se casar 2 dias depois do desaparecimento
Corpo do cabo Fabrício Gomes de Santana, de 40 anos, foi localizado enterrado em sítio de Embu-Guaçu após carro carbonizado ser achado em área de mata em Itapecerica da Serra; quatro suspeitos foram presos e polícia apura atuação de 'tribunal do crime'
12/01/2026 às 10:46por Redação Plox
12/01/2026 às 10:46
— por Redação Plox
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O policial militar Fabrício Gomes de Santana, de 40 anos, encontrado morto no domingo (11/1) após quatro dias desaparecido, se preparava para se casar no civil na última sexta-feira (9/1). O corpo dele foi localizado enterrado em um sítio em Embu-Guaçu, na região metropolitana de São Paulo.
O carro do PM foi encontrado carbonizado no fim da tarde seguinte (8), em uma área de mata de Itapecerica da Serra, na região metropolitana.
Foto: Reprodução / TV Globo.
Segundo a polícia, o corpo já foi liberado pelo Instituto Médico Legal (IML) de Taboão da Serra e será encaminhado para o Cemitério Cerejeiras, no Jardim Ângela, zona sul da capital. O enterro está previsto para esta segunda-feira (12/1). O caso é tratado como possível execução ligada a um tribunal do crime.
Corpo localizado após carro carbonizado
O desaparecimento de Fabrício começou na quarta-feira (7), quando ele foi visto pela última vez em uma adega na zona sul de São Paulo. No local, teria ocorrido um desentendimento com um suposto traficante, episódio que ainda é apurado. A polícia tenta obter as imagens das câmeras de segurança do estabelecimento para reconstruir os passos do policial.
No fim da tarde de quinta-feira (8), o carro de Fabrício, um Ford Ka, foi encontrado completamente carbonizado em uma área de mata em Itapecerica da Serra, também na região metropolitana. Na madrugada de domingo, policiais localizaram um corpo enterrado em um sítio em Embu-Guaçu, a cerca de 15 km de Itapecerica, também em área de mata.
Até o momento, quatro pessoas foram presas sob suspeita de envolvimento no desaparecimento e morte do policial. Indícios apontam que o cabo possa ter sido julgado e executado por um chamado “tribunal do crime”. Entre os detidos estão três pessoas que, segundo a investigação, teriam sido as últimas a ver o PM com vida, e o proprietário do sítio onde o corpo foi encontrado. O caseiro chegou a ser preso, mas foi liberado após a polícia concluir, preliminarmente, que ele não teria participação no crime.
Reconhecimento do corpo e acompanhamento à família
O reconhecimento do corpo foi feito por perícia papiloscópica, devido ao estado dos restos mortais. A Polícia Militar informou que familiares do cabo estão recebendo apoio institucional, além do suporte de amigos e de um advogado da família.
O reconhecimento demorou porque foi realizado por meio de impressões digitais, e não por reconhecimento visual. A família permanece assistida pela Polícia Militar, por amigos e por um advogado da própria família
Polícia Militar
Versões sobre a noite do desaparecimento
De acordo com relatos colhidos pela Polícia Civil, Fabrício passou as últimas horas antes de desaparecer bebendo com dois conhecidos — identificados como Mirys Sthefanny Bezerra Siqueira e Isaque Duarte da Silva — e com um terceiro homem, Riclecio Cerqueira de Moraes.
Em depoimento, Isaque afirmou conhecer Riclecio do bairro e relatou que pegou carona de moto com ele até a rua de sua casa, na noite do desaparecimento. Ao chegar, encontrou Fabrício e Mirys, uma mulher trans, bebendo na garagem do sogro do policial. Disse ter decidido se juntar ao grupo.
Isaque declarou que já conhecia Fabrício, que havia morado no bairro, mas que não conhecia Mirys. Contou ainda que Riclecio resolveu permanecer no local, bebendo com os demais. Em determinado momento, segundo o depoimento, houve um desentendimento entre Riclecio e Fabrício por causa de uma aposta de queda de braço.
Após o bate-boca, Riclecio teria admitido que estava errado e deixou o local em sua moto. Isaque diz que continuou com Fabrício e Mirys até por volta das 7h da manhã, quando saiu com o policial em seu carro em direção a uma padaria próxima. Mirys teria ficado na garagem, à espera do retorno de Fabrício.
No trajeto, ainda segundo Isaque, os dois foram abordados por um homem conhecido pelo apelido de “Gato Preto”, que dirigia um Gol modelo “bola” e atua como motoboy. O motorista perguntou se eles estiveram com Riclecio e se sabiam de uma briga entre ele e um policial.
Isaque confirmou ter presenciado a discussão. Em seguida, “Gato Preto” relatou que Riclecio havia ido até sua casa e reclamado de um conflito com um “polícia”. Nesse momento, de acordo com o depoimento, Fabrício teria ficado nervoso e dito que iria até o fim da rua, em uma biqueira, para “conversar” com o homem envolvido, preocupado com a repercussão do desentendimento.
Isaque afirmou ter tentado convencê-lo a desistir, sugerindo que resolvessem a situação depois, mas o policial insistiu. Ao chegarem ao ponto indicado, foram recebidos por cerca de seis pessoas, cujas identidades o depoente diz não conhecer. Assim que desceram do carro, ambos foram separados pelo grupo.
Os suspeitos passaram a questionar se o PM estava armado. Ele confirmou e teve dois revólveres retirados pelos homens, de acordo com Isaque, que afirma não ter visto mais o policial a partir desse momento. Isaque contou ter sido conduzido por um homem forte, de cabelos grisalhos, até uma parte mais estreita da rua, onde foi submetido a diversas perguntas sobre a briga e se era parente de Fabrício.
Em certo ponto, um dos suspeitos teria afirmado que o policial seria morto. Isaque estima ter permanecido cerca de duas horas no local até ser liberado, ocasião em que outro integrante do grupo disse que Fabrício já estaria morto. Ao ir embora, notou que o carro do policial não estava mais na área. Ele declarou não ter visto Riclecio na cena e que, depois disso, não teve mais notícias do PM.
Fabrício Gomes de Santana iria se casar no civil na última sexta-feira (9/1). O corpo dele foi encontrado em um sítio, em Embu-Guaçu.
Foto: Reprodução / TV Globo.
Suspeito nega briga e relata uso de drogas
Em depoimento separado, Riclecio negou qualquer desentendimento com Fabrício. Disse aos investigadores que conhece Isaque como um conhecido traficante da região, afirmação rebatida por Isaque. Ele confirmou que estava com o colega em sua moto quando foi levado até o local onde Fabrício e Mirys bebiam, por volta de meia-noite.
Segundo sua versão, deixou Isaque com o grupo e saiu para comprar cerveja, retornando em seguida e permanecendo com eles até por volta de 3h. Durante esse tempo, relatou ter levado Mirys duas vezes de moto a uma biqueira para que ela comprasse drogas, retornando depois às reuniões com o grupo.
Riclecio afirmou ainda que, inicialmente, não sabia que Fabrício era policial e que só tomou conhecimento disso na segunda vez em que voltou da biqueira. Ele declarou ter consumido drogas com Isaque e Mirys, enquanto o PM teria ingerido apenas bebidas alcoólicas. Disse também que deixou os três no local e passou por outros três bares antes de ir para casa, já pela manhã.
Ao acordar, por volta do meio-dia de quinta-feira, contou ter recebido ligação de Mirys perguntando se sabia do paradeiro de Isaque. Ele respondeu que não e disse que a avisaria caso soubesse de algo.
Rastro do carro e prisão de suspeitos
No fim da tarde seguinte ao desaparecimento, a polícia foi informada de que o Ford Ka de Fabrício havia sido localizado carbonizado em uma estrada de terra no bairro Jardim Mombaça, em Itapecerica da Serra. Paralelamente, a Delegacia de Itapecerica da Serra obteve imagens de câmera de segurança mostrando o veículo transitando pela rua Richard Beck, uma via de terra batida, por volta das 16h30 de quinta-feira (8/10).
As imagens mostram ainda um Corsa seguindo o Ford Ka. A rua registrada fica próxima ao ponto onde o veículo foi queimado. O motorista do Corsa, segundo a polícia, é um dos suspeitos presos na sexta-feira (9).
Consulta à placa do carro revelou como proprietário Gleison Humberto Santos Dias, de 40 anos. A polícia chegou ao endereço dele no Jardim Ângela, na zona sul de São Paulo, onde encontrou o veículo estacionado em frente ao imóvel, com três galões vazios com cheiro de gasolina no porta-malas. Gleison foi levado à delegacia para prestar depoimento.
Em seu relato, afirmou ser conhecido no bairro como “Gato Preto” — o mesmo apelido do homem citado por Isaque, que teria abordado o policial e o levado ao local onde foi visto pela última vez. Gleison negou participação no desaparecimento e disse que os galões encontrados no carro são de uso pessoal, para situações em que a gasolina acaba.
Ele contou que, por volta das 15h de quinta-feira, estava na rua quando um homem identificado apenas como Fábio lhe pediu que o acompanhasse até o bairro Santa Júlia, em Itapecerica da Serra, onde venderia um carro. O combinado era que Gleison o trazesse de volta após a suposta venda.
Segundo o depoimento, o veículo seria o Ford Ka, depois identificado como sendo de Fabrício. Gleison afirmou ter seguido o carro conduzido por Fábio até determinado trecho de estrada, quando o homem pediu que o motorista do Corsa o esperasse, entrando com o Ford Ka em uma área de mata. Em seguida, retornou e entrou no Corsa, e os dois voltaram ao bairro onde moram. Gleison disse conhecer Fábio da comunidade, mas não saber onde ele reside.
Corpo achado em sítio e investigação em curso
A partir de diligências da Polícia Militar, da Polícia Civil e de denúncias da população, equipes chegaram a um sítio em Embu-Guaçu. Em uma área de mata dentro da propriedade, com apoio de um cão farejador, foi encontrado um corpo enterrado, posteriormente identificado como o de Fabrício. O momento da descoberta foi registrado em vídeo.
A Polícia Militar ainda busca as gravações de câmeras de segurança da adega onde teria começado a discussão que antecedeu o desaparecimento do cabo. O caso segue sob investigação na Delegacia de Polícia de Itapecerica da Serra, que apura a participação dos suspeitos presos e a possível atuação de um tribunal do crime na execução do policial.