Em depoimento, donos de academia apontam erro de funcionário em morte após aula de natação
Indiciados por homicídio com dolo eventual, sócios dizem ter sido surpreendidos e afirmam que funcionário agitou balde com cloro em pó perto da piscina, gerando névoa do produto
12/02/2026 às 13:08por Redação Plox
12/02/2026 às 13:08
— por Redação Plox
Compartilhe a notícia:
Os três proprietários da academia C4 Gym, na Zona Leste de São Paulo, prestaram depoimento no fim da tarde desta quarta-feira (11/2) no 42º Distrito Policial (Parque São Lucas). Eles são investigados no inquérito que apura a morte da professora Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, após um episódio de intoxicação na piscina do estabelecimento.
Donos da C4 Gym e funcionários responsável por manusear produtos químicos da manutenção da piscina
Foto: Reprodução / TV Globo
Indiciados por homicídio com dolo eventual, Celso Bertolo Cruz, Cesar Bertolo Cruz e Cezar Augusto Miquelof Terração detalharam à polícia a divisão interna de responsabilidades na empresa e relataram o que souberam no dia da ocorrência. Em comum, os três afirmaram ter sido surpreendidos pelos fatos e atribuíram ao manuseio inadequado de cloro pelo funcionário responsável pela piscina a origem do problema.
Funções dos sócios e rotina de manutenção da piscina
Em seu interrogatório, Celso Bertolo Cruz disse ser o sócio responsável pela manutenção predial da empresa Borghi Natação, grupo ao qual a C4 Gym está vinculada. Segundo ele, seu irmão Cesar Bertolo atua na área comercial e Cezar Augusto na administração.
Celso declarou possuir certificação para manutenção e tratamento de piscinas desde 2023. Após obter a habilitação, passou a responder tecnicamente pela piscina da academia, embora já realizasse a manutenção antes disso, quando ainda não havia um responsável técnico formal.
“Perguntado informa que é profissional devidamente habilitado para manutenção e cuidado de piscinas, possuindo certificado desde 2023. No que diz respeito ao que lhe foi ensinado no curso, perguntado, informa que em razão do curso, pode indicar terceiros a realizarem a manutenção de piscinas sob sua supervisão.”Depoimento de Celso
De acordo com o depoimento, a manutenção cotidiana era executada pelo manobrista Severino José da Silva, de 43 anos, sob sua supervisão. Celso afirmou que o funcionário realizava medições da água e enviava fotos com os resultados, a partir das quais ele orientava a dosagem de cloro a ser aplicada.
Questionado pelo delegado sobre o fato de o funcionário não utilizar equipamentos de proteção ao manusear os produtos químicos, o sócio disse que a academia disponibiliza equipamentos de proteção individual, como luvas e máscaras. Ele, porém, não soube explicar por que Severino não usava esses itens no momento dos fatos, nem se havia controle formal de entrega de EPIs.
Episódio anterior e recusa de terceirização
Celso também confirmou que, no início de 2025, houve um episódio em que a piscina apresentou turbidez e formação de espuma. Na ocasião, segundo ele, as aulas foram suspensas e uma empresa especializada foi contratada para normalizar a água, em um serviço que durou alguns dias.
Apesar de ter recebido proposta para terceirizar a manutenção de forma permanente, Celso afirmou que preferiu manter a atividade sob sua responsabilidade. Ele avaliou que os problemas eram pontuais e relacionados à limpeza, sem risco à saúde, e ressaltou que seus filhos, assim como familiares de outros sócios, frequentam aulas na piscina.
Em depoimento, Celso pontuou que os problemas sempre foram pontuais e ligados à limpeza, e que considerava a piscina de extrema confiança justamente porque familiares utilizavam o local.
Relato sobre o dia da morte e imagens internas
Celso relatou que tomou conhecimento do ocorrido por volta das 14h10 de sábado (7/2), ao perceber chamadas não atendidas de Severino. Ao retornar o contato, foi informado de que havia “algum problema com o cloro”, que pessoas tinham passado mal e que o prédio havia sido evacuado.
Na sequência, conversou com o coordenador de natação, identificado como Marcel, que teria descrito as imagens do sistema interno de monitoramento. Segundo o relato, as câmeras mostrariam Severino abrindo um balde com cloro em pó na área próxima à piscina e agitando o recipiente, o que teria provocado a dispersão de uma névoa do produto. Em seguida, ele teria guardado o balde sem utilizar o conteúdo.
Ainda conforme o depoimento, o funcionário levou até a borda da piscina outro balde, com cloro já diluído, procedimento que seria habitual ao término das aulas, desde que o recipiente permanecesse tampado.
Celso afirmou desconhecer o motivo pelo qual Severino teria manuseado o cloro em pó daquela forma, classificando a conduta como desnecessária e equivocada. À polícia, declarou ter certeza de que o funcionário errou ao manusear cloro em pó nas proximidades da piscina.
Ele também admitiu ter apagado mensagens trocadas com Severino no dia dos fatos, alegando que agiu de forma desesperada ao saber da morte da aluna. Segundo o depoimento, o conteúdo seria apenas de orientações rotineiras sobre medição e dosagem de cloro.
No registro oficial, Celso afirmou que, tão logo soube do falecimento de Juliana, apagou algumas mensagens por impulso, mas disse que elas tratavam apenas de medições e dosagens de cloro aplicadas na piscina e que revelou todo o conteúdo da conversa às autoridades.
Decisão de esperar até o dia seguinte
Cesar Bertolo Cruz, responsável pela área comercial, declarou que não participa da rotina operacional da academia. Ele contou que tomou conhecimento do caso na noite de sábado, quando estava com o sócio Cezar Augusto e recebeu ligação de uma funcionária informando que uma aluna havia passado mal e estava hospitalizada.
Minutos depois, segundo o depoimento, a mesma funcionária retornou com a notícia da morte. Diante da informação, os três sócios fizeram uma chamada de vídeo com um advogado criminalista. Como, de acordo com o relato, ainda não havia confirmação oficial das autoridades, decidiram aguardar até a manhã de domingo antes de tomar novas providências.
Cesar disse saber que Severino foi contratado como manobrista e também para auxiliar na manutenção da piscina, sempre sob supervisão de Celso, que o teria treinado. Segundo o depoimento, o antigo tratador da piscina também participou dessa capacitação.
Ele afirmou que apenas reclamações pontuais e sem gravidade sobre a qualidade da água chegaram ao seu conhecimento. Após assistir às imagens divulgadas pela imprensa, disse ter estranhado o modo como o produto químico foi manuseado, classificando o procedimento como fora do padrão técnico.
Estrutura da empresa e situação de documentos
Cezar Augusto Miquelof Terração, responsável pela área financeira, relatou que também soube do caso na noite de sábado, por meio da mesma funcionária. Ele confirmou a realização da chamada de vídeo com os sócios e o advogado e afirmou que, no domingo, foi informado de que bombeiros já haviam acessado o prédio.
Cezar declarou não acompanhar a rotina da piscina e disse que sempre confiou nas condições do local, destacando que sua mãe e sua filha frequentam aulas na academia.
Ele explicou que existem dois CNPJs: um da Borghi Natação, responsável por oito filiais, e outro da C4 Gym Franchise, voltado à gestão de franquias. Informou ainda que o AVCB e a documentação da Vigilância Sanitária estariam regulares, mas confirmou que o alvará de funcionamento da Prefeitura está vencido.
Indiciamento e próximos passos da investigação
Os depoimentos prestados pelos três empresários integram o conjunto de provas analisadas pela Polícia Civil, que já os indiciou por homicídio com dolo eventual. A principal linha de investigação aponta para a possível liberação de gases tóxicos decorrente do manuseio inadequado de cloro em ambiente fechado.
A Justiça ainda vai analisar o pedido de prisão formulado pelo delegado responsável pelo caso. Enquanto isso, o inquérito segue em andamento para esclarecer as responsabilidades criminais pelo episódio que resultou na morte da professora Juliana Faustino Bassetto e na internação de outros frequentadores da academia.