Poupança tem saída líquida de R$ 85,6 bilhões em 2025 e perde espaço para outros investimentos

Com quinto ano seguido de saques superiores aos depósitos, caderneta é pressionada por juros altos, migração para renda fixa mais rentável e uso das reservas para despesas das famílias, apesar de ganho real positivo no ano

12/01/2026 às 07:48 por Redação Plox

A caderneta de poupança voltou a registrar saída líquida de recursos em 2025, consolidando o quinto ano seguido em que os saques superam os depósitos. Dados do Banco Central mostram que foram aplicados R$ 4,27 trilhões ao longo do ano, enquanto as retiradas somaram R$ 4,36 trilhões, o que resultou em saldo negativo de R$ 85,6 bilhões.

O volume de recursos que deixou a poupança em 2025 foi o maior desde 2023, quando o saldo negativo atingiu R$ 87,8 bilhões. No recorte dos últimos cinco anos, o resultado só não foi pior que o de 2022, quando os saques superaram os depósitos em R$ 103 bilhões. Em 2021, o saldo fechou em R$ 35 bilhões negativos, e, em 2024, em R$ 15,4 bilhões negativos.

Foram depositados R$ 4,27 trilhões na caderneta em 2025, contra R$ 4,36 trilhões de saques

Foram depositados R$ 4,27 trilhões na caderneta em 2025, contra R$ 4,36 trilhões de saques

Foto: Agência Brasil


Poupança perde espaço para renda fixa mais rentável

O movimento de retirada acontece em um cenário em que a poupança, antes vista como principal porta de entrada no mundo dos investimentos, vem perdendo espaço no portfólio dos brasileiros. Especialistas apontam como principais fatores a taxa básica de juros em patamar elevado, que impulsiona o retorno de outros produtos de renda fixa, como o Tesouro Direto, e o avanço da educação financeira, que leva o investidor a buscar alternativas seguras, porém mais rentáveis.

Para Rafael Winalda, especialista em renda fixa do banco Inter, os juros altos reduziram a atratividade da caderneta diante de aplicações que oferecem rentabilidade superior, risco semelhante e liquidez diária. Segundo ele, o investidor passou a perceber a ausência de prêmio em manter o dinheiro na poupança.

Winalda também chama atenção para a pressão sobre a renda das famílias, que teriam recorrido aos recursos guardados para cobrir despesas do dia a dia e reorganizar o orçamento em meio à inflação elevada. Nessa leitura, a evasão não é apenas uma decisão de alocação, mas parte de um processo de recomposição patrimonial.

O especialista acrescenta que até o investidor mais conservador modificou seu comportamento, abrindo espaço para Tesouro Direto, CDBs com garantia do FGC e fundos simples de renda fixa. Nesse contexto, a poupança deixa de ser o “ativo padrão” do investidor conservador e passa a funcionar, sobretudo, como conta de passagem, não mais como destino final de investimento.

Dezembro tem respiro, mas saldo anual segue negativo

Apesar do ano ruim, a poupança encerrou 2025 com um pequeno fôlego: dezembro registrou o primeiro resultado positivo desde junho. No mês, os depósitos somaram R$ 432,8 bilhões, ante R$ 427,3 bilhões em saques, o que gerou entrada líquida de R$ 5,4 bilhões.

Com isso, o estoque total da poupança passou de R$ 1,01 trilhão em novembro para R$ 1,02 trilhão em dezembro. O montante, porém, ainda é inferior ao de dezembro de 2024, quando o saldo era de R$ 1,03 trilhão. Historicamente, o último mês do ano costuma registrar movimento positivo na caderneta, impulsionado pelo pagamento de gratificações natalinas.

Poupança volta a proteger contra a inflação

Mesmo perdendo recursos, a poupança teve desempenho real positivo em 2025. Pelo quarto ano consecutivo, o rendimento da caderneta superou a inflação, preservando o poder de compra dos poupadores. Segundo levantamento da Elos Ayta Consultoria, a aplicação rendeu 8,19% no ano passado, frente a uma inflação acumulada de 4,26%. O ganho real foi de 3,77% para quem deixou o dinheiro aplicado durante o período.

Na comparação com outros referenciais do mercado, porém, o resultado ainda é fraco. Houve perda relevante para o CDI, cuja rentabilidade real no mesmo intervalo ficou em 9,77%. A diferença reforça a avaliação de que a poupança continua sendo uma alternativa pouco eficiente quando o critério é retorno.

O especialista Einar Rivero, da Elos Ayta Consultoria, destaca que o atual cenário contrasta com boa parte da década passada. Entre 2013 e 2021, a poupança passou longos períodos oferecendo ganhos reais muito baixos ou até negativos, como em 2015, 2019, 2020 e 2021, quando o rendimento ficou abaixo da inflação, mesmo se tratando de um produto sem risco de crédito para o investidor.

O dado chama atenção sobretudo pelo contraste com a década passada. Entre 2013 e 2021, a poupança passou longos períodos oferecendo ganhos reais irrisórios ou até negativos, como em 2015, 2019, 2020 e 2021, anos em que o investidor viu o dinheiro render menos do que a inflação, mesmo sem assumir qualquer riscoEinar Rivero

Para Einar, a distância entre o desempenho da poupança e o do CDI ajuda a explicar por que a caderneta é vista como pouco eficiente sob a ótica de retorno. Mesmo investidores conservadores que optaram por fundos referenciados DI com rendimento de 90% do CDI, por exemplo, teriam obtido resultado superior ao da caderneta.

Na avaliação do especialista, o quadro atual mostra que o investidor não precisa abrir mão de segurança para buscar retornos consistentemente melhores, já que alternativas simples de renda fixa conseguem superar com folga o desempenho da poupança, mesmo em um ambiente em que ela volta a garantir proteção contra a inflação.

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